RESENHA | Assim mataram Adônis de Sarah Caudwell

SINOPSE: Julia Larwood, bela e desastrada advogada londrina, decide passar férias em Veneza na expectativa de passeios culturais, saborear a culinária e por em prática seu método pouco ortodoxo de sedução, inspirado em uma leitura superficial do poema “Vênus e Adônis”, de William Shakespeare. Poucos dias depois, seus colegas do Lincoln’s Inn recebem a notícia de que Julia foi presa pela polícia italiana, acusada de matar Ned, o “Adônis” que havia seduzido. O leitor acompanha o desenrolar dos fatos pelas cartas de Julia à sua amiga Selena e pelas deduções dos demais colegas. Dessa forma, a narrativa se desenvolve num contraponto entre as cartas carregadas da franqueza ingênua da protagonista e os comentários irônicos e divertidos de seus amigos enquanto a leem, levando o mistério a um grau altíssimo de tensão.

Quando se tem em mãos um thriller de crime, você espera aquela já confortável e conhecida fórmula do detetive particular derrotado que, finalmente, se vê em um caso de verdade: diferente de achar cachorros, ou seguir cônjuges infiéis.

Não é bem isso que acontece nesse pequeno romance de Sarah Caudwell.

Como um mistério de crime, ele naturalmente tratará de um, mas as personagens envolvidas dão o toque especial, que fazem com que o leitor se entretenha cada vez mais na história, que começa com a narrativa da personagem Hillary Tamar, uma senhora professora universitária na cadeira de direito (mais especificamente voltada a estudos de leis medievais) na Inglaterra.

Por motivos acadêmicos ela precisa ir a Londres e em suas horas de folga reencontrar alguns colegas que foram em maior parte seus alunos, e que agora trabalham para uma firma conhecida da cidade. Em meio a conversas descontraídas, sabe-se que uma das colegas, Julia Larwood viajara sozinha para Veneza em férias de uma semana, com um grupo turístico chamado “Amantes da Arte”. Isso seria normal, se …

“A incapacidade da pobre Julia para entender o que está acontecendo, ou por quê, no mundo que a rodeia, sua incompetência para aprender até mesmo as habilidades práticas mais simples necessárias para a sobrevivência devem ter evidenciado, já na infância, que ela nunca seria capaz de lidar, sem ajuda, com as responsabilidades plenas da vida adulta (…) Em busca de um refúgio apropriado, no qual suas inadequações passariam despercebidas, seu parentes, com muita sensatez, mandaram-na para o Lincoln’s Inn. Ela é agora um membro do pequeno conjunto de escritórios da Câmara Fiscal no número 63 da New Square. Lá ela fica o dia inteiro, aconselhando bem feliz sobre a construção das Leis financeiras, sem prejudicar ninguém. Mas deixá-la ir à Veneza…”

A história se dá, basicamente através das cartas que Julia envia à amiga Selena e que são lidas para todos os amigos, frequentadores assíduos do Lincoln’s Inn, o bar que fica no mesmo prédio do escritório de advocacia. Nelas, Julia conta sobre os curiosos colegas de excursão; um militar aposentado esquisitão, uma ricaça colecionadora, um casal americano de empresários, um escultor e seu belo amigo que trabalha na receita federal inglesa (arqui-inimiga de Julia, por motivos que não cabem citar aqui), cujo o qual Julia decide que será sua paixão de viagem.

Os amigos acompanham as trapalhadas da jovem através das cartas, em uma narrativa divertidíssima e cheia de observações espirituosas bem no estilo de humor inglês. Até que descobrem que Julia estava detida sob a acusação de assassinato: justamente do belo jovem da receita federal.

A partir de então, os amigos começam a especular como teria se dado esse assassinato e quem seria o culpado, que certamente estaria entre um dos Amantes da Arte, mas que seria impossível ser Julia, que além de incapaz é totalmente inapta.

Uma trama envolvendo roubo e comércio de arte e antiguidades, além de uma herança começa a se desenhar, e pacientemente, como a pesquisadora acadêmica que é, nossa narradora da historia, Hillary Tamar, começa a juntar as peças do quebra cabeça até formar sua teoria e, para comprovação, colocá-la em prática através de atitudes que só serão explicadas ao final: como uma boa e clássica história de detetive.

Em geral, é um dos melhores livros que li esses tempos. É divertido, irônico, os personagens são todos carismáticos ao seu modo. É impossível ler mais de dez páginas e não rir, seja por uma observação sarcástica bem colocada, seja pelas insólitas narrativas de Julia.

O texto é bem escrito e conseguimos ler bem rápido (não demorei uma semana). A trama é interessante, e dá aquele gostinho de, junto com a “detetive Tamar” desvendar o mistério, com vários suspeitos cada um com seus motivos. Além disso, o fato dos personagens serem basicamente todos advogados e uma professora universitária, deixa a situação interessante e foge um pouco do estereótipo do clássico detetive: embora todos eles também sejam bastante chegados à uma bebida, traço clássico dos detetives de romance policial.

Enfim, é um texto inteligente que explora e até brinca com a clássica fórmula do romance policial e ainda assim te deixa entretido até a última linha.

 

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Sobre o autor

Lua Bueno Cyriaco
Administradora do Clube de Livros, Produtora e organizadora do Concurso Literário Autoramente! Ilustradora e quadrinista - Formada em Artes Visuais (FADM-UNOPAR), graduanda em letras Japonês (UFPR) Assina os cadernos e marcadores da própria marca Lunares.
Uma brasiliense no frio de Curitiba.

Lua Bueno Cyriaco

Administradora do Clube de Livros, Produtora e organizadora do Concurso Literário Autoramente! Ilustradora e quadrinista - Formada em Artes Visuais (FADM-UNOPAR), graduanda em letras Japonês (UFPR) Assina os cadernos e marcadores da própria marca Lunares. Uma brasiliense no frio de Curitiba.

Um comentário em “RESENHA | Assim mataram Adônis de Sarah Caudwell

  • 17 de maio de 2017 em 20:30
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    poxa, parece bem legal! vou ver se acho pra ler também!

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