LEITURAS XENÓLOGAS | (em) Alto e bom som, por Davi Miranda

texto de Davi Miranda, publicado no blog Discórdia Gramatical.

Nunca imaginei que alguém encrencasse com a locução adverbial “em alto e bom som” nem jamais encontrei um autor que a condenasse. Daí meu espanto ao ver uma dessas páginas no Facebook sobre “dicas de português” informando:

A expressão “alto e bom som” deve ser usada sem a preposição “em” por mais estranho que pareça. Exemplos: “Falei alto e bom som”; “Ele disse alto e bom som que a idolatrava”.

Como volta e meia essas páginas dizem absurdos, inventando regras e enxergando erros onde eles não existem, e por me causar estranhamento (como a própria página virtual admite) a expressão sem preposição, meu primeiro impulso foi achar que aquilo não tinha fundamento nenhum. Eis que me surpreendo (de novo!) com o parecer de dois gramáticos:

A expressão original e correta é alto e bom som, e não em alto e bom som. A deturpação se deve, provavelmente, à influência de em tal voz (CEGALLA, 2008, p. 32).

É esta a expressão perfeita, ou seja, sem a anteposição da preposição em: dizer alto e bom som, ou seja, dizer abertamente, em voz alta e clara, sem receio de ser ouvido (SACCONI, 2005, p. 31).

Ué… Se, como diz Cegalla, a expressão “original” não tinha preposição, então a alegada “deturpação” começou faz muuuuuito tempo, pelo menos desde o século XIX. Nesse dicionário lusitano de 1842, temos:
Dicionário de Antônio Maria do Couto (1842).
Em sua tradução de A formosa lusitânia (1877), o escritor português Camilo Castelo Branco grafou:
A formosa lusitânia (1877), tradução de Camilo Castelo Branco.
Os exemplos encontrados em textos literários e oficiais de tempos antigos, tanto lusitanos quanto brasileiros, não são poucos, comprovando que essa forma já era bem usual sabe lá Deus desde quando… O fato é que a forma sem preposição — se veio mesmo antes — vem perdendo cada vez mais espaço para a locução com em. De acordo com a linguista Moura Neves,

por causa do significado da expressão, em geral se entende que ela deve ser iniciada por preposição (em alto e bom som): essa expressão com preposição é mais usual (64%) que a expressão sem preposição. ♦ Penso em tantas vozes bradando em alto e bom som contra “imoralidade” dos costumes (Otaviano Pereira) (NEVES, 2010, p. 60).

Fundamentando a citação acima, temos o registro de vários dicionários, que apresentam o uso facultativo, com e sem a preposição:
(em) alto e bom som: abertamente, sem dissimulação ou subterfúgio (HOUAISS, 2009).
em alto e bom som. Ver alto e bom som: “Todos o conheciam, todos o repetiam em alto e bom som para que ele o não ignorasse, mas ela amava-o” (Maria Amália Vaz de Carvalho, Contos e Fantasias, p. 25) (FERREIRA, 2009).
(em) alto em bom som: em voz alta e sem receio das consequências; altivamente: O jornal proclama em alto e bom som não ter o rabo preso com ninguém (BORBA, 2005).
Em outros dicionários, é possível encontrar apenas a forma sem preposição. Já o dicionário da Academia Brasileira de Letras registra apenas a forma mais usual, com preposição:
em alto e bom som: com clareza: Ele disse em alto e bom som que pediria demissão do cargo (ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, 2008, p. 1195).
Corroborando todo esse uso, temos o parecer do gramático Celso Luft, para quem a locução com em sofreu variação, apresentando variante sem preposição:
alto e bom som – Declarar (fazer, dizer, proclamar etc.) alto e bom som que… Expressão adverbial onde houve a supressão da preposição emem alto e (em) bom som (LUFT, 2010, p. 43).
Concordando com Luft, em outra obra de referência, no Dicionário de erros correntes da língua portuguesa, temos:

Alto e bom som. Expressão indicativa de clareza, “com todas as letras”: Fulano falou emalto e bom som (MEDEIROS; GOBBES, 1999, p. 16).

Assim sendo, apesar da resistente tradição gramatical que infelizmente ainda obsedia alguns autores, não vejo motivo que nos impeça de dizer na língua culta, em alto e bom som, a locução com preposição. Todavia, o uso é facultativo e fica a gosto do freguês.

 


Referências

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Dicionário escolar da Língua Portuguesa. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008.

BORBA, Francisco da Silva (Org.). Dicionário Unesp do português contemporâneo. São Paulo: Unesp, 2004.

CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de dificuldades da língua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2009.

COUTO, Antonio Maria do. Diccionário da maior parte dos termos homónymos, e equívocos da lingua portugueza. Lisboa: Typografia de Antonio Joze da Rocha, 1842.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa.  5. ed. Curitiba: Positivo, 2009.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles; FRANCO, Francisco Manoel de Mello. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 1 CD-ROM.

JACKSON, Lady Catharine Hannah Charlotte Elliott. A formosa lusitânia. Tradução, prefácio e anotações de Camillo Castello Branco. Porto: Livraria Portuense, 1877.

LUFT, Celso Pedro. ABC da língua culta. São Paulo: Globo, 2010.

MEDEIROS, João Bosco; GOBBES, Adilson. Dicionário de erros correntes da língua portuguesa. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1999.

NEVES, Maria Helena de Moura. Guia de uso do português.  2. ed. São Paulo: Unesp, 2010.

SACCONI, Luiz Antonio. Dicionário de Dúvidas, dificuldades e curiosidades da Língua Portuguesa. São Paulo: Harbra, 2005.


Conheça a coluna Leituras Xenólogas.
Facebook Comments

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: