INUTIFILIA | Noites Saturninas: Bottled, Último Programa do Mundo e os mistérios de uma escrivaninha

Ao longo dos anos, fui me tornando gradativamente uma pessoa notívaga.  Penso que, em grande parte, essa mudança se deu porque gosto muito de certo silêncio barulhento que a noite proporciona. Desde que vivo pela noite, noto nas esquinas as luzes dos postes acesas, as casas quietas, janelas amarelas, feito olhos abertos. É como se pudéssemos reviver a vida vampiresca de Amantes Eternos (2014), dirigindo um carro por uma cidade fantasma confabulando mistérios da escuridão. Especialmente nos bairros residenciais e periferias, todas as construções ficam, com a ausência do sol, restituídas de um conforto tranquilo e fantasmagórico: notamos os ruídos dos talheres e os flashes das televisões oscilando quadros de chroma keys. Somos tomados por uma tranquilidade de algo que se encerra e recolhe a fim de que possamos notar, por toda a madrugada, que estamos efetivamente sozinhos.

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Trecho do filme Amantes Eternos (2014)

Durante a noite, diante da escrivaninha a que me sento para escrever, sinto-me como que ilhado. Uma ilha de luz que emana do abajur, um rastro singelo do poste em frente ao meu portão ou o tracejado dos refletores no asfalto. Enche-se em nós um vazio dos quais os ecos dos motoqueiros a atravessar as ruas calham como um reverberar de pensamentos inquietos. Confabulamos quantos mais aguardam no sofá um milagre que surja da escuridão e nos acalente com um sono rejuvenescedor e sem hora para acordar. Aguardamos despertar como por debaixo de uma árvore em redenção com as angústias do coração: eis que escrevo. Desenho pelas palavras façanhas estelares, dessas dos cromos fosforescentes dos quartos de criança.  Dispõem-se no papel uma estrela cadente que vaga a esmo na imensidão, carregando uma mensagem sem destinatário sobre as melancolias de uma madrugada irrequieta. Há de se querer preservar os grandes sentimentos como numa constelação. Preservar seria como reservá-lo dentro de alguma garrafa ou vaso, de modo que pudéssemos sempre sentir de novo, num infinito inesgotável: aprisionar num ritual as grandes experiências.

Numa dessas noites, descobri por uma amiga um aplicativo chamado Bottled. Assim como eu, o personagem do aplicativo fica preso em uma ilha deserta para que possa escrever mensagens à pessoas desconhecidas: elas vagam pela imensidão da internet até a mão de alguém que se disponha a desconsiderar seu péssimo inglês e seja condescendente dos fuxicos que nos pertencem. Decidi por toda aquela noite caminhar ao redor de minha casa sentimental e enfiar as melhores estrelas cadentes por dentro da garrafa para enviar.  Lançá-las a um horizonte sem chance de resposta, a um qualquer lugar que signifique a rejeição, ou até a garrafa afundar no meio do caminho. Bottled consegue trazer a nós a ânsia esquisita de querermos ser lidos por alguém totalmente desconhecido que recebe nossa garrafa lá fora. A partir dessa garrafa, se cria uma relação entre dois desconhecidos, pois caso quem receba a mensagem goste dela, é possível que remetente e destinatário possam conversar. Usando o aplicativo, lembrei do meu compromisso com minha escrivaninha durante a noite, pois toda vez que nos damos a escrever um texto, é como se estivéssemos nesta noturna ilha deserta que nos faz jogá-lo ao mar para ser apreciado ou afundado diante de um infinito de pessoas. A garrafa ganha um valor inestimável, como se fosse um relicário, que guarda dentro de si um significado imensurável sobre uma história ou um estado de coisas digno de ser revisitado.

