PRIMEIRAS IMPRESSÕES + RESENHA | Arabesco, de Gustavo Jugend

Arabesco
Autor: Gustavo Jugend
Editora: Urutau
Ano: 2018
Sinopse: Arabesco, obra de estreia de Gustavo Jugend, é um apanhado literário que costura, com a linha da poesia, narrativas em verso e prosa. As palavras do autor oferecem a suas histórias uma forte carga imagética, além de transferirem ao leitor sensações pungentes e duradouras. […] O leitor não experimentará, no entanto, a sensação de alívio; deve estar avisado de que são raros os textos que contêm um ‘que’ de alegria. Algumas das narrativas de Arabesco surpreendem por seu cunho surrealista; outras chamam a atenção pela beleza – por vezes sutil, por vezes gritante – que evocam; outras, por sua vez, são apenas dor.

Se morre um ser humano muito próximo de nós, há nos desenvolvimentos dos meses seguintes algo do qual acreditamos notar – por mais que gostássemos de tê-lo partilhado com ele – só podia desdobrar-se pelo seu estar longe.  Acabamos por saudá-lo em uma língua que ele não entende mais.

Walter Benjamin

Gosto de notar entre os livros que resenho antes do texto em si mesmo as dedicatórias que me são dadas.  Noto nelas sempre algo elemento constitutivo do material que recebo e que, por sua vez, garante um viés interpretativo possível já que a tinta se misturou ao papel e nele se inseriu qualquer coisa de novo e pertinente. Quando recebi Arabesco pelas próprias mãos de Gustavo Jugend, muito me impressionou a caligrafia infantil e assimétrica que remete a uma amizade poética com “poucas palavras” para encontrar em minha alma um “solo vivo”.  Entretanto, reside nessa caligrafia uma característica topológica: são letras assimétricas porque se envolvem em um plano de superfícies repleta de relevos e concavidades.  Nada mais justo e conveniente para um texto que trata de “arabescos”.

Arabesco, livro de crônicas produzidas por Gustavo Jugend (cujo título é oriundo de um texto homônimo) são dadas por um estilo feito de etereidades plumbosas, em que os relevos são íngremes e muitas vezes difíceis de galgar os pés sem por vezes escorregar ou até nos notarmos em apuros diante da constatação de que precisamos retomar as folhas mais outra vez para ler com a devida atenção já que não entendemos de imediato. Entretanto, esse esforço antes de ser qualquer coisa muito fastidiosa parece mais como uma valsa da qual o nosso empenho de forma mais generosa e dedicada nos permite dançar numa contemplação gratificante entre texto e imagem. Aliás, o grande mérito de Arabesco é a sua capacidade de utilizar cacos de vidros de imagens/linhas abstratas para compor vitrais afetuosos, empáticos e dolorosos sobre experiências da vida ordinária. Glauber Klein em seu prefácio é muito contundente em observar que esse esforço melódico entre abstração e imagem gera um trabalho feliz, pois a transparência das paisagens nos conduz a uma profundidade da pele, da singeleza que nos remete a Ethel Sands numa manhã que se refrata na calmaria da natureza morta.

Arabesco se divide em seis recortes (Cicatriz, Fleuma, Olhos, (Na Galeria), Transmigração e a Faculdade da Ausência) de textos de maneira temática. Cada qual possui o insistente conceito que à ele se aplica na sinopse ou prefácio: Arabesco produz imagens.  A insistência do termo se dá na mesma medida em que se faz a pergunta: o que quer dizer o termo “imagem”? Talvez a mesma pergunta que poderia se aplicar a Benjamin ao mencionar o termo “imagem” a se referir a Proust. Aliás, a pertinência da pergunta é que movimenta o trabalho de Jugend de tal forma que possamos nos incomodar com a capacidade de fabricar um conceito incompreendido, ou ainda um limiar que se expande entre o pensar e o sentir de maneira indiscernível.  Ousaria dizer, portanto, que entre o pensar e o sentir de Arabesco, reside a capacidade de formar cacos de experiências que arrebatam por um conflito de abismo: olhamos para eles e eles olham para nós.  Eis a capacidade de germinação de uma gênese de um traço no deserto que se desenvolve e então retorna a um nada.

Apesar de pouquíssimas páginas, podemos afirmar sem nenhum rodeio que é uma obra de ruminação: mais do que exatamente regurgitar para outra vez deglutir, o prazer da mastigação do que nos é oferecido é que permite a notar a beleza de uma bailarina, ou o olhar sensível a realizar um paralelo com Ernst e Kandinsky, ou a demonstração de que os vincos do rosto são uma velhice sorridente.  É no mínimo louvável a expressão oceânica e demoníaca que o Leviatã da linguagem ganha em Jugend ao buscar imensão para falar das belezas pequenas e despercebidas do cotidiano de um homem de letras a fim da fuga do esquecimento, de uma nadificação. O Pequod de um Ismael a navegar pelas vielas curitibanas, pois navegar é preciso. Gosto de me lembrar de certa tarde em que me foi indicado o famoso livro Profanações de Agamben, e pude me deparar com o texto Magia e Felicidade. Nele nos é dito que antes mesmo de uma linguagem que se expresse por significados, temos uma linguagem que  se expressa por gestos, como numa constatação de um operar mágico da vida. Sendo assim, talvez nos caiba ser em relação a Arabesco como Miguilim, de Guimarães Rosa: enxergá-lo a partir de um óculos que ele nos dá, como num golpe de sorte.

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