MATÉRIA | Clássicos: A síndrome de Werther – Goethe 

Texto de Fernanda Scheffler.

(com rasos spoilers)

Finais do século XVIII. Johann Wolfgang von Goethe, um dos mais importantes e influentes escritores da história da literatura, lança “Os Sofrimentos do Jovem Werther”.

Hoje o romance é visto como um dos grandes exemplos de obras historiográficas e, obviamente, um dos marcos da literatura mundial. Retrata o movimento Romântico da época, o combate ao racionalismo e ao método (que, segundo os idealistas românticos, roubava do mundo seu encantamento), os ideais femininos, o desejo místico, o território dos intelectuais, políticos e filósofos. É difícil, na verdade, elaborar um conceito único sobre essa obra ou sobre esse movimento, ou sobre a importância e influência de ambos.

“A vida humana não passa de um sonho. Mais de uma pessoa já pensou nisso. Pois essa impressão também me acompanha por toda a parte. Quando vejo os estreitos limites onde se acham encerradas as faculdades ativas e investigadoras do homem, e como todo o nosso trabalho visa apenas a satisfazer nossas necessidades, as quais, por sua vez, não têm outro objetivo senão prolongar nossa mesquinha existência; quando verifico que o nosso espírito só pode encontrar tranquilidade, quanto a certos pontos das nossas pesquisas, por meio de uma resignação povoada de sonhos, como um presidiário que adornasse de figuras multicoloridas e luminosas perspectivas as paredes da sua cela… tudo isso, Wilhelm, me faz emudecer. Concentro-me e encontro um mundo em mim mesmo! Mas, também aí, é um mundo de pressentimentos e desejos obscuros e não de imagens nítidas e forças vivas. Tudo flutua vagamente nos meus sentidos, e assim, sorrindo e sonhando, prossigo na minha viagem através do mundo.”

(Trecho de Os sofrimentos do jovem Werther)

 “Os Sofrimentos do Jovem Werther” é uma obra epistolar escrita em quatro semanas, contada na forma de cartas que são enviadas de Werther – um aristocrata alemão – ao amigo Wilhelm contando sobre suas viagens e experiências.

Muitas pessoas classificam a obra em duas metades, sendo a primeira a mais filosófica, narrativa, onde Werther derrama seu encantamento do mundo nas palavras que escreve, e esmiuda os campos pastoris os quais perpassa; e a segunda a mais atormentadora, que detalha a angústia de um amor impossível, dos tormentos que passa com Lotte, da melancolia, da dor e da culpa por sentimentos tão dilacerantes e odiosos como os que ele sentia.

Sabe-se que foi inspirado em histórias reais, misturando a história do próprio autor com uma mulher casada chamada Carlota Buff com a ficção goethiana, onde Goethe tomara conhecimento pelo marido de Carlota sobre uma tragédia em Jerusalém, sobre um homem que se suicidara tomado de profunda depressão por culpa de um amor impossível.

Esse romance faz uma análise ao homem do século XVIII – paradoxal, dramático, intenso – e retrata a paixão arrebatadora de um jovem aristocrata alemão por uma mulher casada culminando em seu suicídio, a cena mais perturbadora e comovente do livro. Possui um realismo tão indescritível que, na época, provocou uma onda de suicídio nos jovens leitores da década. Foram atraídos pela energia depressiva de Werther e agiram da mesma maneira, pondo fim à própria vida e atirando na cabeça.

Não demorou para a igreja considerar “Os Sofrimentos do Jovem Werther” uma obra amaldiçoada e sua venda foi proibida em diversos países devido à angústia que provocava.

Anos depois, foi desenvolvido o efeito Werther na Psicanálise, que é quando um comportamento suicida se propaga em onda após o suicídio de figuras públicas ou influenciadoras. Por exemplo, após a morte de Kurt Cobain, foram registradas em pesquisas consecutivos suicídios.

Isso nos carrega à problemática da banalização da morte que parece haver na obra. O próprio Goethe se defendeu dessa acusação, negando que seu romance incite o suicídio.

De qualquer forma, é inegável que “Os Sofrimentos do Jovem Werther” seja uma obra eterna, que ainda ensina, ainda provoca sensações, das mais belas às mais dilacerantes, que retrata um período paradoxal da história da literatura e da humanidade; é um marco não só na Alemanha, mas no mundo.

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