RESENHA | O vilarejo de Raphael Montes

O Vilarejo
Autor: Raphael Montes

Editora: Suma de Letras

Ano: 2015

Páginas: 96

“A escrita de Raphael Montes lembra o trabalho de um bom cirurgião: bastante precisa, repleta de sangue e com todos os pontos bem costurados ao final. Uma voz que traz o frescor necessário ao terror nacional.” ─ Raphael Draccon

SINOPSE

“No vilarejo, falar que o pecado mora ao lado é mais do que um dito popular: é uma verdade ameaçadora da qual os moradores se dão conta pouco a pouco. E, para alguns, é tarde demais. Como resistir ao mal? À luxúria, à ganância, à ira? Como não ceder aos pecados da carne quando a guerra chega e o inverno castiga, quando o frio e a fome tomam conta, quando uma força maior parece conspirar e rodear os moradores para que eles se entreguem a seus piores inimigos? […] Descubra o que acontece no vilarejo quando a noite cai, as portes se fecham, e sua única companhia ─ e seu maior inimigo ─ é você mesmo.”

Vamos enaltecer um pouco de terror nacional? Vamos.

Quem somos nós, senão reflexos de nossas ações? Erro é de quem se deixa ser enganado pelas aparências físicas e/ou superficiais que são mostradas em um primeiro momento.

Para nós, fãs de terror, seja na área da literatura ou cinematográfica, por exemplo, sabemos muito bem que não devemos confiar em idosos bonzinhos e em criancinhas de expressões inocentes, afinal, aprendemos com alguns clássicos que a maldade se manifesta por meio de muitas faces. O ser humano sempre pode nos surpreender no quesito horror. E é este, meus caros, um conceito fundamental para se compreender O Vilarejo.

A trama de Raphael Montes nos apresenta os textos de Elfrida Pimminstoffer, mulher tão misteriosa quanto o seu passado. Tratam-se de uma compilação de sete histórias entrelaçadas sobre determinados moradores de um vilarejo que sumiu do mapa. A ordem de leitura fica a gosto do leitor, pode começar do último para o primeiro relato, não faz diferença, pois não afeta em nada a compreensão do livro como um todo.

Segundo o teólogo e demonologista do século XVI, padre Peter Binsfeld, existem sete demônios específicos encarregados de invocar um dos sete pecados capitais nos seres humanos: Asmodeus, correspondente à luxúria; Belzebu, à gula; Mammon, à ganância; Belphegor, à preguiça; Satan, à ira; Leviathan, à inveja e Lúcifer, à soberba. Por que isso é importante saber? Porque as sete histórias de Elfrida têm como base os sete pecados, e cada uma possui como título o nome de um dos demônios que a influencia, acompanhado por um subtítulo.

No entanto, é importante frisar que, apesar do conteúdo sobrenatural, o autor procura explorar a mente do ser humano e as suas peculiaridades. E ele não só consegue tal prodígio, como também nos faz refletir sobre a crueldade da nossa raça.

Nós descobrimos o que uma mãe e dona de casa desesperada é capaz de fazer quando a fome torna-se mais que uma visita corriqueira, torna-se uma inquilina. Ou o que o desejo de possuir aquilo que não pertence à pessoa pode gerar. E falando de desejos, a respeito dos carnais, a perversão e a perversidade caminham de mãos dadas naqueles de caráter abjeto, eis um fato.

Essas e outras situações circulam há anos no vilarejo, escondidas por trás de falsas aparências. O lugar reúne um grupo de pessoas sem escrúpulos declinadas a realizar atos absurdos, basta somente um empurrãozinho, um sussurro mal-intencionado nos ouvidos. Conforme os relatos avançam, mais cria-se a certeza de que o desaparecimento daquele povoado não fora por acaso.

“─ Tenha esperança!

─ Não adianta esperança… Fomos esquecidos.

─ Esquecidos por quem, meu filho?

─ Pelo mundo. Por Deus ─ reflete Anatole.

─ Ou talvez tenham sido lembrados pelo Diabo ─ retruca o velho.” ─ pág. 80

O livro é daqueles para ser lido de uma vez só, por volta de trinta minutos é tempo suficiente para devorá-lo, a narrativa é fácil e perspicaz. O clímax e a finalização da maioria das sete tramas é realmente fantástico ─ o que me fazia pular para a próxima história assim que uma terminava. Em algumas, o horror é mais psicológico do que visceral.

Talvez, dependendo do leitor, possa ocorrer reações tais qual agonia, desconforto, revolta e repulsa por conta de certos relatos perturbadores, como acontece em A Doce Jekaterina, que aborda a questão do abuso sexual infantil, ou em A Verdadeira História de Ivan, O Ferreiro, que traz no enredo tráfico, exploração e escravização de pessoas.

A arte gráfica da obra também é muito interessante: há ilustrações dos acontecimentos das histórias, páginas pretas (não todas, que fique claro) e manchas de sangue espalhadas pelo livro. Essa sábia combinação auxilia na construção de uma atmosfera soturna única.

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Um comentário em “RESENHA | O vilarejo de Raphael Montes

  • 17 de fevereiro de 2017 em 16:01
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    as resenhas do Eliel são muito boas! sempre instigam a ler o livro rs (mas eu sou medrosa, não gosto do capeta hahahahah)

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