RESENHA+PRESENTE | Dois Contos, W. Teca

Livro: Dois contos.
Autor: W. Teca
Ano: 2017
Editora: Independente. Amazon.
Sinopse:


Aqui são encontrados traços típicos da cidade, de boemia e sem dúvida, de ironia e certa marginalidade.
Dentre os contos, vale dizer que “antes mal acompanhado do que só” virou peça de teatro, logicamente, encenada no underground curitibano.

É muito comum ouvirmos que a arte imita a vida, de modo que, assim como para Platão e Aristóteles, ela nada mais fosse que uma simples representação da Ideia ou da Natureza, estando, portanto, dada numa espécie de relação de espelhamento com o Real. A essência imitativa da arte é um tema que atravessa toda a história da arte, e seu eco pode ainda ser ouvido em nossos dias, apesar de todo o esforço da arte contemporânea de libertar-se desse destino de representar ou copiar o real imposto pelo fazer artístico. Não seria tão absurdo afirmar que o romance contemporâneo seja, entre muitas coisas, uma reação a tal metafísica da arte. Proust, Joyce e Kafka, o nouveau roman, os beatniks…; vozes conjuntas protestando, inebriados pelas novas possibilidades que a literatura experimentava, na aurora do século XX, contra aquilo que por muito tempo definiu o fundamento do que chamamos de romance.

Dois Contos – Capa

Com efeito, parece-me viável dizer que o livro Dois contos, de W. Teca, segue o reboque das subversões da literatura contemporânea. Os dois contos que compõem o livro são como recortes brutos da vida, cuja semelhança com as notícias que lemos nos jornais – relatos breves que desenham os contornos nítidos da realidade – afasta-nos de qualquer impressão de se estar diante de um texto clássico, no seu sentido erudito – vale notar que, no segundo conto, intitulado Antes mal acompanhado do que só, a personagem principal e narrador faz troça dos acadêmicos, apresentados como “alguém cujas dentaduras triplas cintilavam a cada termo teutônico cultivado a áridos sacrifícios salivares, que cavavam as profundezas de velhos tomos de conhecimento esquecido.” Tipos engajados numa “argumentação fiada na epistemologia deontológica da ontologia dos ornitorrincos.”

Em Trópico de câncer, Henry Miller narra as suas aventuras e desventuras – etílicas, sexuais, filosóficas e existenciais – pelos bares, hotéis e bulevares franceses; acompanhamos os devaneios de um sujeito comum, até mesmo um pouco repulsivo, de índole questionável, despejando suas impressões sobre o mundo, incluindo, aqui, os seus preconceitos. Assim é também a personagem principal e narrador do primeiro conto, Conga na boca do cachorrão: destila seus preconceitos e impressões com uma inocência quase perdoável, através da simplicidade de seu linguajar carregado de sujeito comum, vindo da periferia e inserido no mundo da classe média que, desde o início, percebemos que não é o seu. É de uma forma quase teatral que ele se insere nesse mundo, guiado pelas lições de Cachorrão. Nós leitores somos quase tentados a nos perguntar quando é que isso vai dar errado.

O autor confronta-nos com uma personagem periférica, destituída de heroísmo ou virtude, que exige um outro tipo de olhar, uma outra forma de percepção, para que não caiamos nas conveniências esclerosadas do julgamento moral. Um certo status quo da literatura contemporânea impõe que as personagens devem satisfazer à ânsia narcísica do leitor por identificação – a personagem deve, em algum nível, espelhar ou afirmar a psiquê do leitor, seus valores, sua visão-de-mundo -, ou lhe trazer alguma mensagem que, no limite, nada mais é do que aquilo que ele, o leitor, previamente desejava ouvir.  Mas aqui, não é possível rastrear nenhuma condescendência por parte do autor, nenhuma preocupação servil. Ele sabe que as personagens marginais não objetivam agradar, isto é, não cabe a nós amá-las ou odiá-las; o único gesto possível do leitor seja, talvez, o gesto complacente de uma compreensão sem adesão ou aprovação.

O mundo de Conga na boca do cachorrão, um mundo de sexo, álcool, drogas, preconceitos, vulgaridades, destrutividade e niilismo, demanda tão-somente isto: compreensão. Pois esse mundo existe, quer saibamos ou não, quer admitamos ou não, e a literatura é como uma lente microscópica que nos faz ver mundos inteiramente outros, estranhos, e que ampliam, dessa maneira, a nossa percepção da realidade pensada não como única, mas como essa pluralidade de mundos maiores e menores que, por vezes, ignoramos.

Se eu pudesse definir em poucas palavras este livro, eu diria que ele é como uma vitrine que nos mostra a vida de homens infames. Exemplos provocadores da vida nua e crua. A nudez e a crueza, em Dois contos, devem menos ao estilo que à materialidade dos acontecimentos narrados. Penso, evidentemente, em Foucault, num belo texto intitulado A vida dos homens infames. Esse texto é uma introdução a uma antologia organizada pelo próprio Foucault, que reúne arquivos de internação do Hospital Geral e da Bastilha. A definição que ele dá para a sua antologia poderia perfeitamente servir como complemento à definição que dei, logo acima, para este livro: “Vidas de algumas linhas ou de algumas páginas, desventuras e aventuras sem nome, juntadas em um punhado de palavras.” Desventuras e aventuras sem nome, diz Foucault, e as personagens principais desse livro não respondem a nenhum nome, delas, só podemos dizer: “um cara”. O artigo indefinido denota a pura marginalidade dessas vidas, tão marginais que nem mesmo um nome lhes é dado.

À brevidade de cada um dos contos corresponde a brevidade dessas vidas diminutas, insignificantes, em suma, infames. Nenhuma lição retiraremos delas, mas elas pulsam, vibram, fulguram, como um mosaico multicolorido que amarra os fragmentos da existência.

Livro recomendadíssimo para qualquer um que deseje uma experiência diferenciada em literatura.

O autor disponibilizou o livro gratuitamente, basta apenas você clicar neste link, preencher e fazer o download de graça! Mas caso você queira dar uma força ao autor, pode adquirir o livro em versão digital no seguinte links:
Amazon (para kindle): Dois Contos

 

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Sobre o autor

Raony Moraes
Resenhista do Clube de Livros, estudante de filosofia em hiato acadêmico, desenvolvedor independente de jogos eletrônicos e escritor amador. Catarinense de nascença, vive atualmente no interior de SP, mas pretende retornar à Curitiba, cidade que considera a sua verdadeira casa. 🙂

Raony Moraes

Resenhista do Clube de Livros, estudante de filosofia em hiato acadêmico, desenvolvedor independente de jogos eletrônicos e escritor amador. Catarinense de nascença, vive atualmente no interior de SP, mas pretende retornar à Curitiba, cidade que considera a sua verdadeira casa. :)

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