LEITURAS XENÓLOGAS | Porrada planejada, por William Teca

Texto de William Teca, publicado no blog Sinistros Insones.

B bouguereau bacantes
Juventude de Baco – Pintura de 1884, de William-Adolphe Bouguereau (1825–1905).

Piruetas de linguagem nunca foram Literatura

Embora, ainda haja muita gente que acredite nisso. Tudo bem, esse é um mal que assola mais a poesia do que a prosa, mas vez por outra, ainda aparece algum desavisado praticante de trocadilhos que pensa que os trocadilhos são uma prova inequívoca de inteligência e, ainda pior: de boa Literatura.

No fim das contas, a boa Literatura é feita de boas histórias – claro, se der pra conjugar as duas coisas, de maneira complementar, será a fina flor, caso contrário, é melhor desistir de ser o James Joyce ou o Guimarães Rosa.

Uma boa história é quase a garantia de um bom leitor, levando em conta, evidentemente, diferentes e discrepantes níveis de leitura. Admitamos, para horror dos acadêmicos mais ferrenhos, que um leitor médio está sorrindo e andando para citações e referenciais de erudição – isso soa sempre e mais como um pedantismo bobo, uma má influência de leituras juvenis de T. S. Eliot.

Outra coisa que enche muito o saco do leitor médio é o papo furado da introspecção (por alguma obscura razão o fluxo de consciência virou sinônimo de boa prosa, quando na maioria das vezes não passa de salsichas, mata a fome, mas não sustenta). Nesse aspecto, temos uma legião de péssimos leitores de Sartre que não entenderam o básico do básico de O Ser e o nada.

Existência é vida e ponto, taí o engajamento.

E é nesse samba lelê que a Literatura deixa de ser aquilo que é, e passa a ser outra coisa. Principalmente porque Literatura é vida.

Mas, isso não quer dizer sair por aí escrevendo a seu bel prazer o que acontece na sua vida, tem gente que faz muito bem isso, como o Henry Miller (ou as partes que prestam do Kerouac), mas, a vala do lugar comum é que está destinada à grande maioria.

Seja sua vida ou não interessante, as pessoas basicamente tem os mesmos problemas e frustrações, então, ficar chorando as pitangas será só mais um lugar comum embaixo do sol.

O espanto surge quando a Literatura é capaz de alçar o lugar comum à condição de arte, daí, como dizia o Heráclito: “O cão ladra ao que desconhece”.

Muita gente já retratou a vida e sua falta de sentido magistralmente: Virgínia Woolf, Graciliano Ramos, Bernardo Soares, só pra citar alguns. Mas, à maioria de nós mortais, só resta tentar ser interessante no boteco mesmo.

Ou num Blog…

Um sábado como outro qualquer, em que a coisa que mais quero é ficar em casa – trabalhar durante a semana inteira me deixa profundamente cansado e deprimido e, a menos que: seja muito legal, seja de graça e eu tenha carona (de ida e volta,) é inútil me convidar para ir seja lá aonde for.

Mas, eis que a patroa precisava ir buscar um livro na Livraria Cultura, e diante da perspectiva de conseguir encontrar uma edição baratinha de Tristram Shandy, de Laurence Sterne (que ao lado de Heike Monogatari é a coisa que mais quero ler), resolvi fazer o sacrifício.

Tomamos então o ônibus e partimos rumo ao Shopping.

Depois de vagar subindo e descendo por escadas rolantes como dois caipiras, enfim encontramos a livraria.

No passado, a Livraria Cultura me impressionava mais, mesmo não encontrando o que eu queria, acabava achando alguma coisa interessante com um preço bom – agora, nem os preços me parecem bons, e nunca vi uma livraria com um setor de Filosofia tão ruim (até as Livrarias Curitiba [pra quem não conhece, sugiro procurar no Google, eu até queria colocar uns quadradinhos bonitinhos com as informações, para você – raro e caro leitor, passar o cursor em cima e ler, mas, como meu plano no WordPress é básico, não tenho o Plugin pra fazer, então, paciência], em que os livros parecem ser escolhidos por alguém que provavelmente entende de mercado, mas não sabe porra nenhuma de livros, possui uma seção de Filosofia em que, volta e meia, é possível encontrar alguma coisa que preste, embora não dê pra depender dos funcionários, cuja prerrogativa para o emprego deve ser também não entender porra nenhuma de livros).

