RESENHA| Log#1525 de B.Demetrius.

Log#1525
Autor: B. Demetrius
Ano: 2017
Editora: Chiado
Sinopse:

Log #1620 C

Se você está lendo isso é porque provavelmente este maldito cubo de gelo gigante me venceu.
Ou pior! Virei motivo para as masturbações mentais dos burocratas da companhia. Merda!
O treinamento especial na Amazônia, os anos na “geladeira” nos confins do sistema solar, minha ex-mulher – nada me preparou para isso. Nada!

Acordei sob os destroços de um pod de sobrevivência, em um planeta gelado e escuro. Estou com uma puta ressaca de hipersono, um gosto horrível de metal na boca e essa desgraça de implante cibernético na minha cabeça não para de falar! É a mesma coisa que ter uma velha com Alzheimer com acesso garantido aos meus pensamentos.

Trabalho fácil, pagamento gordo e um contrato com letras bem miúdas. Claro que eu iria me ferrar, claro! Droga, tudo que eu queria agora era um café…

Saudações, leitores!

Hoje venho falar para vocês sobre o livro Log#1525, de B. Demetrius. Você pode encontrar as primeiras impressões que tive quando recebi o livro neste link.

dedicatória log1525

Quando comecei a leitura houve um estranhamento; nunca havia visto um livro que se desenvolvesse exclusivamente por meio de relatórios de viagem. É um jeito diferente e bastante original. O livro segue contando o dia a dia do protagonista (que é narrador-personagem) e B.O.R.I.S. (Bio Operational Resource Interface Sistem), ou Boris, que é uma inteligência artificial implantada no cérebro do protagonista e que o auxilia e compartilha diversas informações com os computadores da nave e, posteriormente, é vital para a sobrevivência do viajante. É um alívio cômico em diversos momentos e também fonte de certa tensão, visto que no início não há como saber se ele é de fato confiável. Uma coisa interessante a se notar é que o relatório que dá nome ao livro, Log#1525, conta justamente sobre o implante de Boris no protagonista, o que demonstra sua importância ao longo de toda a história.

Diário de Bordo: Log #1525.

Agora sou um só com o sistema central da nave. Acesso todo o corpo da nave só de pensar nele. Realmente Boris surge como um segundo pensamento e conforme me concentro nele passo a conversar como se fosse outra pessoa, mas estou apenas pensando.

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Após alguns dias de Logs, ocorrem problemas na nave e o protagonista é ejetado para um planeta próximo, e a partir daí seu principal objetivo é se manter vivo e conseguir voltar para casa. O livro se mantém nessa jornada até que o protagonista descobre o que realmente houve com a nave, com os outros tripulantes e por que todas as datas e localizações não faziam o menor sentido. Então o viajante decide fazer seu caminho de volta para casa com o auxílio de Boris, sem nem imaginar o que o destino reservava.

Log #1615

Este lugar é gelo puro, frio e escuro. Acredito ser pleno dia e a luminosidade máxima me lembra o anoitecer na Terra. Muito pouca luz. Como alguma coisa pode sobreviver aqui? O que me faz pensar em uma coisa pior. O que será que vive aqui? […]

Log #1671B

Alerta de proximidade? Boris em modo de combate? Não ouço as criaturas! Não as percebo! Boris! Não são elas! O que está acontecendo? Boris! Leituras de forma de vida complexa! O que é modo de reforço estrutural? Boris! O que você está fazendo? […]

Quanto à escrita, é bastante fluida e jovial, com direito a alguns palavrões aqui e ali. É notável a inspiração em algumas obras como Interestelar, Perdido em Marte, Guerra nas Estrelas e mesmo Space Oddity de David Bowie. A propósito, as músicas citadas são maravilhosas: The Passenger, Hotel California…

Log #1708

[…] Computador, acessar arquivos do módulo de memória nº 51, ISSO! O Rei! Elvis! “A little less conversation and more action please”! Computador, aumentar o volume em 75%. Por Zeus! Como eu senti falta disso! Boris, cale a boca! Nada é mais importante que ROCK.

No começo é estranho ler apenas os pensamentos do protagonista inclusive quando ele conversa com Boris. Só sabemos o que o protagonista pensa e pergunta, não as respostas. O livro segue uma narrativa lenta e bem contada, bem detalhada. É notável que foi bem elaborada: tem cenas que instigam a leitura, cenas de ação, cenas um tanto quanto emotivas, como no momento da revelação final, e finaliza com chave de ouro.

Log #1671

Indivíduo desconhecido se aproximando. Não deveria ter apagado as luzes, não são as mesmas criaturas, eu sinto isso. É inteligente, está espreitando, shhhhhhhhh, sem barulho algum. Shhhhhhhh. Está me caçando. […]

 

Log #1729

Acredito que estou enlouquecendo. Sim, ando tendo longas e complexas discussões com uma inteligência artificial implantada em meu cérebro para ajudar na gestão de um supercargueiro estelar. Não que o fato de estar isolado em um planeta desconhecido, sem contato com nada nem ninguém esteja influenciando. […]

Algo que devo comentar é que o mapa que B. Demetrius enviou junto com o livro com anotações e a rota do viajante é simplesmente sensacional. É uma imersão a mais no livro e faz bastante diferença. E sobre o marca-páginas “sabre de luz”, é uma caneta de plasma. Incrível. Simplesmente incrível.

Log #1653

[…] Sim, minha velha caneta de plasma, eu encontrei. Essa belezinha pode cortar nanocarbono e até tritanium. Me lembro de construí-la dos restos de uma placa de fuselagem de um encouraçado da empresa e peças velhas de cortadores industriais e lasers cirúrgicos. O pessoal da companhia me encheu o saco dizendo que só me faltava agora carregar um bicho velho e verde nas costas que meu treinamento estaria completo. Sacanas. Vou fatiar aquelas criaturas com estilo.

Se o livro vale a pena? Com toda certeza! É uma ficção científica de qualidade com momentos de ação e emoção, um pouco de humor e bastante tensão com um protagonista brasileiro e de um autor brasileiro. Com certeza vou reler muitas vezes.
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