RESENHA | Paixão e crime, de João Paulo Balbino

Paixão e Crime
Autor: João Paulo Balbino
Ano: 2017
Editora: Luva
Sinopse:

Paixão e Crime. Duas palavras distintas, porém tão próximas. Não seria surpresa se você conhecesse ao menos uma história envolvendo ambas. Mas qual o elo entre elas? E quais barreiras morais uma pessoa seria capaz de transgredir por uma paixão? Sara – renomada psicóloga – ao manter um caso às escondidas com o namorado de sua paciente, jamais imaginaria que ele seria misteriosamente assassinado, o que a coloca em um dilema: contar o segredo e destruir sua carreira de sucesso, ou ficar em silêncio e despontar como a principal suspeita? Já Helena, serial killer que ganha a vida se prostituindo, descobre que sua última vítima mortal parece estar viva. Mas como?

Quem nunca teve ou conheceu alguém que tinha algum tipo de coleção? Quem sabe ainda a tenha! Moedas, discos de vinil, selos, bonecas, fotografias antigas e até mesmo aquele lindo jogo de porcelana mantido impecável na estante da sua tia-avó: qualquer objeto possui grande potencial para se tornar colecionável e, para quem o coleciona, não se trata de entulho, mas sim de algo especial.
No entanto, o que pensar quando esse hobby bastante comum revela-se… macabro?

Em Paixão e Crime, uma prática e inteligente trama policial, somos apresentados ao peculiar hábito de colecionar fitas k7 contendo relatos de crimes, sejam eles contados pelas vítimas ou pelos assassinos. É revelada, inclusive, a existência de um estranho Clube dos Relatos, onde pessoas trocavam esses tipos de depoimentos pelo simples deleite de ouvi-los.

O livro nos traz uma visão peculiar de como é frágil a linha que separa a paixão da loucura, mostrando que o homem possui extremo potencial para ser o grande predador da própria raça. Morrer por alguém pode nos remeter a romances trágicos, atos de heroismo, por aí vai, certo? E quanto a matar por alguém? Matar por si próprio? Matar.

A paixão tem a irredutível capacidade de gerar amores extasiantes, assim como pode gerar dramas inesquecíveis. Tudo depende da sensatez.

“Gostava de ouvi-las. Não sei por que, mas gostava.” — pág. 8

Nosso protagonista é introduzido a esse universo de apreciador de tragédias através do seu sogro, embora seja a curiosidade sua melhor/pior conselheira. A narrativa é iniciada sem rodeios, oferecendo as explicações necessárias para uma ligeira introdução, e conserva essa postura simples e ágil no decorrer da história.

Somos apresentados então a quatro diferentes subtramas, as quais se entrelaçam de maneira sútil, o que é divertido de se observar, pois o autor elabora uma bela teia onde os fatos de fácil compreensão se interligam em pontos minuciosos, mas que terminam compondo um enredo excitante muito bem trabalhado.

Na primeira subtrama, intitulada Dilema de Morte, conhecemos Sara, uma psicóloga que sofre de depressão. Soa irônico, não?

Sara se envolve em um perigoso caso amoroso e se vê numa situação desesperadora. Há o irresistível recurso do “Quem matou…”, e o mistério se prolonga quase até a conclusão, porque para quem for atento, solucionará a questão a partir de um diálogo-chave segundos antes de tudo ser esclarecido. A revelação não chega a ser chocante, porém, cumpre com o seu papel de surpreender não adianta, você vai pensar que o assassino é fulano, e vai errar.

“Por isso ouvir o sofrimento alheio me alivia. É minha forma de lembrar que existem outras pessoas na pior também.” — pág. 11

 Já na segunda subtrama, Misterioso Homem Em Minhas Fotos, é relatada a história mais original e instigante do livro.

Aqui conhecemos Anita, mulher de 30 e poucos anos que tem certa paranoia quanto à segurança pessoal; que também soa irônico, afinal, para alguém desconfiada, Anita se atira fácil demais em relacionamentos, além de não saber se precaver a respeito de confiança mesmo quando é aparentemente perseguida por um maníaco desconhecido.

Em dado momento de novo, para os mais atentos , a história se torna óbvia. Ainda assim, é interessante compreender as razões que motivaram o antagonista da vez. O final, sim, é inesperado e satisfatório.

“Ricardo puxou a cadeira para mais perto de mim. Pegou a foto em que eu aparecia almoçando e apontou para a ampla vitrine do restaurante que dava para a rua. Lá, havia um homem em pé de casaco azul e boné preto.” — pág. 25

 A terceira subtrama, Helena F. — Prostituta e Serial Killer, é de longe a mais complexa e estimulante do livro. A história é contada pela perspectiva da assassina, uma mulher de frieza notável. Estar por dentro da mente maníaca é uma experiência alucinante, apesar de poder gerar desconforto naqueles mais sensíveis, principalmente durante seus monólogos pessoais em que Helena compartilha seu ritual sagrado de como lidar com os cadáveres de suas vítimas. A personalidade vil da personagem é construída devagar, adicionando pouco a pouco teores mais hediondos à serial killer como ela própria se reconhece. A sensação é de que acompanhamos lado a lado os passos da mulher rumo à sociopatia.

Para ser justo, preciso salientar que em instante nenhum a história cai na obviedade, muito pelo contrário, ela segue uma linha de mistério e suspense capaz de seduzir e enganar qualquer um. A criatividade do autor se faz valer outra vez, tanto que ousarei dizer que este é o melhor capítulo.

“Certa vez, um cliente trouxe uma faca para que eu o cortasse de leve durante o sexo. Aquela experiência me transformou: a cada pequeno corte que eu fazia, sentia um prazer que orgasmo nenhum até então tinha me dado.” — pág. 38

 Quanto a Proposta Indecente, a quarta subtrama, é interessante o modo como ela mistura o conceito das anteriores. Vemos novamente alguém frágil, passivo e com tendências perigosas, vemos essa pessoa ir afundando em uma idealização cega de amor obviamente destinada ao fracasso.

Percebe-se logo de cara como as coisas terminarão, entretanto, a vontade de prosseguir devorando a história não desaparece, não porque você espera que esteja errado sobre suas deduções e espere se surpreender, e sim porque você espera a realização delas.

“Tenho uma ideia já há um tempo. Preciso de coragem e ajuda para executá-la. Talvez você possa…” — pág. 49

Ao final dos depoimentos, nosso “real” protagonista retorna abalado com o que ouvira. Ele tenta, em vão, esquecer os relatos. Mas a curiosidade é maior. O instinto humano de se atrair por desgraças fala mais alto. Basta um simples empurrãozinho…

E levando em consideração esta época em que, por exemplo, diante de um acidente gravíssimo, sempre há quem registre imagens da tragédia apenas pelo prazer de compartilhá-las posteriormente na internet e assim ganhar atenção, o enredo de Paixão e Crime não poderia ser mais verossímil – e arrepiante.

Lançamento dos primeiros livros da editora Luva no bistrô Grégora Arte Café, na Glória (RJ), no dia 17/01. Os livros estarão em preços promocionais: R$ 15 o Paixão e Crime e R$ 30 o Bella Mafia.
Quer conhecer um pouco mais de cada um deles? Confira o perfil de ambos no catálogo da editora e leia as páginas de degustação gratuitas:

http://luvaeditora.com.br/catalogo/

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