MATÉRIA | O indie também está na literatura

Esse pequeno termo, que já escutamos há algum tempo – especialmente na música e por conta de algumas bandas – é uma abreviação da palavra independent, que, em inglês, significa “independente”. Ela tem o uso bastante difundido nos meios culturais e remete a tudo que sai do mainstream, da arcada do grande público. Não por demérito, mas porque as grandes massas são alcançadas apenas pelas grandes empresas.

Bem, hoje em dia isso vem mudando. Cada vez mais os produtores independentes fazem uso de financiamentos coletivos ou mesmo de ferramentas gratuitas, muitas delas possibilitadas pela internet e seu alcance incalculável.

Naturalmente, o indie está também no mercado editorial brasileiro. Basta dar uma pequena olhada em grupos no Facebook, plataformas e aplicativos de publicações online para ver a quantidade de autores que anunciam seus produtos diariamente – em especial aqueles que fizeram do e-book seu meio de publicação – através de publicações em sites como a Amazon, por exemplo.

Porém, apesar da facilidade na publicação do e-book, e dessa mídia ter sido amplamente divulgada e usada, os leitores ainda preferem o bom e velho livro impresso (segundo pesquisa publicada no NY Times em setembro de 2015). E no nosso dia-a-dia, ainda vemos a presença do livro físico muito maior em relação ao livro virtual.

Embora existam autores independentes que gostem do livro virtual – como Felipe Biavo que confessa que “a transição para o livro digital demorou um pouco para mim, mas hoje só vejo vantagens, tanto como autor quanto como leitor”, boa parte deles ainda prefere ter seu livro impresso.

books-1176150_1920Em parte, isso se deve ao fascínio-quase-fetiche do cheiro, textura e conceito que o livro impresso traz. A autora Débora Mello expressa bem ao dizer que “passamos a vida toda lendo livros de ídolos e pessoas que lutaram para ter isso e, pelo menos eu, sempre anseio pelo momento em que terei em mãos uma obra escrita por mim. Acho que o momento deve encher a pessoa de orgulho”. Para além disso, o livro impresso traz uma carga maior de trabalho e cuidado, coisa que só se consegue ao se dedicar a um projeto e envolver profissionais nesse processo. Como afirma Nathalia Nobre: “acho que acaba agregando valor também, porque qualquer pessoa consegue publicar online hoje em dia. Quando se compra um e-book, não é tão perceptível em um primeiro momento o que diferencia aquele autor de qualquer outro. Tanto pode ser um livro incrível como um livro ruim (sem revisão, sem um trabalho mais profissional em cima). Acho que esse fator de risco é menor quando você vai numa livraria e pega um livro impresso, porque subentende-se que ele passou por um trabalho mais pesado”.

Autora independente, Patrícia Maiolini Quaiatti conta de sua experiência. “Já tive e-book independentemente de editora e não foi das melhores experiências para mim”. Segundo a autora, por mais que ela tivesse um público cativo na plataforma de publicação online gratuita, vender na Amazon foi difícil já que “a divulgação que eu fazia não era o suficiente para alcançar compradores. Se eu deixava de graça, milhões de pessoas baixavam, mas ninguém comprava nada”.

Já Amanda Silva toca num ponto sensível. Para ela, como autora, as duas formas – livro físico e virtual – são válidas, mas de pouco adianta fazer uma publicação oficial sem que se tenha divulgação para alcançar o público. “Você gasta em todas as publicações. Tem que valer a pena, né? Pessoas que comprem, um pequeno público que já tenha lido alguma coisa sua. Quem vai querer comprar algo do desconhecido se não tiver uma boa divulgação?”.

book-fair-678256_1920A divulgação e venda são alguns dos principais problemas para o autor independente. A autora Nathalia Medeiros coloca muito bem ao justificar sua opção de publicação em e-book: “Eu vou publicar em e-book mesmo. Se tiver um público, se eu tiver lucro, aí pensarei em publicar impresso. Acho mais prático mesmo, afinal o impresso ainda tem que ter todo o cuidado em fazer a capa, encontrar a editora, negociar com a mesma…sem ao menos eu ter garantia de um retorno rentável”. Ouvimos a mesma preocupação de Felipe. Segundo ele, “qualquer pessoa pode disponibilizar sua obra para venda sem a ansiedade e a tortura de uma espera por editoras tradicionais ou, melhor ainda, sem desembolsar milhares de reais para uma gráfica, que finge ser editora, imprimir centenas de exemplares e deixar a venda a cargo do autor”.

Essa preocupação com o gasto inicial é uma constante para todos os autores, especialmente porque não existe a garantia de que, se assumirem a impressão independente de um livro, terão o retorno desse investimento com as vendas do produto final. E essa é a principal vantagem que as grandes editoras têm sobre os autores independentes.

A Luva editora, surgida há pouco em 2016, aparece como uma dessas pequenas resistências ao domínio corporativo do mercado literário. Seu fundador, o também escritor Vitto Graziano, conversou conosco da Revista AUTORAMENTE! e nos explicou um pouco mais sobre a Luva, sobre as diferentes mídias, autores independentes e o mercado editorial.

RA: Por que quis criar uma editora?

VG: A Luva editora nasceu de um sonho. Na verdade, de uma necessidade. Como escritor, eu sempre precisei correr atrás de editoras e acabava por descobrir que os serviços ofertados na verdade eram de gráficas, né?. E o preço [era] muito acima do que uma gráfica cobrava. Eu via tanto livro no mercado que eu observava a qualidade e falava, eu faço melhor do que isso, e aí que eu decidi criar minha própria editora para lançar meus livros. Apenas isso, apenas colocar um selo no meu livro. E daí o que aconteceu? O livro ficou muito bom e outras pessoas vieram procurar. Então eu montei uma equipe e criei a Luva editora oferecendo bons preços e bons serviços.

RA: Qual é o conceito que você como escritor quis trazer para a editora?

VG: Bom, o conceito é o de parceria. Quando busquei as editoras, eu percebi que poucas delas investem realmente na carreira, sabe?  Do escritor. Você acaba tendo que correr atrás de divulgação, correr atrás de livraria, correr atrás dos próprios clientes, entendeu? Então não fica muito fácil. A Luva Editora vem com essa proposta. Por ser feita por escritores, ela busca [entender] as dificuldades por que os escritores passam e tenta trazer soluções, seja por intermédio de parcerias, seja por ela própria, entendeu?

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lançamento da antologia III

RA: Você acredita que o diferencial da Luva está nesse apoio aos escritores?

VG: Eu acredito que [é] um dos diferenciais, né? Para uma editora de pequeno porte, como a Luva, temos de explorar todo nosso potencial. Eu tenho quase certeza absoluta que é o melhor serviço prestado por nós. E com as novas propostas de parcerias que estão por vir, (que talvez sejam fechadas ainda este ano) eu acredito que a Luva editora vá bem longe, entendeu?

[Aqui ele parou no meio e começou outra resposta]

VG: Prezamos pela honestidade do trabalho. O mercado está cheio de editoras que eu chamo de “falcatrua”. Elas não trabalham com revisão, não trabalham com artistas fazendo a capa,  não trabalham com a diagramação de forma correta – erros acontecem, toda editora erra -, mas com o desemprego crescendo e as grandes editoras sendo afetadas, a gente tá percebendo uma queda considerável no serviço, né? E isso acaba refletindo no preço também, né? Muita gente acaba pagando caro por um serviço que é pouco, entendeu? É assim que tá lógica do mercado.

RA: Sobre isso, como você, agora um pequeno empresário, encara o mercado independente nacional?

VG: Como um mercado complicado. Num país como o nosso, ainda mais em crise econômica, o livro se torna algo supérfluo, embora seja um sonho – mas sonhos são adiados em função da subsistência, né? Já não há uma procura tão grande no mercado, apesar de ser uma boa procura. Muitas editoras/gráficas cobram [pelos] serviços preços muito abaixo do mercado. A gente as vezes cobra quatro vezes mais que uma gráfica, mas eu acredito que meu preço apresenta a melhor relação custo-benefício do mercado. E mesmo que a pessoa as vezes não tenha como dispor desse valor, o pagamento possa ser feito em parcelas, né? A concorrência é grande e além disso o número de editoras falcatruas acaba desvalorizando o mercado. O autor não sabe em quem confiar, não sabe se a editora X que tem um ano ou seis meses de vida oferece serviços profissionais de fato ou se é outra editora falcatrua. E por isso acabam recorrendo a nomes mais antigos que muitas vezes prestam um péssimo serviço.

RA: Parece uma visão um pouco pessimista (risos). Mas se existe essa dificuldade, tanto para o pequeno editor quanto para o autor, porque investir numa editora?

VG: Chega um momento da nossa vida que a gente tem que optar em continuar fazendo o que a gente não quer, ou investir numa coisa que a gente sempre quis fazer. E eu optei por investir. Me arrependo as vezes, sabe? (risos)  A concorrência é desleal sim e meio suja também. Mas eu acho que em qualquer segmento da vida as coisas são assim, né?  Então a gente tem que continuar lutando. […] Por que investir numa editora? É como falei no começo: apesar de ser uma necessidade, era também um sonho, e eu fico muito feliz em ver esse serviço sendo bem prestado, o autor me ligando pra agradecer, o autor mandando vídeo de agradecimento, o autor virando meu amigo…é muito importante, sabe? Eu tenho [tentado conduzir] esse negócio como uma grande família. E a Luva Editora tem se tornado exatamente isso, embora pareça clichê.

RA: O mercado independente existe, é fato. Talvez até como uma alternativa às grandes editoras, abrindo chance ao autor desconhecido. É um terreno de muito trabalho e pouco retorno financeiro, mas muitos que se envolvem com o mercado indie têm a visão semelhante a sua. Fazer algo por gosto e por princípio – nós da revista Autoramente! estamos nessa também (risos). Como você pensa que os autores e editoras independentes podem se posicionar frente a essa concorrência com os grandes nomes?

VG: Eu já não acho que exista concorrência…[quer dizer] sim, existe concorrência, em qualquer âmbito, mas quando um grande autor fala sobre um tema, na verdade ele cria uma onda. E nós, por sermos menores, podemos pegar a rebarba. Entendeu? Por exemplo, Cinquenta Tons de Cinza foi uma dessas ondas. Abriu caminho para muito romance hot aqui no Brasil de autores independentes. Quando um livro entra em voga, novos leitores são criados e a gente tem que ficar de olho para aproveitar esse mercado, sabe? É assim que eu penso. Eu só acho que [se] deve acabar [com] essa ideia – que eu já tive no passado – de que o empresário é vilão. Não, o empresário, dono da JBS, dono da Nestlé, dono da AMBEV,  esses sim podem ser vistos como vilões. Eles são homens de poder, não são nem empresários. Mas nem todo empresário é safado, nem todo empresário quer explorar o funcionário. Eu sempre tendo [a] pagar as pessoas acima da média do mercado, ou pelo menos na média do mercado. Abaixo, não.  Pô, eu sei o trabalho que é fazer um livro (…). Quem é bom no seu serviço precisa ser exaltado, deve receber bem por isso. E quando eu posso fazer isso, eu ganho o dia. Também penso que quem contrata o serviço de uma editora deve receber por esse serviço contratado.

RA: Agora falando um pouco da produção da Luva, o que a editora procura quando analisa materiais novos? Basta o autor enviar o seu material e a editora publica ou existe uma seleção?

VG: Existe uma seleção bem criteriosa. Tem sempre que dar uma observada na qualidade do texto né? Caso o enredo seja melhor do que o próprio texto – a história, a ideia né – a gente oferece o serviço de preparação textual, além da revisão. Contudo, existem alguns textos que ainda são muito verdes, não estão tão maduros, então a gente não pode dar sequência ao trabalho. A gente pede pro autor reescrever, pensar melhor naquela ideia, e depois ligar pra gente novamente. Mas a gente tem uma média de aprovação, assim, de 25% a 30% de originais que são enviados. Uma média de aprovação considerada até alta.

RA: E o que a Luva busca nesses materiais? Quais os pontos que mais levam em consideração ao analisar novas histórias?

VG: Nós nos preocupamos muito com o enredo. A gente gosta de histórias que saiam da caixinha, de preferência [que se passem] em território nacional. Porque tem uma tendência muito grande de escritores brasileiros falarem sobre lugares que não são o Brasil, mas acho que trazer a história para o Brasil, isso deveria ser encorajado. De falar sobre o Brasil para o mundo, entendeu? Essa é uma das coisas que eu mais gosto de ver quando trabalho com enredos fortes, com temas e críticas interessantes – especialmente à sociedade. E que ao mesmo tempo trabalhe com a nossa própria sociedade, nossa realidade,  com o Brasil.

                [Fim da entrevista]

Caros leitores autores e leitoras autoras, fica aqui a nossa dica! Não basta mais só escrever. Há que se inteirar da lógica do mercado, há que se fazer pesquisa de campo e entender quais profissionais melhor dialogam com a sua escrita. Vale também se apoiar nos seus colegas, compartilhar suas dificuldades com os profissionais que já passaram por dificuldades semelhantes. E apostar na comunidade de editoras independentes que consigam funcionar fora do mainstream mas que ofereçam um trabalho e suporte de qualidade sem abrir mão do profissionalismo e do carinho com as obras iniciantes. Acreditar e trabalhar duro. E ler nossa revista não faz mal também!


Matéria publicada originalmente na Revista AUTORAMENTE! nº3
acesse ao site da Luva Editora aqui.

 

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Sobre o autor

Lua Bueno Cyriaco
Administradora do Clube de Livros, Produtora e organizadora do Concurso Literário Autoramente! Ilustradora e quadrinista - Formada em Artes Visuais (FADM-UNOPAR), graduanda em letras Japonês (UFPR) Assina os cadernos e marcadores da própria marca Lunares.
Uma brasiliense no frio de Curitiba.

Lua Bueno Cyriaco

Administradora do Clube de Livros, Produtora e organizadora do Concurso Literário Autoramente! Ilustradora e quadrinista - Formada em Artes Visuais (FADM-UNOPAR), graduanda em letras Japonês (UFPR) Assina os cadernos e marcadores da própria marca Lunares. Uma brasiliense no frio de Curitiba.

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