RESENHA | Momotarô: traduções e percursos no exercício de tradução Japonês-Português

Em uma outra oportunidade eu abordei o aspecto do pastiche na obra de Akutagawa, utilizando-o como exemplo desse recurso.

Mais uma vez me deparei com um trabalho desse escritor reconhecido por recriar narrativas antigas, porém foi por vias da tradução como objetivo.

O Livro Momotarô: traduções e percursos no exercício de tradução Japonês-Português, publicado pelo Grupo de Estudos de Tradução Japonês-Português da USP, traz a história do famoso “Menino do Pêssego”: quer dizer, famoso para quem tem familiaridade com a cultura japonesa, mas não para o grande público, o que faz esse trabalho ser ainda mais interessante.  Aliás, seguindo o link você tem acesso ao livro gratuitamente.

Neste livro, nós temos dois aspectos distintos para abordar, o conto em si e o processo de tradução. Como nos tratamos de uma revista voltada a literatura, vou abordar primeiro o aspecto do enredo do conto e posteriormente falarei do aspecto da tradução – não escolhendo por ordem de importância, pois como os leitores verão a seguir, a proposta desse livro no referente ao trabalho de tradução é muito interessante tanto para pesquisadores e profissionais, quanto para leitores.

Pois bem, existem várias versões da história de Momotarou e neste livro em questão a organizadora, professora Neide Hissae Nagae, cita duas em especifico que foram registradas em meados século XVII: Coletânea de livros ilustrados dos período pré-modernos – edição Edo (Kinsei kodomo no ebonshû – Edohen) e a mesma edição mas de Kamigatahen, ambos publicados pela editora Iwanami em 1985.

Imagem relacionadaNa primeira versão, um pêssego é comido pelo casal de velhos que rejuvenesce e tem um menino chamado Momotarou. Já a outra versão, o casal de velhos tem uma filha e desejam muito um filho homem, assim eles recebem de presente um pêssego que em pouco tempo se torna um menino e, por sua vez, um rapaz.

Momotarou – Hasegawa 1886

Existem várias e várias versões para a história desse menino, que é um conto popular japonês (mukashi banashi). Mas, em todas o resumo seria que a existência do garoto tem estrita relação com o pêssego e que, ao crescer, se envolve em aventuras prodigiosas junto a três animais que encontra em seu caminho, a saber, um cachorro, um faisão e um macaco. Juntos, eles derrotam os Oni na ilha deles em feitos heroicos e com isso recebem tesouros e prestígio.

A simbologia do pêssego logo no início do conto talvez seja um dos aspectos de Akutagawa que reflita melhor o seu trabalho de resgate da cultura clássica japonesa. Em sua recriação, ele menciona a lenda de Izanagi, o deus que foge do submundo e para espantar os maus espíritos que o seguem, joga três sementes de pêssego pelo caminho. Essa história é registrada na coletânea Kojiki (registro de fatos antigos) produzida no ano de 712, uma das mais antigas coletâneas japonesas sobre lendas e histórias.

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Momotarou, o cão, o macaco e o faisão. no estandarte que ele carrega está escrito: “o número um do Japão”

Akutagawa começa seu conto trazendo esse aspecto divino primordial. É interessante saber que o Kojiki tinha em seus registros a origem do Japão enquanto espaço físico e também humano, pois o imperador descende de uma linhagem de deuses, e isso é tido como verdade imutável. A título de explicação, mesmo na contemporaneidade, esse aspecto da ascendência divina é entendida como factual pelo povo japonês, vide as histórias dos imigrantes vindos ao Brasil que não acreditavam na derrota japonesa na Segunda Guerra e o choque com o discurso do Imperador Akihito que se declara “um mortal” (particularmente, indicaria a leitura de Nihonjin de Oscar Nakasato, apesar de ficção, esse livro traz muito de pesquisa histórica da época).

Dessa forma, Akutagawa explicita algo que é usado durante séculos pelo governo japonês: a justificativa de, por descender de deuses, seriam invencíveis e de que algum modo teriam mais direitos que outros. Esse aspecto é, sem dúvida, uma característica marcante do imperialismo e expansionismo japonês. Conforme ressalta a sensei Nagae em seu posfácio do livro:

“(…) o fato é que o Momotarou do conto de Akutagawa é gestado num dos frutos que ainda começava a amadurecer, a indicar que essa imaturidade o leva a ter ideias inadequadas e a tomar atitudes inconsequentes de invadir a pacifica ilha dos Oni, causando-lhes desgraças, e consequentemente gerar ódio e sentimento de vingança que não dá paz de espirito ao protagonista.”

Na recriação do autor, o menino herói é transformado em anti-herói, ou mesmo o vilão, enquanto os Oni seriam as vítimas desse comportamento de Momotarou.

É importante lembrar que o trabalho de Akutagawa no resgate desses aspectos da cultura clássica japonesa, por muitas vezes se mescla a situação atual do autor, que é os anos 20. Dessa forma, ele questiona (talvez critique) alguns aspectos.

Historicamente é preciso saber que no ano anterior à publicação do conto, segundo aponta sensei Nagae, aconteceu o Grande Sismo-Catástofre de Kantou (na região leste do Japão) abalo entre 7,9 e 8,3 na escala Richter. Milhares de pessoas mortas e outras milhares desaparecidas, cidades devastadas e por grande infortúnio, a passagem de um tufão que agravou a situação dos incêndios.

O governo culpou os coreanos e os socialistas pela situação da falta de segurança e isso desembocou em uma perseguição e extermínio em massa de coreanos além da prisão e execução de socialistas.