De qualquer maneira, enquanto a patroa foi resolver seu problema, fiquei passeando entre as prateleiras e folheando aqui e ali à procura de algo que tivesse um bom custo-benefício (evidentemente, nem sinal de Laurence Sterne e sequer sombra do Heike Monogatari, mas os hits da subliteratura traduzida para promover filmes e seriados estavam por todos os lados).

Eu e a patroa até falamos com um gentilíssimo atendente, aliás competentíssimo que vasculhou as entranhas de um computador, mas as coisas que eu queria eram só por encomenda, daí é mais fácil eu pedir pela Internet (ou esperar uma alma piedosa me dar de presente).

Coisa curiosa na Livraria Cultura é que o povo, apesar de jovem e descolado, é bem culto pra idade (lembro de um português que trabalhava lá e me conseguiu umas edições quentíssimas do Ruy Belo [quadradinho bonitinho com informações sobre Ruy Belo], ficamos um tempão falando de poesia portuguesa – num tempo em que meu orientador ainda não havia me fodido, e eu queria muito terminar o doutorado, mas essa é uma outra história), não tenho nada contra a juventude, mas faço minhas as palavras de Bernard Shaw [quadradinho bonitinho com as informações sobre Bernard Shaw]: “A juventude é uma coisa maravilhosa, pena que foi dada aos jovens”. Enfim, o guri foi ótimo e fez o que pode.

Pra não sair de mãos abanando, acabamos pegando uma edição fofinha do Murakami, contendo Ouça a canção do vento e Pinball, 1973, num mesmo volume. Nisso, o guri deslancha a falar de Literatura, Murakami e de um autor que eu desconhecia (ah, a impetuosidade da juventude!), um tal de John Williams (eu conheço um John Williams, mas pra mim ele era só o autor da trilha de Star Wars).

Olhei bem pro guri e fiquei sopesando a credibilidade intelectual dele, curiosamente, ele era esculpido e encarnado (tá eu sei: “esculpido em carrara”, mas isto aqui é estilo, meu chapa) um grande amigo meu, Filippo Mandarino (que odeia o Murakami e julga o Foster Wallace um gênio. [ps: se estiver lendo isto, cadê a porra do meu prefácio, piá?]), então, por um viés um tanto quanto abstruso, resolvi dar uma chance ao rapaz, acabamos comprando o livro (sei que o uso do majestático não é aconselhável, estilisticamente, mas casamento é foda, talvez seja daí que vem a expressão: “O lar de um homem é seu castelo”). Pagamos e fomos embora, pra bater um dogão na barraquinha perto de casa, já que comer em shopping custa os olhos da cara.

Chegando em casa, já deixei o Murakami engatilhado para ler durante as três horas diárias que passo dentro dos ônibus, indo e voltando do trabalho, e encostei o livro do John Williams ao lado de incontáveis leituras futuras.

Obviamente, devorei o Murakami em poucos dias, sou um entusiasta e dia desses vou falar a respeito dele, só não o farei, agora, porque o Filippo Mandarino não iria gostar. Na dúvida se deveria ou não carregar o tijolão que é a biografia do Goethe escrita pelo Rüdiger Safranski [quadradinho bonitinho com as informações sobre Rüdiger Safranski], acabei por apanhar o livrinho do John Williams. Aí, minha vida começou a mudar.

Stoner

The Thinker: Retrato de Louis N. Kenton (1900) por Thomas Eakins

John Williams nasceu em 29 de agosto de 1922 (bateu as botas em 4 de março de 1994), em Clarksville, Texas. Serviu a força aérea norte americana de 1942 até 1945. Publicou sua primeira novela Nothing but the night, em 1948; um livro de poemas The Broken landscape, em 1949 e mais uma porção de coisas, ao longo da vida de professor universitário. Mas, o que eu tinha em minhas mãos era Stoner, publicado em 1965. E, aqui, chegamos ao ponto.

A história é quase um bildungsroman, quase, porque dado o estilo do autor, resvalamos mais para uma novela picaresca, aliás o personagem que dá nome ao livro: William(!) Stoner, poderia ter saído de Pirandello [quadradinho bonitinho com as informações sobre Pirandello] ou Grimmelshausen [quadradinho bonitinho com as informações sobre Grimmelshausen], a criação do topos irônico obedece a um rigor tão rigoroso e suficiente que faria Bakhtin acender um cigarro no outro – tamanho o espanto que teria, seja pela potência dialógica das alegorias, seja pela metalinguagem inerente à proposta e a execução da obra.

