RESENHA | Livro Jantar Secreto de Raphael Montes

JANTAR SECRETO
AUTOR: Raphael Montes
EDITORA: Companhia das Letras
ANO: 2016
PÁGINAS: 360

SINOPSE

Um grupo de quatro jovens deixa Pingo d’Água, uma cidadezinha no interior do Paraná, para estudar no Rio de Janeiro. Eles dividem um apartamento em Copacabana e fazem o possível para alcançar seus sonhos.

Em meio às dificuldades de pagar o aluguel e conseguir um bom emprego em um país em crise, os quatro amigos têm uma ideia para finalmente ganhar dinheiro: realizar jantares secretos para clientes ávidos por uma aventura gastronômica exótica.

Mas o que começa como brincadeira de repente assume proporções inimagináveis. Eles mergulham num sufocante caminho de desconfiança, paranóia e ambição, assumindo uma índole perversa que jamais imaginaram possuir.

ATENÇÃO! REGRAS PARA ESTE JANTAR MÁGICO:

1. Não é permitido falar sobre o jantar.
2. Um veículo executivo vai buscá-lo em sua residência e levá-lo ao local do evento. É obrigatório o uso de venda nos olhos durante o trajeto.
3. Não é permitido levar acompanhante. Cada presença é única e especial.
4. Não é permitido desistir da experiência ou abandonar o local antes de seu término.
5. Não é permitido o uso de celulares ou outros aparelhos eletrônicos. Guarde esta celebração apenas na sua memória — e no seu paladar.

Raphael Montes é, sem sombra de dúvida, uma estrela de brilho especial do nosso vasto universo literário. É inegável o talento deste célebre autor nacional; suas obras transmitem o horror com maestria, seja através de algo visceral ou algo mais subjetivo.

E em seu mais recente trabalho, Jantar Secreto, não poderia ser diferente.

Na madrugada do dia 18 de junho de 2016, um homem entra na 15ª DP do Rio de Janeiro, no bairro do Jardim Botânico, e pede para falar com o delegado de plantão. Suas mãos tremem, mas ele mantém o olhar firme. Veste um smoking ensopado de sangue. — página 9

Digno de um thriller psicológico exemplar, a narrativa ocorre por intermédio do personagem chamado Dante — nome bastante apropriado, considerando a viagem ao Inferno realizada por ele —, e relata como um pequeno grupo de jovens afetados pela crise econômica do Brasil termina se envolvendo num empreendimento de teor doentio: jantares secretos destinados a ricos que buscam experiências excêntricas com as quais possam desperdiçar suas fortunas e ao mesmo tempo se sentirem acima dos “reles mortais” incapazes de desfrutar de algo tão único.

E o que há de doentio nisso? As iguarias do cardápio: carne de gaivota, eufemismo bastante singular para carne humana.

Ao explorar o canibalismo — ou “canibalismo gourmet”, como é retratado no livro —, Raphael Montes nos leva a refletir principalmente sobre a cultura alimentar humana e a ganância da espécie. Durante a leitura, o trecho de uma canção do Nirvana se fixou na minha cabeça: “Está tudo bem comer peixe porque eles não têm sentimentos”{1}.

Por questão de gosto e escolha muita gente se alimenta de outras criaturas, independente do sofrimento que lhes é infligido no processo que as conduz até o nosso prato. O que importa a dor do porco se no final ganhamos bacon?

Sendo assim, se os fins justificam os meios, por que não usufruir também da carne humana?

Para Umberto, o porta-voz do pró-canibalismo na história, a prática seria uma medida perfeita para controlar a superpopulação mundial e exterminar males feito a miséria e a fome. No seu ideal megalomaníaco, deve-se pegar os rejeitados, os sofredores, os que estão à margem da sociedade, pegue todos e lhes atribua um destino melhor: alimentar quem realmente importa.

Pode me chamar do que quiser, mas escuta o que tô dizendo. Claro que vai ter gente contra, achando absurdo. No início, toda novidade é vista com maus olhos. […] Mas a gente precisa ser bravo, investir no que acredita, Dante. Comer carne humana é o século XXII. — página 166

Embora possa soar cruel e/ou insano, a proposta torna-se menos indecorosa ao atingir o ponto fraco dos personagens: a ganância. Dante e seus amigos se veem seduzidos pelo prestígio e pelo dinheiro que o empreendimento oferece, e por isso acabam tomando um caminho sem volta. Quando finalmente há a percepção do horror das ações cometidas, é tarde demais. E é realmente interessante acompanhar a trajetória de ascensão e queda dos personagens dotados de personalidades únicas, quase todas bem desenvolvidas na narrativa. Eles são afetados de maneiras distintas, passando por verdadeiras transformações.

Certa vez, num banheiro público, havia um poema:

“Diga-me o que tu comes

Que te direi quem és.” — página 248

Jantar Secreto é um livro multifacetado: com muito suspense, transita entre política, economia, religiosidade, sexualidade, consumo de drogas e questões culturais, sociais, de saúde e de ética. No meio de tudo isso, faz-se presente humor negro, representatividade e inúmeras referências à cultura pop que servem para aproximar ainda mais a trama da nossa realidade.

Em um enredo sabiamente construído, o autor consegue criar a cada capítulo ganchos sensacionais, além de alguns bons plots twist{2}, atributos que induzem a ansiar pelos próximos acontecimentos. Sua capacidade de mexer com o psicológico dos leitores torna-se evidente ao longo das mais de 300 páginas.

Por essas e outras a recomendação do livro é obrigatória. Portanto, não percam a oportunidade de registrar essa celebração em sua memória. Para quem for sensível, prepare-se para registrar certos momentos de altíssimo desconforto.

Notas:

{1} Something in the Way, canção escrita por Kurt Cobain lançada no segundo álbum de estúdio da banda, o Nervermind (1991);

{2} Plot twist trata-se de uma mudança radical na direção esperada ou prevista da narrativa.

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