Trazendo novamente uma citação precisa da sensei Nagae:

“Associado aos fatos históricos das guerras em que o Japão avança rumo às conquistas territoriais, Momotarou, o cão, o macaco e o faisão assumem as mesmas naturezas perversas quanto a do invasor que carrega a bandeira do Japão. Mas quais seriam as represálias? Essa é a dúvida que paira no coração de Momotarou e do leitor”

Nas histórias infantis, o fruto símbolo da longevidade e prosperidade traz um menino heroico, exemplo a ser seguido. Mas Akutagawa questiona esse símbolo do Japão.

O autor não viveu o suficiente para ver, pois morreu prematuramente no ano de 1927 aos 35 anos. Mas é impossível não lembrar de sua versão de Momotarou ao recordar as ações do Império Japonês no domínio da Machúria e, posteriormente, dos territórios do leste asiático no período da Segunda Guerra, além do final dessa história para o povo de Hiroshima e Nagasaki.

A tradução

“A tradução é, por sua vez, referida como a quinta habilidade linguística: a capacidade de agir reconstruindo o significado da língua-alvo de um texto escrito em língua-fonte. No processo, há demanda de habilidades metodológicas e estratégicas, comunicativas, socioculturais, psicolinguísticas, além da própria proficiência linguística em duas línguas.” (Kyoko Sekino – UnB)

O projeto deste livro não está somente da difusão da literatura japonesa, mas também no aprendizado dela, ao menos para os tradutores que trabalharam no projeto, estudantes de graduação e pós em língua e cultura japonesa. Para eles, sem dúvida a tradução é também um projeto de aprendizagem do idioma. Mas tratando do leitor que não tem um trabalho com tradução e que muitas vezes consome o texto já traduzido (por não querer ou não ter acesso ao texto original), o que isso poderia interessar?

Ao consumir um texto traduzido, você está ao mesmo tempo lendo o que o autor escreveu e o que o tradutor escreveu. São duas histórias e ao mesmo tempo uma. Isso porque não é possível a existência da fidelidade completa: afinal, além de organizações alfabéticas diferentes, são culturas diferentes.

Neste livro é apresentado o conto original de Akutagawa e também um conto tradicional e a música. Assim o leitor tem acesso à história na qual o autor se baseou e ao texto original do autor. Além disso, cada um vem com um texto do tradutor que fala sobre suas escolhas e suas dificuldades e descobertas com o processo.

O diferencial de ler um trabalho como esse é justamente poder saber como cada tradutor estabeleceu sua relação e como utilizou suas ferramentas e habilidades na tradução. Um pequeníssimo exemplo é a escolha da palavra Oni ou Ogro para se referir aos seres que moravam na pacifica ilha. A primeira não é traduzida e a segunda não é necessariamente a tradução literal da palavra. Isso porque, ao traduzir Oni literalmente seria demônio, mas a nossa concepção do ser demônio difere muito desse Oni. A ideia do Oni é muito mais próxima a ideia do Ogro. Então, como fazer? Deixar o nome desses seres como Oni, sem traduzir, adaptar para um conceito mais familiar como Ogro ou optar pela literalidade e usar Demônio?

Esses são os questionamentos que o tradutor fará a si mesmo, e sua escolha influenciará diretamente na fruição do leitor, ou seja, a sua. E aqui está o porque é interessante entender e pensar o processo de tradução, não necessariamente pelo aspecto laboral, mas para que saiba o processo pelo qual aqueles maravilhosos clássicos ou mesmo blockbusters que tanto amamos passaram antes de se tornarem memoráveis para nós.

Por isso, recomendo que o leitor baixe o livro que está disponível gratuitamente e tenha acesso mais aprofundado aos conceitos aqui abordados. Leitura indispensável aos profissionais da área e aos amantes de literatura.


Momotarô: traduções e percursos no exercício de tradução Japonês-Português – organização: Neide Hissae Nagae – sinopse: A obra é resultado dos estudos integrados da UNESP, da Faculdade Messiânica e da USP, trazendo ao público o fruto que foi amadurecendo no Grupo de Estudos de Tradução Japonês-Português da USP entre 2012 e 2015. Desse modo, reuniu-se um material elaborado para reflexões sobre a tradução, e, consequentemente, na tradução de três obras homônimas: o conto de Akutagawa, a música infantil e a história infantil, ainda pouco conhecidos pelo público brasileiro. Esse volume, que parte da tradução, fruição literária e reflexões dos tradutores-alunos, certamente contribui para o ensino da língua, da literatura e da cultura japonesas, além de fornecer-nos a capacidade de desfrutar dos trabalhos concluídos pelos alunos e professores envolvidos na edição.

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Sobre o autor

Lua Bueno Cyriaco
Administradora do Clube de Livros, Produtora e organizadora do Concurso Literário Autoramente! Ilustradora e quadrinista - Formada em Artes Visuais (FADM-UNOPAR), graduanda em letras Japonês (UFPR) Assina os cadernos e marcadores da própria marca Lunares.
Uma brasiliense no frio de Curitiba.

Lua Bueno Cyriaco

Administradora do Clube de Livros, Produtora e organizadora do Concurso Literário Autoramente! Ilustradora e quadrinista - Formada em Artes Visuais (FADM-UNOPAR), graduanda em letras Japonês (UFPR) Assina os cadernos e marcadores da própria marca Lunares. Uma brasiliense no frio de Curitiba.

Um comentário em “RESENHA | Momotarô: traduções e percursos no exercício de tradução Japonês-Português

  • 25 de setembro de 2018 em 11:44
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    Muito intrigante e motivador para conhecer e explorar o unverso poético e literário oriental.

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