RESENHA | Ele Precisava Ir, Felipe Melo

Em mais uma resenha, Tarik Alexandre apresenta o surrealismo brasileiro de Felipe Melo no livro Ele Precisava Ir. Fazendo um paralelo entre o Conde de Lautréamont e Felipe, somos convidados a compreender a noção de trajetória no interior do romance.

“onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da
imaginação”

Roberto Piva

Felipe Melo é um surrealista. O quê? O que pretendemos dizer com isso? É interessante mencionar o fato de ele ser um surrealismo brasileiro: quase não conhecemos autores da boa e velha Pindorama que sigam esse movimento. Em função disso, se trata de meia dúzia de deformidades do inconsciente? Felipe Melo é um surrealista porque a trajetória da vida é uma trajetória do absurdo.  Ele Precisava Ir, como romance desse gênero, imediatamente me recordou às lembranças de Lautréamont  ao longo da leitura.

No século XIX,  o surrealismo de Isidore Ducasse (1846-1870) se reparte em duas caras: homem e conde do horror. Os poemas líricos e bem comportados do menino Ducasse se chocam de modo abrupto com o mundo perverso e grotesco dos Cantos de Maldoror. Conde Lautréamont não é só um personagem, mas uma persona. É a máscara do propriamente torpe. O velho oceano engole magistralmente os ímpetos mais brutais a ponto de clamar pela violência, pelo estrebuchar e a devassidão:  “Assim, mal te vemos, passa um sopro prolongado de tristeza, tal um murmúrio da tua brisa suave, deixando inapagáveis traços na alma profundamente abalada, e invocas a lembrança dos teus amantes, sem que nem sempre nisso reparemos, e os rudes começos do homem, onde ele trava conhecimento com a dor que não mais o abandona. Eu te saúdo, velho oceano!”. Há uma junção entre um rosto que se defronta ao espelho e vê somente as formas humanas e ao mesmo tempo se defronta com os horrores da própria humanidade ao olhar o fundo dos próprios olhos.

É impossível não mencionar o trabalho de Felipe Melo como em conformidade com essa ideia. Não se trata só de um romance que visa o contato com o absurdo, mas sim a capacidade de encontrar o absurdo como quem tropeça por acaso. Podemos dizer, sem nenhuma ressalva, que Ele Precisava Ir se divide entre esses dois mundos dos quais Felipe Melo e o L’autre Monde de si dialogam.  O primeiro mundo preocupado com o plano dos acontecimentos rotineiro de um rapaz que acorda logo cedo para ir a algum lugar de ônibus. Entretanto, subitamente o narrador se confronta com o espetáculo do absurdo que se desvela de forma completamente ímpar e despropositada: o romance é permeado por uma instância de eventos à la gauche. Na medida em que o narrador se embrenha através de uma cidade orgiástica, se defronta com o famoso cavalo já citado nas primeiras impressões e lhe dá um longo beijo na boca. O segundo plano é a própria distorção: não distorção pelo surgimento do absurdo, mas sim por um laivo de concomitância entre um suspiro de sonho e uma vigília desapegada. O narrador sonha, sonha desesperadamente através do interior mineiro ao ponto de conviver entre os anjos.

Sonhar não se trata tão somente de um devaneio, ou de um capricho de um discurso distraído que fala sobre o que convém: é um mundo que se abre pela demanda de um caminho, de uma vereda no qual se precisa seguir.  É como seguir pelo barco de Caronte no grande oceano do Tártaro para encontrar o sentido da vida cotidiana. Eis aqui o ganho de Felipe: a distorção do sonho como evento cotidiano despudorado (como pretendia Breton). Curiosamente, o narrador perspassa uma trajetória de envolvimento com este universo deslocado e se comporta com ele não como aquele que dele se exclui, mas sim como aquele que nele se debruça. O narrado é aquele que se narra a partir de um adjetivo no pretérito, sendo maculado pelas bizarrias que nele subsistem. De forma completamente etérea, se torna irrelevante a veracidade dos acontecimentos do fadado ao disforme, mas sim a experiência de uma vivência dada ao nonsense.

Não tenho muito interesse em dar spoilers sobre o romance, aliás, acho isso um desserviço da resenha esse tipo de postura. Mas, talvez valha a pena a menção de que o verbo precisar ganha o sentido de um compromisso com a noção de trajetória. Não se trata, portanto, de confabular o romance de Felipe como um romance que busca emergir o nonsense na medida em que este é um fenômeno estético pelo grotesco ou espantoso. Talvez seja possível analisá-lo sob a perspectiva de um mundo tedioso espelhado a um mundo dos horrores que se resguarda como que por debaixo da terra (ou das pálpebras) e que, num solavanco das seis horas da manhã, se desperta para um destino incerto, resguardado num aquário de pensamentos.


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