O autor faz uso da mais óbvia e ululante estrutura romanesca, a história possui (pasmem!) começo, meio e fim, porém, com a curiosa informação, logo de saída, que iremos ler a respeito de um William Stoner que está morto (sim, aquilo mesmo que o imortal Machadão, gênio da raça, fez em Memórias póstumas de Brás Cubas – e que o povo de Letras adora falar a respeito, tanto quanto se Bentinho tomou ou não o chifre de Capitu).

Conhecemos William(!) trabalhando numa pequena fazenda em Bonnesville, um fim de mundo situado a quarenta milhas de Columbia, o lar da Universidade. Desde criança, William(!) só conhece plantações e vacas, e se dedica a ajudar os pais de sol a sol, nas atividades típicas que o lugar exige: tirar leite, alimentar os animais e lavrar a terra.
O mundo girava na sua mesma milonga, quando um belo dia: lupus in fabula!

But one evening in late spring, after the two men had spent a full day hoeing corn, his father spoke to him in the kitchen, after the supper dishes had been cleared away.
‘Count agent come by last week.’
William looked up from the red-and-white-checked oilcloth spread smoothly over the round kitchen table. He did not speak.
‘Says they have new school at the University in Columbia. They call it College of Agriculture. Says he thinks you ought to go. It takes four years.’

Então, no outono, parte nosso herói rumo a Columbia e se torna um calouro na Faculdade de Agricultura. Para quem nunca havia estado e nem conhecera nenhum outro lugar, além das redondezas do cu do Juda onde morava, o estranhamento seria até de se prever. Ainda que, hospedado na casa de um primo de sua mãe, as atividades laborais de William(!) ainda permanecessem as mesmas, pois ele precisava ainda pagar pela casa e pela comida. Pouco a pouco, contudo, vai se produzindo uma transição.

William(!) encarou os estudos estoicamente, assim como encarava o trabalho na fazenda, e assim como encarava o trabalho com o primo de sua mãe, e como qualquer pessoa educada para encarar o lado prático da vida, fazia o que tinha que fazer. Como diz o bom e velho jargão: “trabalho é trabalho”, aliás, esse traço do personagem é muito bem apontado por John McGhern na introdução ao livro:

Stoner is also a novel about work, the hard unyielding work of the farms; the work of living within a destructive and bringing up a daughter with patient mutability in a poisoned household; the work of teaching literature to mostly unresponsive students.

Porém, embora William(!) encare com naturalidade seus afazeres, como era de se esperar, sua têmpera estava mais afiada para a positividade, portanto, ao se deparar com situações que exigiam dele abstração e, num sentido muito específico: imaginação, a porca torcia o rabo. Veremos isso, basicamente, em dois momentos, um deles, a marcante corte que ele fará a sua futura esposa Edith, e outra, a mais importante, ao se deparar com Archer Sloane.

Embora tivesse pouca ou nenhuma dificuldade com as disciplinas das Ciências – no caso dele, aquelas vinculadas ao estudo do solo e afins, quando se deparou com a disciplina de Literatura Inglesa (que ele era obrigado a fazer), Wiliam(!) ficou mais perdido do que cego em tiroteio:

He found that he could not handle the survey as he did his others courses. Though he remembered the authors and their works and their dates and their influences, he nearly failed his first examination; and he did little better on his second. He read and reread his literature assignments so frequently that his work in other courses began to suffer; and still the words he read were words on pages, and he could not see the use of what he did.

Turning point

E foi numa aula de Literatura, ministrada pelo já citado professor Archer Sloane, que William(!) teve colocada em evidência, principalmente para si mesmo, a consciência de si, de um jeito que nunca tinha sido capaz de perceber antes.

Aqui, nos deparamos com um dos grandes papéis que a Literatura e a Arte, de uma maneira geral, tende a desempenhar e que faz toda a diferença. Não se trata da Arteinstrumentalizada como mecanismo pedagógico edificador moral como queria Platão em sua paideia, nem da polidez de Hume que nos dará o primeiro vislumbre da Estéticacomo crítica de gosto que une o útil ao agradável, trata-se da Arte como revelação, aquele sentido de mimese como psicagogia, a dança das bacantes, aquele fulcro essencial que une e instaura a arte indissociável de sua originária matriz sagrada, que exige uma concepção de verdade distante daquilo que a tradição convencionou chamar de imitatio por conveniência da adequatio.

Arte de verdade, e por conseguinte, a Literatura de verdade, é epifânica, não no sentido de uma alienação de si como escapismo da existência, mas justamente o contrário, é o confronto violento e inescapável de estar diante de si mesmo e não ter para onde fugir, quando a única saída é a guerra, a pólemos que estraçalha a peras e reconstituiu aquilo que é do jeito que é, sem tergiversações ao som do espocar do champanhe. A embriaguês, no seu sentido nietzscheano, nas palavras de Heidegger:

A embriaguez é um sentimento, e é um sentimento tanto mais autêntico quanto mais essencialmente domina a unidade do ser-afinado que se corporifica. De alguém que se acha completamente bêbado, a única coisa que podemos dizer é: ele “tem” algo como uma embriaguez; mas ele não “está” embriagado. A embriaguez não é, aqui, o estado no qual ele está junto a si mesmo para além de si. Ao contrário, o que chamamos, nesse caso, de embriaguez não passa do que se designa com a expressão vulgar um mero “estar mamado”, algo que justamente rouba toda e qualquer possibilidade do estado de embriaguez.

E é justamente o que acontece com Stoner (haverá um trocadilho aqui?), e podemos perceber isso no momento exato em que acontece, quando Archer Sloane recita o soneto 73 de Shakespeare, nesse momento ele: … came conscious of himself in a way that he had not done before.

Tristan, Iseult the fair, walked before him; Paolo and Francesca whirled in the glowing dark; Helen and bright Paris, their faces bitter with consequence, rose from the gloom. And he was with them in a way that he could never be with his fellows who went from class to class, who found a local habitation in a large university in Columbia, Missouri, and who unheeding in a midwestern air.

Qualquer um que tenha uma relação estreita com a Literatura, seja ela acadêmica ou não, possivelmente já teve essa sensação de intimidade, de pertencer a um clube privado (isso é muito bem descrito numa passagem de A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera e em inúmeros poemas de Bukowski), em suma, de se sentir especial de um jeito único. Mas, aqui, a coisa vai um pouco além disso, podemos perceber como o autor consegue demonstrar de uma maneira literária a literariedade da Literatura (que me perdoem os adictos de Terry Eagleton), produzindo um duplo impacto no leitor que ressoa ao longo de história do personagem e da história pessoal de quem lê, é a afinação seguida da ressonância que irá produzir o efeito da fruição (grundstimmung), uma permanência diversa do imediatismo do prazer corriqueiro do artifício, porque rompe e modifica num processo constante de entropia e recriação que dissolve e agrega, pulsando e expandindo a existência.

Como não poderia deixar de ser, a consciência de si dói, principalmente pela percepção da solidão inerente a todos nós, nas palavras de John Williams: He had no friends, and for the first time in his life he became aware of loneliness.

Mas, infelizmente, a carreira acadêmica escolhida por Stoner não se limita a ficar lendo e pensando na vida. E quem já passou pela área das Letras, sabe muito bem do que estou falando. Embora, trabalhar com Literatura possa parecer um embuste, isso se deve apenas ao fato de que na sua grande maioria, quem trabalha com Literatura é realmente um farsante. Contudo, a noção disso já é um grande passo na direção certa, o reconhecimento das próprias limitações e de que o domínio de qualquer tipo de conhecimento é só o domínio parcial de uma coisa que é muito maior do que uma vida apenas possa dar conta.

John Williams descreve isso de maneira muito clara, num bate papo entre Stoner e dois de seus colegas (o cenário poderia ser qualquer boteco frequentado por alunos da área de humanas), um deles, Gordon Finch – que se tornará o típico universitário de carreira; e David Masters, uma figura que qualquer aluno de Letras que se preze vai conhecer um espécime, se não o for ele próprio seu protagonista (cada um tem o Jorge que merece).

David Masters é um cético, sua suposta genialidade se confunde com seu pedantismo, a tal ponto que não dá pra saber onde começa uma coisa e onde termina a outra. Ao longo da história ele será sempre lembrado (ele acaba se alistando e é morto na Primeira Grande Guerra), e suas palavras ecoarão na cabeça de Stoner quase como um código de ética.

