INUTIFILIA | A narrativa em 50mm: Ozu e o cinema da singeleza

Desde garoto gosto de assistir filmes. Lembro que, nos meus tempos dourados da meninice, toda a minha família se reunia em frente àquela televisão Sharp 21” que nós tínhamos e botávamos para funcionar o nosso estimado VHS Goldstar (que frequentemente dava problema e tinha que ir para a assistência pelo excesso de Mulan que eu assistia). Nos encontros noturnos, especialmente, era que eu podia ver os filmes mais diferentes, como O Incrível Exército de Brancaleone (1966), Lawrence das Arábias (1962) ou O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), as vezes Monty Python. De toda forma, o cinema me parecia eminentemente um áudiovisual de diversão: eu podia perfeitamente assistir um filme, como jogar X-Men no meu Super Nintendo ou ler Conan, o Bárbaro, para mim daria tudo na mesma. Não tardou muito, principalmente na adolescência, com a companhia da ira e dos hormônios, me dar o prazer de anotar nos cantos das folhas algo que eu gostava de rabiscar sobre os sentimentos ou as ideias que tinha ao longo da aula. Era realmente divertido.

Foi de muito cedo que me subiu aos ímpetos uma vontade assustadora de criar: nem que fosse a maquete mais legal da escola. Talvez, comigo, não tenha sido tão diferente assim nesse sentido, até porque eu adorava bolar um script de apresentação na escola, com cartolinas e toda a pompa performática. Tanto foi assim que eu quis ser cineasta por toda a minha honrada oitava série (neste tempo ainda não era o ensino de nove anos), o que meu pai dissuadiu em questão de uns 20 minutos explicando custeios de roteiros e produção. De toda forma, o desejo incontrolável de querer formular, elaborar, fabular qualquer pedacinho de algo belo e ao mesmo tempo digno de reconhecimento me percorriam de uma maneira até incansável. Dali foram tentativas de todas as formas: desenho, pintura, música, escrita. Mas, tinha eu sempre a impressão de que algo estava realmente faltando: entre os três primeiros, faltava realmente talento (rs), na escrita, me parecia outra questão.

Decidia volta e meia revisitar os livros que tinha nas prateleiras, minhas histórias em quadrinhos que consumia avidamente de joelhos no chão e os textos no colchão. E diante da enorme quantidade de horas que eu repassava estes trabalhos, a constatação assustadora sempre me assolava: eu não tenho nada de emocionante pra contar. Aliás, quase tomei como verdade a questão de que a maioria das pessoas não tinham livros ou histórias, porque suas vidas eram absolutamente desprovidas de qualquer evento interessante. Isso me aborreceu.

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“A vida não é decepcionante?”, “Sim, ela é” – Trecho de Era uma vez em Tóquio (1953)

Foi tardiamente, na universidade, assistindo a comunicação de um futuro amigo meu que, como mágica, deu a oportunidade de rever esta perspectiva. Era uma comunicação a respeito de filosofia e cinema, sobre o cineasta Yasujiro Ozu. Nunca tinha ouvido falar sobre ele, desde então, no auge dos meus 17 anos. Voltei para casa estonteado com a complexidade da fala do rapaz que eu me perguntava seriamente como um filme podia guardar em si tanta profundidade intelectual. Decidi procurar o filme e assisti.  Tive o privilégio de entrar em contato com a obra de Ozu a partir do Era uma vez em Tóquio (1953). Pouco acostumado a filmes em preto e branco ainda, apesar de já haver assistido a clássicos como Casablanca (1942) na época. No princípio, a atuação dos personagens soou até um tanto…monótona. Em algo muito próximo de duas horas de filme, se conta a história de um casal de idosos que pretendem passar uma temporada de férias em Tóquio revesando entre a casa dos filhos. No meio do caminho, a mãe deles adoece e acaba por falecer, resultando na solidão do pai e o desinteresse dos filhos em acolher o pai. Era realmente só isso.  Não sabia se ficava extasiado com a leveza e complexidade dos personagens, ou se simplesmente ficava abismado em como havia passado duas horas na frente da tela do meu computador assistindo a um drama familiar japonês tradicional.

Aquilo verdadeiramente me espantou. Não muito tempo depois, entrei em contato com a obra de Proust e isso se intensificou por outros caminhos, o que não é exatamente o foco desse texto. Mas, houve com aquele filme o entendimento de um detalhe curioso a respeito da vida: a paciência e a lentidão de todas as coisas. O mais impressionante, e o que talvez tenha ainda me estarrecido além de tudo: não havia nada de grandioso, soberbo, com o grande clímax naquela narrativa. Era só um casal de idosos que queria passar férias com os filhos, e os filhos fugindo do fardo de darem conta dos pais. Genial. Foi um filme de impacto tal que, durante anos, buscava revisitá-lo para me lembrar da monotonia das tomadas, que a câmera nunca ou quase nunca se movimenta de lugar. Talvez, um dos motivos de eu ser extremamente apaixonado por Her (2013), seja justamente essa fotografia sonolenta e tranquila, o que é papo pra outra vez também .

Ora, essa sonolência, que aliás, eu apreciava tanto com meu amigo quando jogávamos Silent Hill (1999) e suas continuações, caminhando pela cidade antes das criaturas aparecerem, soando um sintoma de um tédio total em vez de uma cidade fantasma, formavam uma qualidade artística invejável. Despertava interesse profundo! Ozu me despertava este sentimento com uma linguagem lacônica, de pouco enfoque em produzir inflamados discursos poéticos sobre a realidade ou sobre o Tempo, tema recorrente em suas obras. A Rotina tem seu Encanto (1963), agora em 2018, talvez há uns 15 dias atrás que eu o assisti, me recobrou o estranho sentimento que Ozu me proporcionou quando eu tinha 17 anos.  A história de Hirayama, um empresário, que se vê defrontado com a visita de um amigo que lhe propõe um possível casamento para sua filha, Michiko, de 24 anos. Hirayama, viúvo, vivia com seus dois filhos mais novos, mas sobretudo sob a dependência de Michiko para tratar da sua vida doméstica.

Apesar da aparente monotonia que o caso desperta, há alguns detalhes que chamam a atenção ao observador: é muito comum neste filme que todas as cenas sejam gravadas numa câmera fixa, e buscando um panorama de um corredor: corredores de vielas, de cômodos, de interiores domésticos, etc. A calmaria dos personagens também parece dar uma impressão de nenhum grande evento senão a preocupação de Ozu em registrar brevemente os costumes de um Japão em mudança, cada vez mais próximo do capitalismo.  Entretanto, num interessante artigo feito por  Tatiana Monassa chamado O Gosto da Cerveja, ela apresenta a seguinte explicação da falsa monotonia de Ozu:

Nestas planícies, as pessoas são as responsáveis por uma ligeira circulação, mas, no entanto, de tão ligadas ao mundo material à sua volta, movem-se muito sutilmente, mais lentamente que o tempo e, freqüentemente, só percebem as determinações deste em descompasso com ele. Mas mesmo assim lhe são simpáticos. Contemplam a velhice com algum pesar e um sorriso. Aguardam a solidão inevitável com bastante receio e a voz mansa. Tentam cumprir ou escapar de suas obrigações com uma gentil resignação, refletida no tom monocórdio das falas (algo bressoniano) e na repetição inócua de palavras e interjeições. 

A leveza de Ozu apresenta as atitudes das personagens ante aos conflitos da vida moderna: a filha que ainda não casou, a impossibilidade de se comprar um taco de golfe porque a esposa não permitiu, o medo da solidão. A vida ordinária aparece em Ozu com modos e maneiras muito evidentes, que qualquer um de nós poderia supor que ele está contando a história que aconteceu outro dia na sua família, ou que você viu do outro lado da rua com os seus vizinhos e deu para acompanhar de portão na ida e na volta do trabalho/escola.

Entretanto, não se engane: não é como se de repente toda essa conversa e todos esses filmes de Ozu não tivessem nenhuma intenção por trás. Mas, mais parecia que Ozu e seus filmes estavam mais preocupados em solucionar problemas da ordem do tempo: o tempo por nós atravessa e com ele somos diretamente afetados. Tatiana Monassa nos diz que “Ozu busca o tempo fugidio que marca os acontecimentos de um mundo de compasso cotidiano. Para ele, o tempo de um quadro vazio é o tempo do ar que circula, ou dos objetos que envelhecem um pouco mais. É a duração de algo que se dá nos personagens e que não podemos ver (porque nem eles mesmos podem ver).” Não se trata de um registro sobre uma vida, uma obra que não tivesse nenhum intuito, mas sim se trata de compreender a vida cotidiana, ordinária, o dia-a-dia de um empresário japonês que se vê em trama com o tempo, tempo este que é a sua própria existência e daqueles que estão ao seu redor. A paciência, a lentidão, a monotonia, em nenhum momento dentro do cinema de Ozu, podem ser vistos como ausentes de movimentação, de revolta, de atuação dentro do parâmetro da mundaneidade: buscar o pão e o leite na padaria envolve o acontecer do café da tarde que no fim tanto se espera.

Hirayama, afinal, consegue casar Michiko. Não exatamente com quem ela gostaria, mas ela casa. Abdica da dependência de sua filha para conceber que, dali em diante, estaria só em casa, cada vez mais solitário, pois os caminhos da vida se estendem para direções diversas.  A solidão de Hirayama é o gosto de uma felicidade melancólica: a permissão do tempo que o movimente e o arraste para uma nova condição e ao mesmo tempo estar satisfeito com as mudanças que esta atuação do tempo na vida podem acarretar.  No documentário de Wim Wenders, Tokyo-Ga (1985), Wenders vai ao Japão, 20 anos após a morte de Ozu (1963), a saber, 1983, para procurar encontrar os elementos constitutivos da obra de Ozu tal como ele a registrou. Curiosamente, diante das filmagens de uma Tóquio completamente capitalizada e agitada, como as grandes metrópoles do ocidente, Wenders nota em um particular elemento o uso da contemplação como algo notório: o Pachinko.  Pachinko nada mais é do que uma máquina, similar a um pinball e um caça-níqueis  em alguns aspectos ao mesmo tempo, em que bolinhas correm por entre os pregos do interior das máquinas e estas bolinas precisam acertar, no mero acaso, os buracos certos selecionados pela máquina para se ganhar algumas bonificações.  São milhares e milhares de bolinhas que percorrem as máquinas, ora acertando, ora escapando para outras entradas. Passam-se horas e horas de indivíduos jogando ostensivamente o pachinko, a olhar  de forma hipnotizante o brinquedo a soltar bolinhas e ricochetear entre os pregos para atingir a entrada correta. Entre o aborrecedor e o contemplativo, ficam lá, homens e mulheres dispostos frente a máquina, a observar as pequenas bolinhas cromadas que ricocheteiam pelo pachinko.

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Fila de pachinkos em funcionamento – Imagem extraída de Tokyo-Ga (1985)

Em Ozu há algo de um pachinko: um certo prazer em observar a contemplação da vida no seu desdobrar monótono, mas ao mesmo tempo decidido a intervir, jogar, apreciar o instante, mesmo que este possa custar uma solidão, a perda das fichas ou ainda o tédio absoluto. Hoje, talvez mais resoluto do que quando garoto sobre como a vida pode ser simplesmente infrutífera para contar histórias, me pergunto até que ponto a história de um indivíduo não pode estar repleta de detalhes mágicos que nada mais são do que desdobramentos do tempo que expressam alguma coisa sobre nós mesmos.  Vejo sempre nas narrativas que emergem dos novos escritores uma preocupação quase que ofegante de histórias repletas de eventos e grandes acontecimentos: talvez ante o guichê do atendimento bancário exista qualquer maravilha sobre a vida que nos passa despercebidos (apesar de eu não ser grande fã da burocracia).

A vida é desmedidamente simples, pois “O gosto de viver cada momento supera então a percepção talvez melancólica do todo de uma vida. Ficamos com o gosto do instante”. Quem sabe, as grandes histórias não possam se esconder nos mistérios da cozinha da sua casa, ou ainda nas gavetas dos tempos de escola?  Desde essa constatação, a escrita, ou ainda a produção de qualquer trabalho para mim, deixou de se preocupar em elaboração das aventuras mais incríveis e surpreendentes para assumir um caráter verdadeiramente simplório. Foi o aprendizado que tirei de Ozu.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E SUGESTÕES:

ALMEIDA, P. R., O Anticinema de Yasujiro Ozu, de Kiju Yoshida. Contracampo: revista de cinema. Disponível em < http://www.contracampo.com.br/58/ozuanticinema.htm > último acesso em 20/02/2018

MONASSA, T.,  O Gosto da Cerveja. Contracampo: revista de cinema.  Disponível em < http://www.contracampo.com.br/71/rotinatemseuencanto.htm > último acesso em 20/02/2018.

http://www.imdb.com/title/tt0046438/

http://www.imdb.com/title/tt0056444/

http://www.imdb.com/title/tt0090182/

 

 

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