PRIMEIRAS IMPRESSÕES + RESENHA | Razões do Agir de um Bicho Humano, Vinicius F. Barth

Com seu livro de estreia, Vinícius F. Barth inaugura sua escrita na literatura fantástica brasileira. Tarik Alexandre teve a oportunidade de resenhá-lo para o Clube de Livros, contando um pouco mais sobre o Razões do Agir de um Bicho Humano a partir dos objetos e cômodos de uma casa.

resenha barth imagemRazões do Agir de um Bicho Humano
Autor: Vinicius F. Barth
Editora: Confraria do Vento
Ano: 2015
Sinopse: E bem sei que não sou bom em contar histórias. Não como escritor de livro. É bem diferente o saber como escrever do saber o que escrever. Mas a verdade é que já li histórias de montanhas e de mar e de sertão, e já estive nesses lugares de verdade e de mentira. Pra mim acaba sendo tudo de verdade, já que achar que estar em algum lugar é praticamente estar de fato, e que não venha outra cabeça dizer que o que se passa na minha é falácia. Acho que mais comum é cabeça voante, de gente que só está onde não se está.

Campainha

No fim de tarde fui convidado para ir até um bar tomar uma cerveja.  Neste dia, ainda muito ensolarado e dourado, desci o morro do Largo da Ordem até o tal bar para honrar o compromisso. Um homem de pequenos óculos escuros, nem gordo nem magro, estava no canto da parede com a cabeleira amarrada: sequer precisei adivinhar que era o autor do Razões do Agir de um Bicho Humano. Assim que me notou, logo sorriu e entrei.

Um abraço lá e cá, bons cumprimentos, um Camel na boca e o livro veio até a minha mão. Na capa, um feixe de luz que atravessa um cruzamento e um homem (provavelmente um executivo) atravessando a faixa de pedestres. No canto superior esquerdo o título e o nome – até bem discreto – Vinicius F. Barth. Baaaarth (é bom de entonar).  Assim que chegou o Chopp, vi que na folha de rosto tinha uma dedicatória para mim:  O Mago da Nostalgia.

Como ele sabia?

Hall de Entrada

Baaaarth é um cronópio, não resta dúvidas. O álcool tem a capacidade de nos contar muitas coisas e muitos detalhes. Porém, o que verdadeiramente interessa é a sua predileção por Famas. Somos imediatamente convidados a conhecer Julian “Jamón” Javier, o xerife local:

 – Eh! – exclama Julian

O xerife, na sua segunda profissão depois de ocioso, é acompanhado de seu escudeirosanchopança Fim-de-Tarde, o cavalo. Ambos desfrutam de uma tarde juntos de um livro de Domenica Varella. O amor pelos poemas sussurrantes, a saber, o mundo em torno de um sussurro, claramente o comovem. Comovem não porque são bons poemas, comovem porque são sussurros de Julian – Jamón! – Javier, seu único e exclusivo poeta de tão aclamada obra na vernissage de seus sentimentos correspondentes aos poemas.  Um estilo alongado, demorado e tranquilo, comendo com sabedoria pasto raso pela praça por todo o primeiro conto. Fim-de-Tarde é o cronópio como segunda profissão enquanto rumina as estranhezas dos Famas.

Demos um brinde enquanto fumava o segundo Camel.

Copa-Cozinha com lavabo

A estética entre a salivação e o luzir metálico dos talheres em harmonia com salada, cheese costela 200g de puro sabor e picles (lil’bits[1]) são producentes de um êxtase involuntário da redescoberta da fisiologia do palato enquanto método de saber. Os experimentos gastro-tópicos redativos do CNPQ são demonstrativos de um confiável olhar analítico e suficientemente clínico para notar a sintomatologia das Razões do Bicho Humano (BARTH, 2015, p.1). A confrontação quase que sutil entre as duas críticas kantianas para dar supremacia ao sublime e a capacidade imaginativa da  Crítica do Juízo  uma vez que razões e bicho são impossíveis de serem pertencentes à mesma categoria (Descartes quem o diga!), dão pequenos estalidos de cheddar com cebolas caramelizadas que apontam  para uma  desconstrução da escrita acadêmica em prol de um refogado com repolho e batatas sautés como segunda opção literária.  Trazemos à tona os comentários contundentes de Seegmiller: o ser é possível de ser concebido entre uma xícara de arroz, sal e água em fervura, mas não demais para não grudar.  Duas páginas de puro sabor e muito lattes.

Xícara de porcelana para espresso

Os Tópicos Cerebrais pt. I e II são excelentes temas para serem expostos durante o tira-gosto do almoço ou janta.  Baaaarth é extremamente focado em mesas redondas para enunciação das banalidades pseudo-intelectualistas, como o método de resgate de fios de cabelo ou qualquer outro tipo de meticulação racionalista monstruosa, como bem Goya e Cortázar sabiam.  Podendo escolher entre Macchiatto ou então um delicioso Moccha com raspas de esteiras de supermercado, somos convidados a compreender a ironia da fascinação pelos objetos ordinários da vida intelectual e, simultaneamente, reproduzi-los com maestria e não muitos pudores. É recomendado não utilizar açúcar ou qualquer outro substituto de glicose durante a experimentação destes deliciosos mimos.

Escritório particular

Curitiba é tediosa. Todo cronópio sabe disso. Depois do terceiro ou quarto copo sucessivos, se fala disso com uma naturalidade tremenda que a constatação é consensual a qualquer curitibano. Constatar, não necessariamente sentir. Quem sente é o cronópio diante do fama.  Certamente, diante de uma estante/vitrine espetacular, encontramos fotografias e alguns souvenires os itens fancies e algum MPB ecoando pelas vielas.  Carne Vazada é o conto que melhor registra uma certa boçalidade bocejante de uma cidade de mãos dadas com o hipster, tipo os móveis coloniais de algum parente seu ou dos seus próprios móveis quando embalados pelas canções de bossa nova do João Gilberto. Acompanhar a grande leitura das obras d’O Brâmane se torna uma experiência de estranhamento fantástico lá com certa proximidade de Kafka.

Ampla Varanda de Quarto Suíte

Os termos de Barth são sempre da ordem do absurdo. O cotidiano é tão fatigante que se torna etereidade que irrompe em caos. A esperança sempre se compõe como possibilidade para felicidade: a chance de um dia aventureiro num sábado tedioso, ou então a capacidade de construir uma balela intelectual sofisticada a partir de uma verborragia despropositada. A comida é o símbolo do prazer enquanto felicidade efêmera, a saber, o momento de delírio rápido, efetivo e passível de repetição (ou pelo menos enquanto seu estômago possa suportá-lo). A vida é uma burocracia tão insuportável que se torna  proposta para um sentido feito de gesso: oco. Lucy acorda com o sentimento de estar vivendo uma plena segunda-feira, apesar de ser terça.  Talvez não fosse eu o mago da nostalgia. Naquele bar como umamáquina de delírio, o Bicho Humano, ou Lucy, está preso nas engrenagens de porcelana da melancolia e que Barth muito bem sabia. Foi-se o meu último Camel e a luz do dia.

[1] Rick and Morty

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