But you’re bright enough – and just enough – to realize what would happen to you in the world. You’re cut out for failure, and you know it. Though you1re capable of being a son-of-a-bitch, you1re not quite ruthless enough to be a consistently. Though you’re not precisely the most man I’ve ever known, neither are you heroically dishonest. On the one hand, you’re can’t work hard as the world would want you to. On the other hand, you’re not quite so lazy that you can impress upon the world a sense of importance. And you’re not lucky – not really. No aura rises from you, and you wear a puzzled expression. In the world you would always be on the fringe of success, and you would be destroyed by your failure.

Neste momento, cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, e a história não marcará, quem sabe? Nem um, nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

É mais ou menos por aí que seguirá a vida de William(!) Stoner. Após as disputas juvenis a que é exposto por se recusar a seguir os outros e se alistar na Guerra, ele consegue um posto de professor assistente, enquanto prepara seu doutorado, sua tese: The Influence of the Classical Tradition upon the Medieval Lyric (num futuro ele publicará a tese, mas, apesar de estarmos longe de nosso contexto, ela vai ficar naquela estante empoeirada sem ser lida {como a minha dissertação de mestrado e a de tantos outros que fica criando fungos e aglomerando poeira nos porões da Reitoria}).

É bem por essas época que William(!) tem sua segunda epifania, ao comparecer a uma festa, a convite de seu amigo David Masters, que acabara de voltar condecorado da Guerra e assumiu um cargo na Universidade. Cumpre saber se, antes de seu turning point, William(!) teria o mesmo fascínio e capacidade de reconhecer coisas em Edith que nem ela mesma parecia perceber. Mas, como todo amante da Literatura, William(!) tende a ver a vida em cores fortes e um tanto quanto dramaticamente.

For several moments he did not move from the doorway; he heard the girl’s soft, thin voice rise above the murmur of the assembled guests she served. She raised her head, and suddenly he met her eyes; they were pale and large and seemed to shine with a light within themselves. In some confusion he backed from the doorway and turned into the sitting room; he found an empty chair in a space by the wall, and she sat there looking at the carpet beneath his feet. He did not look in the direction of the dining room, but every now and then he thought he felt the gaze of the young woman brush warmly across his face.

Edith era uma fina flor, mas faltou habilidade ao nosso herói para perceber que se tratava de uma flor artificialmente produzida para ser recatada e do lar. Vinda de uma família que poderíamos chamar de burguesa, Edith fora talhada para ser aquele meio termo morno lampedusiano que cultivava um tipo de cultura somente na medida em que ela não fosse nociva, aquele comedimento típico cheio de sofisticação, porém sem nenhum requinte. Numa alegoria um tanto ousada, eu diria que dá pra resumi-la àquele tipo de pessoa que compra coletâneas de música erudita, ou é fã do André Rieu e, enfim, que tem uma mentalidade bem ao gosto kitsch da República de Weimar, mais ou menos o que digo aqui.

Mas, pensando um pouco mais menos literariamente, a culpa não era dela, a família a reprimiu ao ponto da histeria (entendida aqui como Freud entendia o termo) o que, aliado ao perfil de Stoner, faria ser apenas uma questão de tempo até se tornar uma bomba relógio do fracasso e explodir.

Os sinais vão aparecendo ao longo do tempo, desde que eles se conhecem até o casamento, em alguns momento dá uma certa raiva, ainda mais pra mim que tenho uma incrível suspensão de descrença (sou o leitor ideal do Umberto Eco), e dá pra ter esperança de que tudo é fruto da juventude e ingenuidade de ambos, mas infelizmente, não é assim.

Mesmo após o nascimento da filha Grace (a mudança de Edith quando resolve ficar grávida merecia um estudo psicanalítico e mais parece o relato de algum caso de Freud), o estranhamento de Edith em relação ao mundo e a si mesma é cada vez mais crescente. Num certo sentido, ela compartilha uma característica muito forte de William(!), um tipo de estoicismo que beira a pusilanimidade. Não obstante isso, a complexidade da personagem alça-a à categoria dos grandes personagens femininos e lembra muito à Charlote, de Lolita, de Nabokov (aliás, John Williams lembra muito Nabokov, em questão de estilo).

