RESENHA | Baba Yaga e Vasilissa, a bela

A Editora Wish disponibilizou um conto de sua compilação de 3 volumes, e pensando nessa reaproximação entre Brasil e Rússia proporcionada pela Copa, mas que convenhamos, já é existente na literatura há muitos anos (vejam essa interessante matéria a Nova Escola), o Clube de Livros propôs uma resenha um pouquinho diferente: convidamos a nossa resenhista Thalliany Ribeiro e nossa co-editora Lua Bueno Cyríaco para falarem não só da história recolhida pela edição de “Contos de Fadas em Suas Versões Originais” como também de outras versões deste conto e seus aspectos de conto maravilhoso.

O conto “Baba Yaga e Vasilissa, a bela” do livro Contos de Fadas em Suas Versões Originais, Vol. 3 da Editora Wish.

por Thalliany Ribeiro

Somos tremendamente fechados em nossa própria cultura, não temos tanto contato com os elementos culturais de outros países, esse ano comecei a ter esse contato, primeiro, pelos contos orientais (através da leitura de Raposas: contos populares orientais) e agora com esse conto russo disponibilizado pela Editora Wish gratuitamente.

wish editora baba yagá.jpgO conto Vasilissa, a bela, foi uma grata surpresa. Por ser tido como um conto de fadas, confesso que esperava algo mais infantil, mas o conteúdo foi completamente diferente.

A história contada é de Vasilissa, a bela (nome que significa rainha e é muito comum nos contos de fadas), uma filha de mercador, extremamente bonita, que muito cedo perde sua mãe e se vê vítima de toda sorte de crueldades feitas por sua madrasta. E é uma dessas maldades que Vasilissa encontra uma das figuras mitológicas eslavas mais famosas, a Baba Yaga.

A bruxa, com toda certeza foi uma minha personagem preferida do conto, afinal, ao contrário das maniqueístas histórias ocidentais, ela não é apenas uma encarnação do mal. Ela possui várias camadas e interpretações, medo, respeito ou esperança, ela pode inspirar tudo isso. Ela poderia por exemplo, ter matado Vasilissa, quando a mesma entra em sua propriedade ou quando a bênção foi mencionada, contudo não o fez e a deixou partir sem maiores danos. Ao mesmo tempo, ela ameaça a heroína e a faz servir como escrava, além de ter indícios que ela já matou outras vezes. E não é só nesse conto em específico, a maioria das pesquisas apontam que ela pode ser a “avó” que vai ser justa ou a bruxa da floresta que mata sem dar chance de defesa.

Uma figura presente em outros contos de fadas, nesse ela aparece para Vasilissa, quando a garota vai à busca de fogo floresta adentro. Então, Baba Yaga, lhe dá algumas tarefas para que ela seja liberada, contudo, se apresenta como uma figura extremamente envolvente.

Para não dar muitos spoilers, vou focar nos elementos que mais me encantaram, os três cavaleiros que a servem. O branco, que representa o dia, o vermelho que representava o sol e por fim o negro, sendo à noite. Mostrando, que mesmo seu poder tem várias nuances e vertentes.

Baba Yaga é uma figura dual e intrigante. Que inclusive foi citada no filme Homem-Formiga e Vespa, que assim como a fantasma, poderia ajudar ou atrapalhar. As referências não param por aí, o fato das duas serem capaz de cometer assassinatos e que suas vitimas devem fugir delas.

A viagem de Chihiro – encontro com Yubaba. Semelhanças com a Baba Yagá? from Gave Lowie on Vimeo.

Mas o conto não se resume as semelhanças à história da Cinderela e a poderosa bruxa, também possui diversas referências à cultura russa como a bebida Kvass (bebida alcóolica feito a partir de centeio e frutas, típica russa), dentre outros elementos. As referências ao mundo branco (Europa) e o medo de ser expulso dele, também não passam despercebidas, além do medo da bruxa a uma referida benção, que poderia remontar a crescente dominação do cristianismo.

Por fim, não posso deixar de comentar sobre o trabalho excelente dos tradutores Felipe Lemos e Kamila França, cujas notas foram essenciais para que compreendesse as camadas e referências do conto de Alexander Afanasyev, datado do século XIX. Vasilissa, a bela, é uma boa pedida para quem quer saber sobre a cultura da Rússia de forma mais íntima e leve.

