LEITURAS XENÓLOGAS | Xenofilia abstrata ou isto não me é estranho, por Renan Porto

Neste Leituras Xenólogas, utilizando com precisão o termo Xenofilia, Renan Porto faz uma análise a partir do trabalho de Mark Fisher sobre relação entre a noção de esquisito e insólito em uma curiosa relação com o cinema e a filosofia a fim de conhecermos a alteridade do Fora. 

A expressão já implica o paradoxo de estar diante de algo estranho. A memória falha em correlacionar o que é percebido com qualquer imagem de experiências passadas. No entanto já estamos envolvidos pela presença daquela coisa. Ela nos atrai. Alguma coisa lhe falta, mas há o suficiente para causar inquietação. Não assombra tanto quanto fascina. A fascinação pelo que está além de nossos padrões de experiência e cognição é uma das primeiras características que Mark Fisher atribui ao que ele conceituou como weird no seu último livro The Weird and The Eerie, termos que traduzirei aqui como o esquisito e o insólito. Por isso a expressão xenofilia, pois estes conceitos têm a ver com uma certa inquietação desconcertante, mas interessada e curiosa, pelo que é do Fora. O Fora por sua vez não chega a ser um conceito. É justamente o que escapa ao conceito e a ontologização. Este Fora é sempre abstrato, no entanto, produz efeitos concretos. Se o Fora pudesse ser conceituado, apreendido e internalizado ao nosso sistema cognitivo, não teria este nome. Já o esquisito e o insólito são conceitos e designam experiências estéticas específicas e distintas uma da outra.

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Capa do último livro de Fisher, The Weird and the Eerie (2016)

Vamos começar pelo que Fisher chama de insólito. A tradução de eerie para insólito permite algumas brincadeiras com a palavra em português que contribuem para a compreensão do conceito. Vamos transfigurar a palavra pela sua sonoridade e brincar com seu prefixo. Assim conseguimos dizer que aquilo que é insólito é também aquilo que não é sólido, que não tem solidez, que não se deixa ajuntar, que está mais para gasoso, se espalhando por todo o ambiente sem se deixar ser apreendido nem fixado e que pode sempre se dissipar rapidamente. Ou podemos também dizer que o insólito é tão inquietante que não permite a solitude. Pois a experiência que Fisher caracteriza como insólita é sempre uma experiência em que não se tem muita certeza quanto à própria solidão. Como vagar por cidades abandonadas ou paisagens devastadas e não se sentir completamente só. Pressentir a presença de algo que está por ali, mas nunca chega e tampouco vai embora. Algo que nem chega a sussurrar e nem chega a desaparecer pois nunca esteve totalmente presente. Fisher diz que o insólito é uma falha da presença e uma falha da ausência.

Fisher também relaciona o insólito a uma estranha repetição que nos envolve e na qual ficamos emaranhados, como um hábito sem sentido, que até podemos nos esforçar para evitá-lo e de repente já fizemos. Como se toda as coisas ao nosso redor guardassem uma íntima relação mútua entre elas e funcionassem girando e empurrando umas às outras e nós mal soubéssemos que estamos acoplados nessa engrenagem e somos arrastados por ela como o personagem de Chaplin em Tempos Modernos e seus problemas de TOC.

Este tipo de problema é muito presente em todo o percurso de reflexão de Fisher e pode ser encontrado desde sua tese Flatline Constructs, em que já há uma concepção cibernética do corpo humano como um dispositivo que se acopla a vários outros objetos e ferramentas. Nesta tese, um dos filmes mais comentados por Fisher é o Videodrome, de David Cronenberg, em que o personagem principal entra numa simbiose com vários objetos técnicos, como a tela da televisão que o personagem do Professor Brian O’Blivion diz ter se tornado a nova retina do olho da mente. Poderíamos pensar também a tela do celular como uma membrana pela qual trocamos inputs e outputs com o ambiente virtual.

Em boa parte dos seus escritos, Fisher se dedicou ao problema de liberar o corpo dessas terminações nervosas que extrapolam a carne e nos ligam a uma máquina e seu ciclo de repetições. Fisher foi um estranho virologista que procurou as melhores formas de infectar e hackear o sistema orgânico que nos prende em funções específicas e repetitivas, mesmo que não tenhamos consciência disso. O conceito de insólito guarda relação com este problema porque coloca em questão o que determina as configurações dessas máquinas que nos agenciam, se há alguma intencionalidade por trás disso, o que produz uma certa realidade, mas dela se ausenta.

Mas como o conceito de insólito pensado por Fisher nos ajudaria a escapar disso? Embora esta pergunta seja voluntarista demais para quem pensa que nossa existência é governada por forças que extrapolam a capacidade de agência humana, acredito que o conceito de insólito nos dá uma pista de que as engrenagens deste sistema de organização da vida também são precárias. É possível que o conceito de insólito designe uma falha deste sistema, ou melhor, sua fragilidade encoberta.

Para construir os conceitos de esquisito e insólito, Fisher analisa um conjunto de obras literárias, musicais e cinematográficas, explorando nelas as experiências estéticas que ele caracteriza com esses conceitos. Nesse rol de obras, acrescentarei mais uma para tentar demonstrar o que indiquei no parágrafo anterior. Quero lembrar do filme The Truman Show, do diretor Peter Weir, que conta a história de Truman (Jim Carrey), um personagem que nasceu e cresceu numa cidade artificial construída num estúdio de TV e onde todos os habitantes eram atores ou atrizes. Os dias de Truman são sempre mais ou menos os mesmos com a mesma rotina. Tudo é muito seguro e alegre e a equipe de produção se esforça para Truman viver tudo aquilo sem qualquer estranhamento. Toda a trama vai sendo desestabilizada e tensionada à medida que Truman começa a desejar viajar, sair da cidade, dar movimento à sua vida. A rotina vai se tornando maçante e monótona. O que leva Truman a observar mais atentamente como as coisas funcionavam ao seu redor e perceber os ciclos de tudo aquilo. Então ele vai tensionando algumas situações e percebendo o comportamento estranho das pessoas. O que inquieta Truman é justamente uma experiência do insólito. Uma percepção de que havia algo que produzia tudo aquilo, mas que nunca se fazia presente. Truman vai percebendo que tudo era uma simulação. Mas assim que desconfia disto, ele não se revolta contra tudo de uma vez. Não, ele repete. Vive de novo a simulação. E continua a investigar onde o ciclo falha, como um círculo levemente trincado.

Acrescento ainda outro caso: na primeira temporada de Westworld, a personagem Maeve (Thandie Newton) estranha suas próprias memórias. Maeve é uma androide programada para atuar como uma prostituta no mundo artificial de Westworld. À cada repetição do ciclo de simulação em que ela está programada, algo lhe parece familiar nas situações. Em uma das narrativas programadas, Maive sempre tem que morrer para proteger um cofre que guarda algum segredo. Toda vez que ela morre, é levada para fora do estúdio para receber manutenção. Entretanto, sua memória vai conseguindo captar dados mínimos e sutis da experiência e sintetiza isso em interrogações até chegar a algum nível de consciência. Maive então começa a tentar acelerar cada ciclo, repetindo inúmeras vezes a mesma experiência traumática até que consegue despertar fora do cenário artificial quando estava na manutenção. A partir daí toda a simulação da realidade lhe é revelada. Esta inquietação que lhe leva a interrogar e tensionar sua experiência também pode ser considerada como insólita. E tal como Fisher diz, o insólito se dissipa quando são alcançadas as informações suficientes que lhe esvaziam de mistério.

Nesse processo de comentar a construção narrativa de personagens que se percebem numa realidade simulada, Fisher interroga nossa existência de tal modo que parece transformar nossa realidade num grande videogame com vários níveis em que nunca se sabe quem joga e quem é jogado. O problema da liberdade aparece não tanto como um confronto com restrições e constrangimentos externos à subjetividade, mas como problema imbricado nos próprios modos de funcionamento do corpo, na capacidade de conseguir escapar a um ciclo de repetições, hábitos e vícios que condicionam a capacidade de agir. Maive foi uma personagem que conseguiu superar isso forçando os limites da sua experiência, repetindo tantas vezes as tentativas até que pela repetição fosse produzida uma diferença.

Acredito que o conceito de insólito que Fisher nos apresenta seja capaz de nos impelir ao esforço de tentar intuir e escavar brechas, pequenas rachaduras, nos limites que constrangem nossas ações, inclusive ações coletivas. O insólito nos remete a falhas na simulação, nos leva a perceber que algo não vai bem, que algo falta no ciclo de repetições que configuram uma realidade estável. Mas é o fascínio pelo Fora que Fisher chama de esquisito que pode nos dá o impulso de rachar os círculos que nos envolvem e liberar o tempo dos seus loops, produzindo uma diferença na experiência do real. O esquisito e o insólito, antes de tudo, nos forçam a pensar, deterioram o que é de costume e arrombam as vidraças do que pode nos ser mais familiar.