O casamento de ambos culmina no clássico “viver juntos” em que cada um cuida do próprio nariz, com um pequeno diferencial, o estoicismo de William(!) faz com que ele sempre evite o conflito, como tudo na sua vida, ele fica à mercê do destino no que diz respeito às coisas práticas (ponto chave de seu turning point), é somente quando seu mundo literário é ameaçado que ele toma atitudes, quando mais tarde, com o surgimento de seu grande antagonista: Hollis Lomax e seu pupilo Charles Walker (que curiosamente é coxo, assim como seu tutor), irá mostrar uma faceta até então desconhecida de nós e quem sabe até no narrador onisciente.

Por conta dessa realidade irreal, ou seja, a literatura vivida na vida literária, William(!) só encontrará sua tampa de panela na maturidade:

In his forty-third year William Stoner learned what others, much younger, had learned before him: that the person one loves at first is not the person one loves at last, and that love is not an end but a process through which one person attempts to know another.

Como era de se esperar, Katherine Driscoll, é o extremo oposto de Edith, e a cara metade de William(!), sobretudo e, talvez, justamente porque ambos são cúmplices literários e vivem literariamente. O fato de compartilhar não apenas os escrúpulos (uma ética que é comum a ambos, axiologicamente constituída e que perfaz suas ações – na verdade as ações de ambos – ela é capaz de produzir a tensão que é fundamental em qualquer relacionamento, mas num campo de luta em que há igualdade de condições; muito diferente de Edith, que produz os conflitos – a guerra, nas palavras do narrador, que tomará forma, principalmente, na segunda parte da novela, em um terreno de disputa em que William(!) não tem a mínima chance, seja por seu estoicismo ou por mera indiferença, embora, não seja cabível restringir o amor a apenas um aspecto e, por conta disso, como percebemos em várias passagens, o tipo de amor entre William(!) e Edith é um tipo de amor de mula (se a alegoria me é novamente permitida).

O que aproximará William(!) e Katherine é uma disputa literária em que ele, na mais picaresca roupagem de capa e espada, sai em defesa da donzela contra as injúrias de um vilão, no caso: Charles Walker.

Considerando que Walker é pupilo de Lomax, dá-se então o estopim para o início do fim da trama, em que um alquebrado William(!) procura preservar o seu amor e levá-lo além do romanesco que no entanto é vital para a sobrevivência da relação de ambos.

Mais uma vez, William(!) é incapaz de se realizar na imediatidade corriqueira dos fatos cotidianos, e ainda menos Katherine o é, e diante da pressão e das consequências que podem advir dessa atitude, ambos decidem se separar e preservar o que viveram como mais um grande livro que se observa na estante, mas que a lida cotidiana não permitirá jamais reler. Ela parte (mais tarde dedicará sua obra a ele) e ele se adequa a sua vida ou o que lhe resta dela. Mas, a partir daqui já percebemos seu declínio, principalmente pela temeridade com que passa a agir diante de todas as adversidades que o cercam, desde as dificuldades impostas por Lomax, até a gravidez e alcoolismo da filha Grace, uma espécie de sobrevida que acompanha as pessoas condenadas, mas cuja alma faz ainda um último esforço para deixar uma memória clara.

nec plus ultra

Embora seu declínio físico seja evidente, intelectualmente William(!) se torna cada vez mais lúcido, num terceiro momento epifânico:

Beneath the numbness, the indifference, the removal, it was there, intense and steady; it had always been there. In his youth he had given it freely, without thought; he had given it to the knowledge that had been revealed to him — how many years ago? — by Archer Sloane; he had given to Edith, in those first blind foolish days of this courtship and marriage; and had given it to Katherine, as if it had never been given before. He had, in odd ways, given it to every moment of his life, and had perhaps given it most fully when he was unaware of his giving. It was a passion neither of the mind not of the flesh; rather, it was a force that comprehended them both, as if they were but the matter of love, its specific substance. To a woman or to a poem, it said simply: Look! I am alive.

E assim, ao fim e ao cabo Stoner fecha seu arco, volta à terra de onde veio (comido pelo câncer e chapado de morfina), mas sua alma é integrada à amplitude do sonho que é do que se faz a Literatura.

Como todos nós que partilhamos o universo literário à margem e distância da realidade comum dos fãs de Game of Thrones, o ideal seria virar livro, virar história, ter pra sempre a beleza e o cheiro dos livros novos, mas com o conteúdo de um clássico. E definitivamente, Stoner é um clássico.

E segue o baile.

Facebook Comments

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: