LEITURAS XENÓLOGAS | O vacilante gênero da/do personagem, por Davi Miranda

O que pode um olhar? Como se debruçam o sentir ante as coisas quando nos deparamos com ela? Nietzsche dizia que quando um olhamos por um abismo, o abismo nos devolve o olhar: o abismo olha para nós.  Tateamos os abismos, os entornamos em redemoinhos dentro de nós, numa mistura indecifrável entre o que olhamos e o que nos olha. O verdadeiro prazer surge em nos confundir com aquilo que experimentamos.

Hoje introduzimos a coluna Leituras Xenólogas. O que isto significa? O que esperar desse nome alienígena? A rigor, temos de esperar o estranho, o propriamente estrangeiro: um pensamento advindo do não-eu, do que não nos pertence. Esperamos pelos outros numa perspectiva do que nos é diferente, que nos produz variedade. O Eu é um outro. Neste espaço pretendemos ampliar as discussões sobre artes e o ato de pensar por outros olhares, os olhares das gentes outras e estranhas, xenomorfas. Esperamos que possamos provar a possibilidade de sermos, todos os dias, outros. Boa leitura!

Fica o convite a ler um pouco do que nosso colega das letras tem a dizer no texto:

O Vacilante gênero da/do personagem

texto de Davi Miranda, publicado no blog Discórdia Gramatical.

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Ilustração para “Um escândalo na Boêmia” (1891),
de Conan Doyle: Sherlock Holmes, disfarçado,
diante da porta de sua casa, ouve o cumprimento
de boa-noite de alguém que acredita ser um
personagem que, na verdade, era uma personagem.

Há quem ache que “personagem” seja um substantivo exclusivamente feminino. Outros têm total convicção sobre o gênero unicamente masculino da palavra. Sim, estamos diante de mais uma discórdia gramatical. Analisemos a biografia da palavra em nossa língua para entender o que levou a existir, até hoje, divergência sobre o seu gênero entre os usuários do português.

Foi do francês e do provençal que herdamos inúmeros substantivos terminados em –agem (oriundo do latim –aticu), todos originalmente masculinos, mas que se tornaram femininos posteriormente1, por influência do modelo de outro sufixo –agem2, este de ascendência diretamente latina (-ago, –aginis), com as noções de ‘estado, situação’, ‘ação’, ou ‘resultado da ação’: imagemvoragem etc.).

Assim, em várias épocas a partir do século XIV, o francês (-age) e o provençal (-atge, -aitge) emprestaram diversas palavras para o português com este sufixo: bagagecharriagecouragelenguatjemessage /messatgeomenatgeospedajepaysagepassagesabotagesalvatge, avantageviatge etc; paralelamente, outras se formaram com o outro sufixo homônimo, mas derivadas de verbos e substantivos já existentes no próprio português: capotagemcarceragem, friagem, garimpagem, estiagem etc. 3

Na língua em que se originou (séc. XIII), a palavra “personagem” é masculina (le personnage), assim como as demais compostas com o sufixo –age. Mas tal herança de gênero não resultou na fixação de uma forma igualmente masculina para essas palavras em nossa língua. Primeiramente, devemos atentar que, durante a era do português arcaico (1214–1536), os chamados substantivos de gênero único oscilavam entre o masculino e o feminino. A linguista Rosa Virgínia Mattos e Silva observa que “há nomes que eram masculinos: o linguagemo linhagem; mas já na versão galego-portuguesa do Foro Real de Afonso X, fins do século XIII ou começos do XIV, a par de o linhagem ocorre a carceragem” (2006, p. 103). Mais adiante, a autora explica o motivo:

Essa variação de gênero, em nomes de gênero único, no período arcaico e na diacronia, isto é, confrontando o português arcaico com o moderno, está documentada, em geral, em nomes que eram ou neutros no latim, ou em nomes abstratos ou em nomes de origem grega terminados em –a. Relembre-se que tanto no latim como no português o gênero não é motivado externamente; apenas em um subgrupo do léxico está relacionado ao sexo dos entes que nomeia. Sendo assim, e a isso acrescido o fato de os neutros do latim terem se distribuído pelo masculino e feminino, é compreensível a oscilação entre os nomes de gênero único em um momento em que ainda não se tinham iniciado as tentativas de normativizar a língua, o que só começará na quarta década do século XVI (2006, p. 103, grifo nosso).

Assim, em meio ao caótico processo de normalização gramatical, na ocasião em que ingressou na língua portuguesa (séc. XVI), a palavra já apresentava, desde então, gênero vacilante, sendo usada ora no masculino, ora no feminino.

