RESENHA | Clássicos: Filme “O Grande Ditador”

O Grande Ditador
(livre de spoilers)

Texto de Fernanda Scheffler.

O Grande Ditador foi lançado como o primeiro filme falado que foi criado, dirigido e atuado por Charles Chaplin. Seguiu às telas de cinemas em 1940, quando a Segunda Guerra Mundial estava em seu apogeu. A Alemanha invadia os acres poloneses e fechava contratos com a União Soviética que seriam posteriormente quebrados; o regime nazista iniciava a descarada perseguição aos judeus, ideia propagada por Adolf Hitler e Benito Mussolini. Ambos os personagens, na sátira obra, transformam-se respectivamente em Adenoid Hynhel, da Tomânia, e Benzino Napolini, da Bactéria, ambas nações fictícias.

O filme se inicia com o seguinte aviso:

“Essa é uma história entre as duas guerras mundiais – período separado pela insanidade. A liberdade se entranhou e a humanidade foi atormentada”.

Em seguida corta-se para 1918, final da Primeira Grande Guerra, onde um barbeiro judeu tenta salvar um soldado do exército e é ferido nas trincheiras, perdendo a memória quando o avião em que estava colide com uma árvore.

20 anos se passam e o barbeiro judeu desperta no hospital sem conhecimento de que o poder do ditador fascista Adenoid Hynkel cresce a cada hora, assim como suas políticas antissemitas. Assim sendo, retorna ao seu bairro – antes tranquilo – onde é aterrorizado com as mudanças brutais que lá ocorreram. Inconsequentemente se une a Hannah, uma bela jovem a qual descobre o amor, e aos seus vizinhos para se rebelar.

Em determinado momento, após culminantes acontecimentos, o barbeiro troca de identidade com Hynkel (com quem se parece muito, obviamente), e é levado para a capital da Tomânia para um discurso de vitória. Chaplin, assim sendo, discursa de forma oposta às ideias antissemitas propostas pelo ditador, e expõe seus ideais democráticos em prol da liberdade e da igualdade, moldando um dos mais belos discursos da história do cinema.

Segue um dos trechos:

“O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens, levantou no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco”.

Para conferir o discurso completo, veja o vídeo abaixo.

https://youtu.be/K2K9519Upes

É perceptível que Chaplin era um visionário consciente da época em que vivia e, assim como muitos, temia o que poderia acontecer no dia de amanhã, onde quem dormia não sabia se acordaria. Pensando nisso criou essa obra de arte que critica claramente ao regime nazista e que mostra os judeus de maneira distinta a como eram estereotipados pelos filmes da época: um povo que valorizava mais o dinheiro que a sua individualidade. Das palavras de Franz Lima:

“Mais do que um povo perseguido, eles são retratados como pessoas que tem sua individualidade, seus defeitos e predicados, humanos como quaisquer outros. A mensagem final é de tolerância e respeito pelas diferenças culturais e raciais”.

E assim se encerra uma obra que inclui humor, história e moral numa narrativa realista e genial. Poucos filmes, livros e músicas permanecem tão atuais, principalmente depois de mais de 70 anos.

Facebook Comments

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: