RESENHA | Brasyl, de Ian McDonald

Nome: Brasyl.
Autor: Ian McDonald.
Editora: Saída de Emergência.
Ano de publicação: 2015, RJ.
Número de páginas: 414.

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Sinopse: Três personagens. Três histórias. Três Brasis. Ligados através do tempo, do espaço e da realidade.
Marcelina é uma produtora de TV que sai pelas ruas do Rio em busca do sucesso que lhe trará a fama. Quando uma ideia para um programa a faz rastrear o mais infame goleiro do futebol brasileiro, ela se envolve em uma antiga conspiração que ameaça não só a sua vida, mas também a sua alma.
Edson é um empresário de celebridades tentado sair das favelas de São Paulo em um futuro não muito distante. Um encontro inesperado o faz cair no mundo perigoso da computação quântica. Agora, sem ter para onde fugir em um Brasil em que cada rosto e centavo são rastreados, ele precisa salvar a própria pele.
Padre Luis Quinn é um missionário jesuíta que vasculha as profundezas da Floresta Amazônica do século XVIII em busca de um padre renegado que tenta estabelecer um império. Mas o que ele encontra ali põe em xeque a sua fé e a própria realidade.
Três tempos que se ligam pelas mais misteriosas circunstâncias.
“Ian McDonald é um dos mais politizados escritores contemporâneos de ficção científica.” – New Statesman
Sobre o autor (opcional): Ian McDonald nasceu em 1960 na Inglaterra, filho de mãe irlandesa e pai escocês. Sua família se mudou para a Irlanda quando ele tinha 5 anos. Morou no jardim da casa onde C. S. Lewis passou a infância, e depois foi par o centro de Belfast, onde mora até hoje, com seus gatos e sua coleção de histórias em quadrinhos. Sua carreira começou na década de 1980 e já foi premiado com o BSFA e o Philip K. Dick Award, além de ter sido várias vezes finalista do Hugo e do Nebula.⁠⁠⁠⁠
Brasyl se destacou ainda na prateleira, por causa da capa maravilhosa. Sem dúvidas o “não julgue um livro pela capa” se mostrou mais uma vez mentiroso, por ter sido o fator predominante na escolha deste exemplar. As cores são harmoniosas, o Brasyl escrito com “Y” instiga a curiosidade, e o cenário se destaca, contrastando com a parte de trás do livro, que é cinza, a meu ver uma fotografia antiga e que mostra o mesmo lugar escolhido para a capa, porém com uma aparência livre de prédios futuristas, luzes e afins, obviamente, fotos de diferentes épocas. Assim, como a história dos protagonistas.
Sobre a qualidade do livro: só tenho elogios. A diagramação é impecável e o material de boa qualidade. Um fator interessante é que pela história ser dividida entre três personagens de épocas distintas — temos Marcelina no ano de 2006, Edson em 2032 e por fim o Padre Luis, no passado, em 1732 —, quando começa um novo capítulo, vemos uma mudança na fonte.
Outro ponto que merece destaque é a divisão de partes, ao todo vemos 8 delas. Ramificadas em três capítulos que são destinados a cada um desses personagens. E os nomes não poderiam ser mais originais, cada um representa uma “Nossa Senhora”: Nossa Senhora da Valiosa Produção, Nossa Senhora do Spandex,  Nossa Senhora do Lixo, Nossa Senhora que apareceu, Nossa Senhora da Várzea, Nossa Senhora das Telenovelas, Nossa Senhora do Sapo Dourado e por fim, Nossa Senhora de Todos os Mundos.
O primeiro personagem que nos é apresentado é Marcelina, uma produtora de TV (acrescento aqui: capoeirista e que preza bastante pela aparência.), que está em busca do programa que lhe trará fama, como dito na sinopse.
Iniciamos o livro com a execução de uma ideia que ela tem para um provável, novo reality show, claro que para isso a editora sênior, conhecida como Urubu Emplumado, tem que aprovar o formato.
Após gastar quatro mil em um Mercedes classe C que estava em um depósito. Tunar, colocar calotas e parachoques cromados, tudo isso feito pela equipe de um programa de televisão produzido pela MTV chamado Pimp My Ride, que consiste em restaurar automóveis que se encontram em péssimas condições e é claro, o tuning barato é do pessoal do design. Deixa ele estacionado em um lugar estratégico com as portas destrancadas e a chave na ignição, facilitando, assim, o roubo.
Três caras são os alvos para o “carro de traficante”. Fazendo todo um ritual já esperado por Marcelina, passam a primeira vez só para olhar, depois uma segunda vez para checar, mostrando interesse nos acessórios e apenas na terceira vez o roubo e efetuado.
Mesmo surpresos por encontrar o carro aberto, os garotos o levam. Tão logo a equipe de gravação escuta o barulho do motor, a perseguição começa.
Agora os rapazes, para ficarem com o carro, não podem ser pegos pela polícia nos próximos trinta minutos. Porém, quando ficam sabendo do que se trata e que o Mercedes estava dando sopa por esse motivo, os três apelidados de Malhação, América e O Clone (Alguém mais notou que são nomes de novelas da Globo?), por eles mesmos, agem com toda esperteza que possuem e além de não serem pegos pela polícia, rouba o SUV, onde a produtora estava, foge com ele e depois de tudo isso, deixam o carro abandonado e todo depenado.
Apesar de todos esses “pormenores”, Marcelina se encontra satisfeita, julgando que por ser uma boa premissa, o formato precisa apenas de uma pequena modificação e assim terá uma TV da boa.
Opinião, essa, não compartilhada pela Editora Sênior, que não aprova, enumerando os riscos que tal programa pode causar, apesar de realmente ser uma boa ideia e encaixar na faixa etária do público do Canal.
Decepcionada Marcelina vai para uma roda de capoeira, sua válvula de escape e a coisa mais cool do momento (nem um pouco estação passada), que com o tempo, acabou virando uma paixão para ela.
Alguns dias depois, o diretor de programação do Canal Quatro diz ter descoberto a programação de inverno da Rede Globo. Nova novela que marcará o retorno de uma grande atriz e de um galã que estava afastado do Brasil. Agora a equipe precisa de algo grande para tentar derrubar a programação da grande emissora. Marcelina mas uma vez está esperançosa.
Conversando com Dona Bebel, a mulher que arruma a casa de Marcelina e que é a responsável por ter dado a maioria das ideias que ela já teve para programas, descobre sobre a final fatídica. Assunto esse que surgiu por, 2006 ser ano de Copa do Mundo. Espantada a Senhora conta sobre tudo que aconteceu em 1950 e o que a derrota do Brasil para o Uruguai acarretou. Inclusive o fato do goleiro Barbosa ter participado de apenas mais um jogo pela seleção e depois desaparecer.
Uma ideia perfeita para um programa, surge, como sempre, durante as conversas entre essas duas mulheres.
Agora ela irá atrás do Goleiro. Ela quer que ele explique a situação para que logo após, seja julgado. Os torcedores dirão se ele merecesse ser perdoado ou não. Claro que, nada é tão fácil. Marcelina vai ter que passar por poucas e boas para atingir seu objetivo. Inclusive descobrir segredos e entrar em apuros.
Edson, Efrim ou qualquer um dos diversos outros nomes que tenha (ele possui diversas personalidades desde empresário a travesti e está sempre criando novas, quando, acha ser necessário), vive em um mundo futurístico. Nesse novo universo, todos os habitantes são rastreados através dos seus *I-shades* por drones, conhecidos também, como Anjos da Perpétua Vigilância, que tem acesso até mesmo a conta bancária dessas pessoas. Aqui é quase impossível sair impune de crimes, contudo quase não é totalmente, certo? Já que cada objeto pessoal possui um chip de identificação de radiofrequência, os chamados arfids.
Edson sonha com o dia que ele vai sair da favela e ter uma vida melhor. Porém quando ele tem de salvar seu irmão Gerson, que roubou uma bolsa. As pessoas que o ajudavam removendo os arfids o deixam na mão por essa bolsa conter, não o chip convencional, mas sim um NP, tecnologia que envolve física quântica, ele acaba conhecendo Fia, um Quatumeira, e um sentimento estranho/diferente cresce dentro dele. Não é desejo, muito menos amor. Mas algo como glamour, talvez até adoração. Ele acaba no meio das confusões que essa amizade atraí. E ele vai presenciar situações que até então, julgava nem existir.
Na minha opinião, Edson e o seu futuro de física quântica, traz a parte mais difícil da história. Nos capítulos destinados a ele, tive que ler e reler alguns trechos, diversas vezes, para entender o que estava acontecendo e para saber quem é quem. Até mesmo as identidades dele confunde às vezes. Os nomes são bem diferentes, parecidos com apelidos e muita das vezes, são isso mesmo, apelidos e talvez seja por isso que me confunde tanto.
Por último, mas não menos importante, temos o Padre Quinn que chegou ao Brasil vindo de Coimbra. A chegada dele não é uma das mais agradáveis. Quase foi atropelado por um mula com raiva, viu o bicho morrer afogado e ainda presenciou o modo como os escravos são tratados. De uma maneira totalmente desumana.
Ele vem como admonitor, sua missão? Procurar pelo padre Diego Gonçalves e “restaurá-lo à Disciplina da Ordem”. Então, ele viaja com Dr. Falcon, que quer fazer uma experiência na linha do equador, mas todos suspeitam que ele seja um espião.
Ele conseguiu uma tarefa difícil. Da forma que ele gosta.
O Padre como todos os outros personagens, também têm, outras ocupações, além das principais listadas na sinopse. No caso dele, as espadas, sim, ele é um espadachim.
Nessa aventura ele vai descobrir até mesmo, o misticismo, o que pode pôr a fé dele em prova.
Mesmo o autor contando fatos reais, nem tudo pode ter acontecido nas épocas que ele escolheu. Então, esse é um novo Brasyl com fatos do nosso velho Brasil. O que não tira o brilho. O autor mostra ter um domínio grande sobre nossa cultura, costumes, programação de TV e muitos outros fatos. Mesmo sendo um livro de ficção dá para aprender muito com ele. Eu aprendi sobre a copa de 1950. (Risos)
Sem dúvidas uma leitura quase que obrigatória. Acho que todos tem que conhecer essa visão de Ian sobre o nosso Brasil. Ver como o país é retratado nessa ficção científica, ainda mais, por nosso país, raramente, ser mostrado. Até mesmo por escritores daqui, principalmente os novos, preferir ter seus personagens em outros países, por esse mundão afora.⁠⁠⁠⁠
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