RESENHA | A Nona Configuração de William Blatty


A Nona Configuração

Autor: William Peter Blatty

Editora: HapperCollins

Publicado em: 2015

Páginas: 160

SINOPSE
Um psiquiatra encarregado de tratar pacientes em uma macabra mansão gótica transformada em manicômio para ex-combatentes, se vê questionando sua fé e compaixão, em meio à loucura que impera no lugar. Logo, esse trabalho começa a colocar em xeque todas as suas crenças, a ponto de ele não saber mais o limite entre o real e o imaginário, sanidade e o delírio.

Em A nona configuração, do autor do best-seller de O exorcista, o psiquiatra coronel Kane passa por muitas provações à medida que o Centro é tomado pelo caos, e se depara com o seu maior desafio: enfrentar os próprios demônios… Nesta narrativa tensa e violenta, o suspense e o terror psicológico imperam. Nada é o que parece ser e o final reserva grandes surpresas.
Acredito que William Blatty será sempre assombrado pelo sucesso de O Exorcista, de forma que, quando é mencionada uma outra obra do autor, gere grandes expectativas.

Foi exatamente o que aconteceu comigo ao me deparar com A Nona Configuração, não somente por conta de quem estava por trás do livro, como também pela capa e pela sinopse, ambas atraentes. No entanto, a leitura se revelou bem abaixo do esperado.

A história é constituída mais por longas conversas do que ações. A princípio — para ser mais preciso, durante o capítulo inicial inteiro —, senti um enorme desconforto, pois achei bastante confuso os diálogos, tive de reler mais de uma vez para compreendê-los. A seguir, conforme as páginas avançavam, percebi que essa aparente confusão “casava” perfeitamente com o texto, afinal, ele trata de internos de um manicômio. Com mais calma, retornei a leitura do zero e passei, então, a me sentir inserido na trama, na loucura dos personagens, o que me deixou mais confortável.

Ainda assim, o livro peca em outros pontos. Como disse anteriormente, há muitos diálogos e poucas ações, o suspense e o terror prometidos na sinopse demoram a acontecer. No lugar deles, há vários debates internos e externos a respeito, sobretudo, da existência de Deus e da fé humana. Esses debates filosóficos soam profundos, porém, tornam-se ralos por serem logo descartados. O significado do título do livro, por exemplo, é explicado de maneira muito rápida, e o assunto não é retomado no decorrer da história. Se não fosse pelo texto na orelha da capa e se o leitor não estiver tão atento à leitura, a informação chega a passar despercebida. Nona configuração seria um argumento bioquímico utilizado como base para “provar” a existência de Deus: um modo de enxergar o mundo.

A única questão que flui durante toda a trama é se os pacientes estariam fingindo a insanidade a fim de fugirem de suas obrigações militares.

Quanto ao nosso protagonista, Kane, ele não é nada carismático, embora não possa afirmar se o problema esteja propriamente no personagem, ou no fato de que Billy Cutshaw, um astronauta, interno do manicômio, roube a cena em todas as suas aparições. É com ele que Kane mantém as principais conversas. A “loucura sã” de Cutshaw é divertida, ajuda a descontrair e, assim, fugir do tédio gerado pela falta de ação.

Dos demais personagens, poucos também possuem brilho próprio.

A grande reviravolta ocorre próxima do final. Neste ponto, devo dar meus parabéns ao autor, porque é realmente surpreendente o rumo que a história toma. A partir daí, somos tomados pelo suspense, pelo drama psicológico. Infelizmente, não acontece a tempo o suficiente para compensar a continuidade monótona apresentada até então. A conclusão não tarda, e é “mastigável”, considerando o que nos foi repassado desde o começo.

A Nona Configuração, um livro totalmente reflexivo, não é nenhum fenômeno literário, mas também não chega a ser ruim. Afinal, William Blatty é um excelente escritor, uma obra de sua autoria com certeza vale a pena. A dica é: não crie enormes expectativas.

Nota1: Como deixado claro pelo autor, não existem nem psiquiatras nem médicos na Marinha americana. Ele utilizou da “licença poética” para atender aos requisitos da história.

Nota2
: O livro foi publicado pela primeira vez em 1966, sob o título de Twinkle, Twinkle, “Killer”  Kane (no Brasil, Paranóia). Anos mais tarde, foi reescrito e recebeu um novo título, A Nona Configuração.

Nota3
: Em 1980, a obra foi adaptada para o cinema.

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