RESENHA | Claustrofobia, Tiago Masutti

Livro: O cigarro tinha gosto de beijo e outras histórias.
Autor: Tiago Masutti
Ano: 2017
Editora: Independente. Sem editora.
Sinopse:

O burlesco e o grotesco unem-se de forma definitiva neste livro de contos de Tiago Masutti – Historiador, Blogueiro e Escritor vencedor do Prêmio Miró de Literatura com o conto Sintonizando Nancy. Misture ficção científica e realismo mágico com suspense noir e crônicas de fantasia gótica para ter uma vaga ideia dos romances fracassados que lhe aguardam nestas páginas. Abandonai toda esperança, vós que entrais!

A solidão é uma doença, dirão a uma só voz os médicos, os psicólogos e, ainda, os gurus da autoajuda. Mas não os contestemos com os efetivos contraexemplos dos artistas, dos boêmios e dos loucos, essas figuras solitárias par excellence que souberam fazer da solidão não uma doença, mas a mais alta prova de saúde. Ao contrário, façamos isto: é possível que seja verdade? Em que circunstâncias, por vezes banais, a solidão assume para nós o signo, ou a característica, de uma  patologia? E se assim for, seria o sujeito abatido pela solidão… o verdadeiro doente? Essas e outras indagações evanescentes, como a fumaça de cigarros consumidos em noites de insônia, emergem das linhas embebidas de um profundo pessimismo existencial do conto Claustrofobia, da antologia O cigarro tinha gosto de beijo.

Poucos são os escritores, arrisco dizer, a tomarem para si a tarefa de fazer falar não os sentimentos mais elevados e doces do ser humano, mas aqueles sentimentos baixos e amargos que costumeiramente jogamos para debaixo do tapete, fingindo que não existem, porque ofendem a nossa fantasia de perfeição: a solidão, o vazio, a ausência de sentido, o desespero. Eduardo, o protagonista e narrador do conto, é uma dessas pessoas que não tem a nos oferecer discursos edificantes e motivacionais, mas o testemunho cru do fracasso da Humanidade e seu projeto civilizatório. Ele não é um vencedor, um herói moderno que teria descoberto a fórmula da felicidade. Tudo nele exibe a marca indelével do desencanto e da ruína.

O conto inicia-se com a mórbida cena de uma tentativa malsucedida de suicídio. Eduardo desperta, algum tempo depois, no hospital; sua namorada Beatriz, uma linda ruiva de pele branca e macia, está ao seu lado. A partir daqui, acompanhamos o protagonista em sua retomada gradual da vida cotidiana. Na primeira semana após ter recebido alta, Eduardo refugia-se nos braços de sua amada, chegando mesmo a encontrar neles algum conforto, como numa espécie de sonho idílico possibilitado pela suspensão do comércio com o mundo. Afastado do trabalho para recuperar-se, ele poderia enfim distrair-se do que o sufocava: a vida besta das grandes cidades, essa vida que o obrigava a acordar “todos os dias às 6h da manhã numa selva irreal de concreto e silício”. É certo dizer que ele pôde experimentar um fugaz período de alegria e contentamento de si.

Seria a felicidade – não importa o significado que se dê a essa palavra – possível tão-somente nesses raros e fugidios momentos de suspensão em que as demandas do mundo não mais nos oprimem? Quando refugiamo-nos em nossa alcova, perdidos entre garrafas de uísque e cigarros, ou então entre os braços da mulher que se ama? Que pode o vício? Que pode o amor? Perguntas que pairam no ar, dissipando-se em elucubrações embrulhadas no fino tecido da desesperança.

76433835490f4eebbf3a15c5366b2de4O leitor que se arriscar a ler este conto, encontrará muitas perguntas e nenhuma resposta; vislumbrará aquilo que se espreita nos cantos de uma alma vencida em todas as frentes. Apressamo-nos em exaltar aqueles que de alguma forma venceram as adversidades da vida, mas e quanto a todos os outros que tombaram no caminho? Pois eles existem, infestam as grandes cidades, podem ser os nossos vizinhos, os nossos colegas de faculdade, um membro de nossa família, ou, ainda, nós mesmos. Nem todos serão agraciados com a medalha da vitória, está mais do que na hora de encararmos esse fato insuportável. Fala-se, então, dessas personagens invisíveis que, a despeito de sua suposta insignificância, movem com o sangue de seus pulsos abertos as engrenagens da história da nossa sociedade, esse Moloch – para usar as palavras de Ginsberg – cujo tórax é um dínamo canibal; e cuja energia advém, não se enganem, do sacrifício de milhares de homens.

O livro está disponível no site LuvBook, aqui.

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Sobre o autor

Raony Moraes
Resenhista do Clube de Livros, estudante de filosofia em hiato acadêmico, desenvolvedor independente de jogos eletrônicos e escritor amador. Catarinense de nascença, vive atualmente no interior de SP, mas pretende retornar à Curitiba, cidade que considera a sua verdadeira casa. 🙂

Raony Moraes

Resenhista do Clube de Livros, estudante de filosofia em hiato acadêmico, desenvolvedor independente de jogos eletrônicos e escritor amador. Catarinense de nascença, vive atualmente no interior de SP, mas pretende retornar à Curitiba, cidade que considera a sua verdadeira casa. :)

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