Parece muitas vezes que na noite conseguimos dar foco melhor aos detalhes das coisas. Frente a luz do abajur, notamos com mais atenção como as coisas são, de modo que a luz ruim nos faz dar mais atenção para aquilo que a luz do dia nos cega e nos desvia. Talvez por isso James Joyce dedique a Dedalus em Ulysses a miopia e a visão distorcida do mundo que o rodeia. O precioso das coisas, durante a noite, surge numa brecha, um rasgo entre o vão das escadas (como o Aleph de Jorge Luis Borges), para olharmos a imensidão de um sentimento que está contido dentro delas, como um código desconhecido que atravessa o tempo se repetindo até que seja interceptado por um ouvido mais atento.

Foi dessa forma, até bastante randômica do que o usual, que assisti o Último Programa do Mundo (2013). Trata-se, em linhas gerais, do último programa  produzido pela antiga MTV Brasil/Tv Quase, em que os artistas Daniel Furlan e Juliano Enrico encarnam a apresentação de um programa que não possui pauta definida. Os quadros não possuem direção, pois o roteiro busca demonstrar a decadência da emissora (e, por sua vez, da estrutura dos talkshows), de forma que sempre está

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Trecho do Último Programa do Mundo. Melhor não compreender o que houve aqui rs.

acontecendo, de fato, a exibição de um último programa do mundo já que não há verba suficiente para um próximo. A crise é sempre de tal ordem que culminam em entrevistas do staff da MTV, pessoas aleatórias na rua e momentos de surrealismo como o Vice-Cônsul de Honduras, que sequer sabe a língua nativa (muito menos português), e auxilia na manutenção do programa e dos entrevistados para que haja o surgimento de um programa. Ora, poderíamos muito bem tomar o Último Programa do Mundo como apenas uma elucubração anti-televisiva que destrói o paradigma da coerência e  denuncia a banalidade do talkshow brasileiro. Mas, é insuficiente. O último programa é sempre aquele que tenta preservar um instante antes de seu fim: a felicidade como o delírio de executar um programa  fadado a acabar. Preserva-se a destruição de um programa (inclusive do estúdio) através da gravação que reproduz, perpetuamente, um último programa que se destrói. Assim como uma garrafa lançada ao mar, se projeta a uma eterna repetição um programa que pretende, em si mesmo, se destruir e se perpetuar a quem acessá-lo. O precioso reside em apresentar a desconstrução gradativa da estrutura harmonizante da televisão a um âmbito caótico que abandona  uma identidade para assumir inúmeras perfomances paródicas sobre si mesmo, a saber, incapacidade de possuir um rosto definido.

Junto do papel, buscamos transmitir uma última estrela cadente. Ela, durante a noite, cintila brevemente aos olhos do leitor. Porém, compreende-se o brilho somente durante a escuridão, de modo fugaz.  Proust se dizia adepto de uma crença céltica que julgava que a alma das pessoas que faleciam podiam estar resguardadas nos objetos que pertenciam ao falecido: os anéis, uma fotografia, as roupas, etc. De tal forma era crente nessa concepção, que era grande adorador de fotografias e possuía a coleção das fotos de todos os seus grandes amigos. Talvez resida em tudo que nos é próprio algo tão fecundo que possamos demonstrar sentimentos que crepitam ao contato com o observador se esvanecem, distantes. Sendo, portanto, a história dos objetos a história dos afetos que circulam pelo mundo, a arte busca o registro dos afetos do mundo.

Cabe  a pergunta: quando escreve, o que se pretende preservar? Em A Invenção de Morel, de Bioy Casares, o romance pressupõe uma máquina que reproduz em imagens vivências numa ilha deserta. Assim, o texto pode ser o instrumento que preserva as experiências dos afetos numa imagem, numa superfície que reproduz ad infinitum as grandes vivências da vida. Fica-nos a missão de depositá-lo em garrafas e lançar a qualquer lugar: nosso último afeto do mundo.  Dar eles como uma lâmpada: a capacidade de serem invocados, serem levados pelo olhar que paira no mundo, à espreita. Então, ao abrir a garrafa, inundarmos com a magia que dela exala, num perfume da noite.

 

PS: Caso você nunca tenha visto O Último Programa do Mundo, você pode acessar todos os episódios “acá”: https://www.youtube.com/user/tvquase

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