Personagem1581
Comedia Ulysippo, de Jorge Ferreira de Vasconcelos (1560):
o primeiro registro conhecido da palavra “personagem”

Tal condição se manteve por séculos. O Diccionario da Lingua Portugueza (1789), de Antônio Moraes Silva, registrava o duplo gênero no verbete da palavra, além de abonar o uso masculino com um exemplo literário e atestar o caráter mais usual deste gênero:

PERSONAGEM, s. m. e f. pessoa de consideração, nobre, autorizada por seu grande officio, ou qualidade. Vieira, e Lobo, “visitou da parte de hum personagem”Os exemplos do género masculino sáo mais ordinários(SILVA, 1789, p. 193, grifo nosso).

Quase um século depois é que começa a ser identificada uma tentativa de correção linguística. O Diccionario contemporaneo da lingua portugueza (1881), de Caldas Aulete, que também registrou esse substantivo com os dois gêneros, fazia o seguinte alerta no verbete da palavra: “no masculino, é termo condenado pelos puristas como galicismo”.

Apesar de certos autores da normalização gramatical terem, a princípio, decidido a favor do gênero feminino, durante o século XX, pelo menos por estas bandas, a preferência pelo masculino tornou a prevalecer: “No Brasil, tem predominado porventura o masculino, mesmo tratando-se de mulher” (JUCÁ FILHO, 1953, p. 30). Celso Luft chegou a observar que o uso exclusivo do gênero masculino  “conta com a maioria do uso no ensaísmo e na crítica literária” (2010, p. 346).

Mas a tradição sempre falou mais alto no coração dos mais conservadores. Não é de se estranhar, portanto, que eles só admitam o gênero feminino para a palavra:

Constitui francesismo o emprego de personagem com gênero masculino. Acaso, referindo-se a Pedro, pode o leitor dizer “esse pessoa”? Se Pedro é “uma pessoa”, ele também é “uma personagem”. Personagem não é comum de dois; tem gênero fixo, feminino: essa personagemuma personagemas personagens (ALMEIDA, 1981, p. 232).

Não desmereço de todo as razões que Napoleão usa para justificar seu critério de correção; como veremos adiante, Celso Luft — em geral menos conservador do que Napoleão — sugere que,  no sentido de pessoa, de personalidade, é “preferível” o gênero feminino (embora não condene o uso do masculino nos demais casos). Mas o problema do Napoleão muitos de nós já sabemos: falta de tolerância, de transigência e de compreensão com os usos que, de uma forma ou de outra, já se consolidaram e se legitimaram na escrita culta do português independentemente do crivo da tradição ou do prévio abono das chamadas “autoridades linguísticas” (filólogos, cânones, escritores clássicos).

Sacconi diagnostica o mesmo “mal” perseguido por Napoleão (galicismo), só que viaja ainda mais na maion… quer dizer, na analogia:

É nome sobrecomum e sempre feminino (a personagemuma personagem): Lima Duarte fez uma personagem engraçada naquela telenovela. Muitos, no entanto, uso “o” personagem, “um” personagem”, copiando o gênero da língua francesa, de onde vem a palavra (personage). Em português, todavia, toda palavra terminada em –gem é feminina, com exceção de selvagem, que é substantivo comum de dois […]. Àqueles que usam “o personagem” convém perguntar por que também não usam “o vernissagem” que é também palavra francesa. Ou “o garagem”, que também é palavra francesa (2005, p. 289).

Aqui, notamos como o ideal de homogeneização e a busca pela rigorosa fixação em detrimento de um uso legitimado na língua escrita não permitem que o gramático admita a mínima possibilidade de outra(s) exceção(ões) consagradas, embora reconheça a condição de comum de dois gêneros para “selvagem”. Já a piadinha sem graça feita ao final da citação carece de fundamento, pois ninguém escreveria/falaria desta ou daquela forma (“o garagem”, “o vernissagem”) a seu bel-prazer ou necessariamente em razão de alguma lógica rígida, de alguma analogia, mas sim em razão de algum uso que se consagrasse socialmente e, depois, talvez até dentro da própria linguagem padrão: ora, se uma variante como “o garagem” se firmasse na língua, isso ocorreria sem qualquer conflito com as formas análogas empregadas exclusivamente com gênero feminino! Décadas antes de Sacconi, o filólogo Sousa e Silva já respondia a gramáticos com essa atitude: “a condenação do masculino é mero arbítrio, não se apóia nos fatos de linguagem” (1958, p. 210).

A turma de gramáticos com posição mais moderada em relação à questão é — graças a Deus — bem maior. Em um subitem de sua gramática intitulado “Gêneros que podem oferecer dúvida”, Evanildo Bechara diz que “são femininos: […] os nomes terminados em –gem (exceção de personagem, que pode ser masculino ou feminino)”. Mais adiante, reafirma: “São indiferentemente masculinos ou femininos: […] personagemsentinelasoprano […]”4 . Celso Cunha (2001, p. 196) sentencia: “Diz-se, indiferentemente, o personagem ou a personagem com referência ao protagonista homem ou mulher”. Rocha Lima (2007, p. 75) também trata o vocábulo como “substantivo de duplo gênero ou de gênero vacilante”.

Domingos Paschoal Cegalla admite que, apesar de quase todas as palavras terminadas em –agemserem do gênero feminino, “personagem constitui uma exceção, pois a palavra é hoje usada tanto no feminino como no masculino”; entretanto,  adverte que “com referência a mulheres deve-se usar o feminino” (2009, p. 307).

Entre os gramáticos, é Celso Luft quem realmente disseca a questão e observa mais cautelosamente cada um de seus desdobramentos:

Atualmente existem três possibilidades para personagem, levando em conta o gênero gramatical e o gênero biológico (sexo):

1ª) só masculino (“gramatical”): os personagens (homens e mulheres) de Machado, o personagem Bentinho, o personagem Capitu;

2ª) só feminino (“gramatical”): as personagens de Machado, a personagem Capitu;

3ª) masculino/feminino — a) masculino para ambos os sexos, abrangentemente (= sem acepção de sexo), e para ‘homem’: os personagens de Machado(Bentinho e Capitu), o personagem Bentinho; b) feminino (gênero-sexo, gênero “biológico”: silepse de gênero) para mulher, personagem mulher: a personagem Capitu.

Esta 3ª solução tem o antecedente de selvagem, também do francês antigo (os selvagens de Alencaro selvagem (‘índio’) Peri/a selvagem (‘índia’) Iracema), por isso tem a minha preferência.

A 2ª solução tem o antecedente de todos os demais –agem. A 1ª solução, essa só tem antecedente alienígena: o francês — mas conta com a maioria do uso no ensaísmo e na crítica literária, segundo me parece. Na acepção ‘pessoa, personalidade’, o gênero desta palavra (feminino) sugere-se como o preferível para personagem (LUFT, 2010, p. 345-346).

Aqui, percebemos uma distinção e um cuidado não observados nas prescrições dos demais gramáticos mais moderados (com exceção de Cegalla): embora usemos “o personagem John Watson”, não nos parece adequado dizer igualmente “o personagem Irene Adler”, mas sim  dar a César o que é de César e dizer “a personagem Irene Adler”. A inadequação, portanto, consistiria apenas em usar o gênero masculino diante de nome de mulher.

Saindo da gramaticografia para a lexicografia: os principais e mais conhecidos dicionários da língua portuguesa (Houaiss, Aurélio, Aulete etc.) descrevem “personagem” como palavra que pode ser usada tanto no gênero masculino quanto no feminino. E, para encerrar de vez a questão, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa registra “personagem” como substantivo de dois gêneros. Napoleão e Sacconi, you lost.


Referências5

ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Dicionário de Questões Vernáculas. São Paulo: Caminho Suave, 1981.

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2009.

CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2009.

CUNHA, Antonio Geraldo. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Lexikon, 2010.

JUCÁ FILHO, Cândido. Curso de Português: 2º ano colegial. São Paulo: Companhia Editora, 1954.

LUFT, Celso. ABC da Língua Culta. Rio de Janeiro: Globo, 2010.

SACCONI, Luiz Antonio. Dicionário de Dúvidas, Dificuldades e Curiosidades da Língua Portuguesa. São Paulo: Harbra, 2005.

SILVA, A. M. de Sousa e. Dificuldades Sintáticas e Flexionais. São Paulo: Organizações Simões, 1958.

SILVA, Antônio de Moraes. Diccionario da Lingua Portugueza. Lisboa: Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1789.

SILVA, Rosa Virgínia Mattos e. O Português Arcaico: Fonologia, Morfologia e Sintaxe. São Paulo: Contexto, 2006.

VASCONCELOS, Jorge Ferreira. Comedia Ulysippo. Lisboa: officina de Pedro Craesbeeck, 1618.

____________________________________________

1 “Apesar do castelhano e do francês terem preferido o masculino” (JUCÁ FILHO, 1954, p. 30).
2 Curiosamente, embora de origens distintas, estes dois sufixos nominais homônimos apresentam funções idênticas ou muito semelhantes (CUNHA, 2010, p. 18).

3 Posteriormente, tal afixo tornou-se muito produtivo inclusive na linguagem coloquial e popular (molecagemmalandragemsacanagemfuleiragem).

4 Em textos deste gramático, nota-se sua preferência pelo gênero masculino (o personagem).
5 Neste post, optei por publicar as referências em vez de indicar cada obra por meio de links (o que, desta vez, me pareceu um pouco cansativo).
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Um comentário em “LEITURAS XENÓLOGAS | O vacilante gênero da/do personagem, por Davi Miranda

  • 26 de abril de 2018 em 14:35
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    Parece que o desconforto inicial foi usar personagem no feminino para designar o sexo biológico masculino. Depois, quando adaptaram a palavra para o masculino para não causar incômodo nos conservadores, alguns saíram em defesa do gênero masculino, outros do feminino e outros ainda do duplo. Sou do time da personagem. Se quando faço parte de um grupo, mesmo sendo mulher, sou um membro, porque o Bentinho não pode ser a personagem?
    Excelente texto, ótima pesquisa, adorei.

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