PRIMEIRAS IMPRESSÕES | A Estrada Morta, de Fabio Alex

A Estrada Morta, de Fabio Alex, foi uma das poucas surpresas que 2017 me reservou — muito embora sua publicação tenha acontecido anos antes. Sendo o primeiro volume da trilogia As Crônicas Sobrenaturais de Sofia, a obra já demonstra um potencial incrível logo de início, sobretudo graças à evidente criatividade por trás das páginas.

O enredo gira em torno de “aberrações”: pessoas comuns, mas que por razões específicas, se diferenciam do restante dos habitantes da Vila de Padre Amaro, e, portanto, são estigmatizadas, consideradas “anormais”. Sofia (a cega), Cristina (a criança vidente), Fernando (o artista) e Fabrício (o ateu) são algumas dessas pessoas. Eles possuem personalidades distintas — e muito bem acentuadas, diga-se de passagem —, ao ponto de ser instigante imaginá-los unidos numa única trama, o que termina ocorrendo após o misterioso milagre em forma de luz testemunhado durante a festividade de Nossa Senhora Aparecida, sucedido pela onda de desaparecimento das crianças locais.

Numa primeira vista, tal enredo se apresenta consistente, preocupado em não apenas contar uma história, como também em transmiti-la “visualmente” ao leitor através de detalhes por vezes mínimos, mas caprichados. A apresentação dos personagens é outro pró a ser considerado, pois traz a noção de quem eles são, porém, deixa aquele “pano para manga” que faz o leitor ficar com a pulga atrás da orelha. E ideia de uma protagonista cega também desperta a curiosidade, afinal, trata-se de algo fora do comum, e o autor constrói de maneira convincente a condição de Sofia.

Os atrativos atuam bem, seduzindo pouco a pouco quem decidir dar chance ao livro. Talvez o único fator “negativo” — ênfase nas aspas — até então seja a estrutura linguística utilizada: de certo, haverá quem a considere pedante. Os tempos modernos ditam algo de simplicidade mais proeminente; contudo, a literatura não vive à base de nenhuma ditadura, certo? Ao contrário, a liberdade é sua principal característica. No fim, a questão acaba sendo definida por gosto mesmo. E mesmo quem desgoste, não poderá contestar a qualidade da história em si.

OBS: A capa do livro é um charme! Ela me passou uma imagem surrealista à lá Tim Burton e suas produções como Vicent (1982), mesclando o lúdico ao gótico, onde traços e cores contribuem para agravar o tom sombrio e/ou melancólico proposto. Eu, que adoro julgar livros por meio das capas — perdoe-me, Senhor — certamente iria sofrer de amor à primeira vista.

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