Aspectos históricos e arquetípicos do conto.

por Lua Bueno Cyríaco

O conto apresentado no referido livro, foi recolhido por Alexandre Nikolaievitch Afanasyef – a grosso modo, a versão russa dos irmãos Grimm, que publicou sua compilação em 1866. Entretanto, estimar como sendo a versão original desta história seria dificilmente possível, conforme afirma Propp[1]: “A origem do conto não está ligada à base econômica de produção em curso do século XIX, quando se começou a registrá-lo. O verdadeiro conto maravilhoso é igualmente mais antigo que o feudalismo”. Os estudiosos do século XIX – cito em especial os russos Propp e Meletinski para ficar “em casa” digamos – desenvolveram trabalhos de pesquisa muito interessantes que investigavam as estruturas e morfologia dos contos e suas origens longínquas.

À parte esse estudo mais especializado etimológico, havia também o grande interesse de folcloristas (como Afanasief) no registro da literatura oral e a Federação Russa àquela época era fonte riquíssima de contos populares. É preciso relembrar que havia um movimento na Europa que buscava o ressurgimento de uma mitologia originária, algo que caracterizasse a identidade cultural dos países e dos povos –iniciado na como chamamos hoje–, Alemanha (Goethe é um dos grandes representantes da literatura romântica), mas expandido pelo continente.

A relação dos escritores russos do século XIX com os contos maravilhosos é estreita, em especial se pensarmos em textos como o de Gógol, que em muitos dos seus contos habita o aspecto fantástico dos contos maravilhosos que também tem muita relação com as experiências da infância – ambos temas comumente abordados pelo autor, tido como um dos precursores do realismo mágico.

Vassilissa, Vasilissa ou Vasalisa, é uma personagem conhecida não só pelos russos, mas também na Romênia, Iugoslávia, Polônia e em todos os países bálticos segundo pesquisa da contadora de histórias e psicóloga Drª Clarissa Pinkola Estés. O nome desta história varia e algumas vezes é chamada de “A boneca”, “Wassilissa, a sabida” e segundo Angela Carter, “Vassilissa, a formosa”, que foi basicamente o título escolhido pelos tradutores da edição publicada pela Editora Wish.

A principal diferença da versão dessa edição para as outras traduções para o português[2], é que ela está apresentada de uma forma mais semelhante ao que se espera de um conto em um livro, os diálogos, a forma de se contar a história em si, realmente, assemelha-se à linguagem usada pelos Grimm. O que é confortável para os leitores; há uma ambientação mais detalhada, um desenvolvimento mais palatável e lógico. Coisa que as versões de Carter e Pinkola não possuem; estas estão muito mais ligadas à tradição oral – em contos populares, muitas vezes as coisas simplesmente acontecem, sem qualquer preparação ou “sentido”.

Os contos de fada – ou contos maravilhosos – que hoje conhecemos como produções da Disney – ou em lindas coleções ilustradas infantis – não necessariamente eram destinados à crianças (embora muitos fossem, mesmo que falassem de cabeças ou membros decepados e pessoas sendo cozinhadas em panelões ou fornos. Bem, a ideia de infância não é algo que exista há tanto tempo, precisamos lembrar disso, rs), mas é necessário conceber que a história – melhor seria dizer, a ficção – tem uma função na humanidade, e a mais básica delas, é entreter e repassar algum tipo de conhecimento. No trabalho de Pinkola, a analise de contos se refere à sua ligação com a psique humana.

O despertar da intuição feminina: Vassilissa, a nobre.

Vasilisa the Beautiful, 1899 por Ivan Bilibin

Assim como o tradutor Felipe Lemos traz em suas notas ao pé da página:

É a forma feminina de Basil, derivado de basileus, que significa “rei”. Vasilissa pois, significa “rainha”, e é um nome comum nos contos de fada russos.

sendo assim, o nome denota realeza e não é difícil entender que a história se trata de uma jovem exemplar, virtuosa, assim como todas as jovens deveriam ser. Sendo Vassalissa um modelo, ela tem a função de ensinar algo a todos nós.

Sua história fala, basicamente, sobre a iniciação de uma mulher – como assim interpreta Pinkola (e eu concordo bastante com ela, pra ser sincera): a transição de menina para moça.

Ela passa de uma infância boa, onde foi bem criada e educada por sua mãe – Assim como se espera que sejam criados os filhos – e devido a isso, ela tem algo: sua boneca mágica que sempre lhe ajuda e aconselha. A boneca é sua ligação com os ensinamentos da mãe e ao mesmo tempo o desenvolver de sua intuição a partir dessa base materna.

Mas não se pode depender para sempre da proteção materna (ou de qualquer outra), por isso, a morte da mãe é necessária para que Vassilissa passe para outra fase de sua vida.

Enquanto a mãe de Vassilissa traz a imagem protetora da mãe dos primeiros anos de vida, eu ousaria dizer que Baba Yagá é a representação do mundo, e da necessidade da postura da mulher feita, que já não pode contar com a proteção de sua mãe, e deve agora, seguir seu caminho sozinha. Porém, nem tanto. A boneca, bem alimentada, ajuda a moça a desenvolver sua intuição, e usá-la como guia. No entanto, é através do desafio imposto pela adversidade de se lidar com Baba Yagá que essa intuição ganha forma e mostra o seu poder.

Um aspecto claro dessa saída da infância é na passagem em que Vasilissa tem a permissão de fazer perguntas a Baba Yagá, a velha então lhe alerta que “cada pergunta não a levará a nada bom” na versão de Carter esse diálogo é mais revelador, ela diz: “Pergunte, mas lembre-se: nem toda pergunta resulta em coisa boa. Você vai aprender muito. Logo será adulta”, no entanto, embora tenha curiosidade para saber também sobre os braços mágicos que surgem na casa, Vasilissa não a questiona por isso, apenas sobre os cavaleiros que viu no caminho. A velha lhe revela que ela foi esperta de ter perguntado sobre as coisas de fora da casa, e não de dentro, do contrário, ela teria virado comida para a bruxa. Com isso a bruxa se refere aos mistérios femininos, e por isso demonstra aprovação ao fato de Visilissa não a ter perguntado sobre isso, afinal, ela mesma logo saberia que algumas coisas devem ser mantidas em segredo.

Baba Yagá, a natureza selvagem

Baba Yaga , 1899 de Ivan Bilibin

Conforme Carter revela em suas notas, é interessante perceber a terrível figura de Baba Yagá e sua ligação com as deusas mães de várias mitologias; a referência aos três cavaleiros (dia, tarde, noite) como “seus”, a referência à vassoura, o trigo e o pilão (objetos de uso relacionados a colheita e cultivo, típicos de povos agricultores e, consequentemente, de religiões matriarcais ou “igualitárias”). O comportamento dela também é muito próximo do selvagem das deusas primitivas, ligadas a natureza, que é terrível e ao mesmo tempo justa. Ela está lá para prover, mas não se obtém recursos sem esforço e sabedoria.

Outro ponto interessante sobre Baba yagá é a aversão mostrada pela “benção” mencionada por Vasilissa. Na nota, Carter comenta sobre isso ter ligação com o que poderia ser o medo de uma deusa pagã de ser escorraçada pelo cristianismo. Ela complementa que, Filligham-Coxwell comenta acerca da civilização russa à época da compilação: “O clérigo tem uma posição difícil, mal paga e não muito valorizada. Assim a superstição e a crença na feitiçaria abundam, embora o empenho da igreja ortodoxa para eliminar as práticas e tradições pagãs não tenha deixado de conseguir muito bons resultados” (Siberian and other folk tales, p. 671).

Em algumas versões, Baba Yagá é tida como “a mãe do diabo”, sendo má, estupida e ruim até com os animais. Isso acontece por conta do período stalinista graças a folclorista soviética E. A. Tudorovskaya.

baba yaga house.png
À esquerda, ilustração de autor desconhecido sobre a casa de Baba Yaga conforme os contos tradicionais. À direta, casa do Mago Howl, que é perseguido por uma velha bruxa, versão do Studio Ghibli para o livro “O castelo animado” da britânica Diana Wynne Jones. Semelhanças?

[1] no primeiro capítulo de “As raízes históricas do conto maravilhoso”

[2] aqui me refiro às compilações de Angela Carter e Clarissa Pinkola Estés

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