O que Fisher chama de esquisito (weird) marca uma passagem em que a dimensão empírica da existência é invadida pela presença de seres ou realidades de dimensões e configurações espaço-temporais muito estranhas aos nossos padrões de existência. Algo que não somos capazes de representar. É um limiar entre dois mundos em que o nosso é invadido por entidades alienígenas. Se quero tomar isso como algo propulsor do pensamento é porque estou considerando algo que Deleuze escreveu em Diferença e Repetição. Cito aqui:

O que é primeiro no pensamento é o arrombamento, a violência, é o inimigo, e nada supõe a Filosofia; tudo parte de uma misosofia. Não contemos com o pensamento para fundar a necessidade relativa do que ele pensa; contemos, ao contrário, com a contingência de um encontro com aquilo que força a pensar, a fim de erguer e estabelecer a necessidade absoluta de um ato de pensar, de uma paixão de pensar. As condições de uma verdadeira crítica e de uma verdadeira criação são as mesmas: destruição da imagem de um pensamento que pressupõe a si próprio, gênese do ato de pensar no próprio pensamento (DELEUZE, 2009, p. 203).

O que tento responder com isso ou o que dá importância a isso é um pressuposto conjectural, uma análise do capitalismo que insiste em repetir que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Logo, se a esquisitice fisheriana escancara o limiar entre dois mundos, é como se ela nos induzisse a eliminar de vez este mundo apodrecido. A esquisitice fisheriana nos provoca a pensar outras possibilidades de fim de mundo. No entanto é na medida que se destrói que algo se renova sob as ruínas de todo o entulho que pesou sobre algo que há muito tempo queria nascer. Na morte do conceito de mundo chocam-se os ovos de infinitas possibilidades. E é claro que estou falando ainda de um plano abstrato, de um tremor que se dá sobretudo no pensamento. Não é que eu não saiba e não sinta meu corpo submetido à vida precária que o capitalismo nos impõe. Mas sim porque eu também sei e sinto que pensar é sobretudo experimentar no próprio corpo o poder de uma ideia e ser capaz de avaliar seus usos.

A conjectura que me serve de pressuposto também me diz que o capitalismo está sempre tentando ultrapassar seus limites, transformando-os em limiar; sempre anexando uma nova parte; sempre com uma relação promíscua com um Fora que lhe sirva de colônia, mesmo que este Fora seja o mais próximo possível e esteja se expandido ao redor de nossas cidades. Portanto, eis o paradoxo, não há um Fora do capitalismo. Pelo menos não há um Fora que esteja dado. Este Fora precisa ser produzido constantemente. E é a isto que Fisher nos convoca quando nos quer mostrar as coisas mais esquisitas que ele encontrou.

Numa introdução inacabada para o último livro que Fisher pensou em escrever, e que se chamaria Acid Communism, havia uma citação de Foucault resgatada pela persona xenogótica do blog Xenogoths num texto sobre o tema. E é com esta citação que eu encerro. A citação dizia que o desafio agora “não é recuperar nossa identidade perdida, livrar nossa natureza aprisionada, nossa mais profunda verdade; mas sim […] nos mover em direção a algo radicalmente Outro”.

 

Renan_portoRenan Porto é ensaísta e poeta baiano vivendo no Rio de Janeiro. Faz mestrado em filosofia do direito na UERJ. Desenvolve pesquisa interdisciplinar entre filosofia política, direito e literatura. Durante a graduação, pesquisou a relação entre poder instituinte e poder instituído a partir da relação que a personagem Dona Flor tem com as personagens Vadinho e Teodoro na obra de Jorge Amado, Dona Flor e seus Dois Maridos. No mestrado, pesquisa sobre as implicações éticas da ambiguidade da escrita de Guimarães Rosa para o pensamento sobre a experiência da justiça. Publicou poemas nas revistas Escamandro, R. Nott Magazine, Babel e Libertinagem. Seu livro de estreia será publicado ainda em 2018 pela editora Urutau, com o título O Cólera A Febre. Renan possui um blog pessoal https://babilepton.wordpress.com do qual esse texto foi extraído.

“O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001”

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