ENTREVISTA + SORTEIO | Teresa Helsen, autora de Scrupulo: dois pesos, duas medidas

Grande fã de quadrinhos, animações, filmes e livros, sejam essas produções ocidentais ou orientais. Existe um gosto especial por tudo que remeta ao pulp. Dessa forma, suas ideias sempre tem um pezinho no thriller, pop e um humor sarcástico.

Teresa Helsen, na adolescência morou em alguns lugares diferentes e fez boas amizades que lhe permitiram o contato com RPG, quadrinhos e animes. Sempre teve boa relação com livros, mas não imaginava que as histórias que criava um dia pediriam para serem escritas. Sendo assim, está passando de roteiros destinados a quadrinhos e games para a narrativa em prosa, que ela considera um grande desafio e acredita que ainda precisa aprender muito.

CL – Muito bem, Teresa, eu preciso começar perguntando: como se deu o surgimento do universo de Scrupulo e suas estrelas Cazarotto e Cunnings?

TERESA – ó, essa é uma pergunta interessante. Há muito tempo eu e uma amiga de adolescência, Amelia Pessoa, usávamos o RPG como oficina de testes de nossas criações, fossem elas roteiros de quadrinho, jogo ou histórias ainda sem mídias definidas. O importante era trocar ideias e colocar situações e personagens à prova. Esses laboratórios geravam, além de maior conhecimento e desdobramento sobre os personagens e histórias, integração de ideias. Às vezes uma tinha um personagem que acabava incorporado à história da outra e vice versa. Isso servia para concepções de mundos e situações. E foi assim com Kings Club (história que Amelia desenvolve) e Scrupulo. Esse universo existe então, desde 2009, aproximadamente. Personagens de Kings Club aparecem em Scrupulo e vice-versa (sim, Cláudia vai aparecer no jogo, embora não seja personagem selecionável rsrs). Caso tenham interesse eu recomendo uma conferida no quadrinho Kings Club Volume 1 (link).

CL – Em Dois Pesos, Duas Medidas, nota-se uma imersão muito mais profunda na personalidade de Claudia. Isso se daria por autora e personagem possuírem alguma afinidade maior e, portanto, ser menos “difícil” — e quem sabe mais prazeroso — de trabalhar seu desenvolvimento quanto pessoa?

TERESA – eu tenho muitos pensamentos em comum com a Cláudia, mas de uma forma geral, somos bastante diferentes! A imersão vem da intenção de mostrar as perspectivas da personagem. Mesmo trazendo o texto em terceira pessoa, a história gira em torno de quem é Cláudia e como ela vai ter que lidar com o que se apresenta. De certa forma, fazer mais próximo, para que o leitor filtre melhor seu jeito de encarar a vida, sem necessariamente ter sua visão influenciada pelas palavras da personagem somente. Queria mostrar a visão feminina, talvez por eu ser mulher e compartilhar algumas experiências e pensamentos (que boa parte das mulheres compartilha), dê esse tom de proximidade entre criadora e criatura rsrs

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Claudia Cazarotto. Ilustração: Lua Bueno Cyríaco (capa do livro Scrupulo – vale quanto pesa)

CL – Ainda mirando nossa querida Cazarotto, apesar da postura de “mulher de ferro”, ela possui um lado bem mais descontraído, apelidado gentilmente de Claudinha da construção civil. E elas discutem bastante, hein! São momentos que rendem várias risadas. Esse toque de humor “nasceu” junto com a personagem ou foi algo pensado posteriormente para fazer contraste/suavizar a postura de Cazarotto?

TERESA – Sim, discutem bastante! Ela foi criada assim mesmo. Parte porque a personagem é assim e outra por meu próprio jeito de encarar o que faço; precisa ter algum humor. Além disso, no caso da personagem, ela é uma pessoa que precisa demonstrar certos aspectos por conta de seu meio social e de trabalho, então ela precisa tomar certos cuidados. E há algo que precisamos lembrar que creio ser importante: ela não está em casa. Em um lugar estranho, com pessoas e culturas diferentes, dificilmente você vai achar alguém realmente amigo com quem possa se abrir e pedir conselhos. Então, ela sempre está avaliando a si mesma em vários assuntos e situações. Assim, essa também foi uma forma de fazer com que o leitor entenda o que vai no intimo da personagem, pois sem o dialogo interno, dificilmente algumas dessas atitudes/pensamentos seriam percebidas, já que não haveria muitas trocas com outros personagens (brasileiros, ou com proximidade de pensamento com ela).

CL – Nosso outro protagonista, Seth Cunnings, foge do padrão de executivo garanhão frívolo. Ele até possui o costumeiro apelo sedutor, mas demonstra uma sensibilidade acentuada. Ao meu ver, isso mostra que você busca valorizar a humanidade dos personagens. Eu estou certo?

TERESA – Eu busco isso sempre, com certeza! Não sei se o personagem é uma demonstração desse intuito, mas se você diz que assim percebeu, então eu concordo! Rsrs No caso de Seth, a criação mais “italiana” o deu alguns traços familiares para nossa latinidade, unidos a personalidade particular dele o fazem sem duvida uma pessoa de grande empatia e sensibilidade, coisa que, sendo ele quem é (e trabalhando com o que trabalha) precisa sempre esconder na previsível imagem de executivo sedutor e supérfluo.

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ilustração: Lua Bueno Cyríaco

CL – Algo que considerei sensacional é que você, Teresa, constrói com muita calma o relacionamento entre Cazarotto e Cunnings, respeitando a própria natureza deles. Por que houve tamanha cautela?

TERESA – Os dois são pessoas com pensamentos e personalidades muito próximas, mas com alguma diferença no jeito de agir. E ainda há o meio. Eu não posso ignorar que um estrangeiro (no caso aqui, Cláudia) é tratado de forma diferente, e ele vai reagir a isso, tentando se “mesclar/adaptar” da melhor forma possível. Então, a situação dela em especial, pedirá cautela. Assim como a experiência de vida de Seth, também pedirá observação. Nem todo mundo se entrega simplesmente e tem uma vida que possa se importar apenas com o que quer, mas tem gente que precisa dar satisfações sociais ao seu meio. Então, busquei trazer um pouco mais de verossimilhança de como algo poderia se desenvolver entre essas pessoas. E também, por mais que a gente queira algo, os personagens é que mandam. Não dá pra força-los a fazer o que nós queremos, se não, os personagens não são palpáveis (bem, eu acho isso ne).

CL – No conto inicial, I Put A Spell On You, o personagem Terry Moore é fã assíduo da Carmem Miranda. Pela maneira como essa paixão é retratada no texto, é de se supor que seja algo transcendente ao livro. Seria você a verdadeira fã da Pequena Notável?

TERESA – Há há há, olha, eu faço parte da porcentagem de brasileiros que não a conhece tanto assim. Foi fruto de pesquisa mesmo! E uma forma de ligar a trama as personagens. Mas confesso que pensei na Carmen, pois há algum tempo eu li uma biografia de Dorival Caymmi e achei as notas sobre ela muito interessantes!

CL – Outro ponto interessante no conto é o poder feminino assíduo. Você se preocupa em dar voz às mulheres na literatura ou é uma característica particular desta obra?

TERESA – Os dois, creio. Nesta historia tem muito disso sim, afinal é uma mulher criando um caminho de controle independente – paralelo ao mundo “masculino” da corrupção, conchavos e politica – e que entende que outras mulheres precisam fazer o mesmo. Isso é bem mais tratado no trabalho maior, que mantenho no wattpad. Mas nos meus textos em geral, eu procuro sempre abordar a visão feminina, pois sou mulher e procuro usar minhas experiências para escrever (mesmo que sejam coisas fantasiosas, fictícias).

CL – No segundo conto (Ataque Fegatello) é impactante a mudança da narrativa em comparação ao primeiro (I put a spell on you). Enquanto temos um narrador em terceira pessoa no primeiro, temos no segundo o narrador em primeira pessoa, e entre o conto, um possível narrador em terceira. Por que a mudança brusca na narrativa?

TERESA – Oba, legal falar disso, acho interessante! Bem, o segundo conto foi feito pensando em uma narrativa fechada, começa e termina e em si. Apesar de ao ler percebermos que existe mais por trás, esse conto fala de uma vingança, diz o porque dela e como a mulher desenhou sua estratégia. Pronto, simples. Ele fecha em si, e o concebi com um ritmo fragmentado; o narrador conta o que viu se passar por seus olhos em alternância com diálogos diretos, para que o leitor veja sem a interferência do narrador-personagem. É um conto mais bem trabalhado, mas que exige mais do leitor também; proximidade com a linguagem fragmentada (com vai e vem no tempo e cenas alternadas) e atenção a esses detalhes. Porém, eu sei que é uma linguagem MUITO diferente da que uso no meu trabalho maior (Scrupulo – vale quanto pesa) e que não é de fácil agrado. Quer dizer, pra apresentar como convite para conhecer a novela, fica difícil né? Hihihi. Por isso, ele vem em conjunto com o primeiro conto, mais próximo da linguagem usada por mim e sem tantas experimentações. Apesar disso, creio que não haveria outra forma de apresentar uma história que tivesse o personagem Seth, – que eu quis dar destaque aqui, pois é um personagem com nuances interessantes, além de importante na trama e queridinho dos leitores – se não fosse dessa forma. Ele é um personagem mais sutil e contido em comparação a Claudia e a primeira pessoa permitiria que ele falasse mais de algo externo sob sua óptica, mas ainda mantendo a aura de mistério sobre si mesmo.

CL – Algumas questões foram somente mencionadas, mas pouco exploradas, feito o sequestro vivenciado por Cazarotto (eu já disse como gosto desse nome?). Trata-se só de um pano de fundo da personagem ou existiriam outro(s) conto(s) em vista?

TERESA – (eu gosto também! Hahaha. Curiosidade: trabalhei com um rapaz com esse nome que tinha o apelido de “kakaroto” por causa da sonoridade haha, era moda o Dragon Ball na época. Falei pra ele que o nome era legal e peguei, rá!) pois é… pensei que, apesar de ser “independente” da história maior, esse conto existe num espaço/tempo especifico, e o que aconteceu antes, pode ter algumas influências sutis nos comportamentos dos personagens. Como o humor e a predisposição de Seth, por exemplo, onde o seu estado é responsável por ter se deixado levar e errado em várias observações (em I put a spell on you). É algo que no conto, ali na hora, não faz tanta diferença. Mas pro personagem faz. Decidi que poderia colocar essas informações em aberto, pois o leitor tem a disposição a historia maior, gratuitamente. Então, caso queira “costurar” algumas coisas, ele pode acessar e sanar. Eu gosto de pegar algumas referências de historias cruzadas em filmes, seriados, quadrinhos ou livros então, acho que quis também utilizar isso em Scrupulo.

CL – Ataque Fegatello tem em sua concepção uma forte crítica social, e tanto Claudia quanto Seth são descrentes na honestidade dos governos. Essa desesperança política é um desabafo seu?

TERESA – Huummm… acho que basta olhar para como funciona a politica numa escala maior (mundo, digamos) pra ver o que está lá. Longe de bancar a teorista da conspiração, mas é inegável a existência do jogo do poder, seja no lugar que for. Se existe um governo, existe um poder controlando o povo (olha lá a anarquista, corram! Hahaha) e se as pessoas não tem controle sobre o que fazem, como vivem, outros decidem por elas, certo? Acho que a esperança é torcer para que o menos filha da puta tome conta do circo, detonando o pior rsrs… nesse ponto, creio que ambos, Cazarotto e Cunnings, compartilhem desse pensamento. Então, talvez sim, seja meu ponto de vista unido ao deles, nesse caso.

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Seth Cunnings (uns 15 anos mais novo): detalhe do quadrinho Kings Club, de Amelia Pessoa

CL – O suposto envolvimento de Cunnings com a máfia permanece uma incógnita. Entretanto, nesse segundo conto, ele mostra ter caráter um tanto duvidoso ao revelar o interesse real em adquirir “dinheiro fácil” através de algumas tramoias “aprendidas” no Brasil. Afinal, quem é Seth Cunnings?

TERESA – Ah, essa é fácil! Ele é um ser político, sem dúvida. Seth, assim como Cláudia, se esgueira fazendo alianças com pessoas de vários meios (lícitos e ilícitos), mas sua posição de homem, estadunidense e influente o diferem, pois esse homens poderosos o encaram com mais seriedade do que levariam uma mulher estrangeira, jovem e sem um passado (ou alianças) que a validem. Seth não é mau, mas pode vir a fazer coisas más para que as boas aconteçam. Tem seu próprio código, e acho que sabemos muito bem que isso é, e sempre será, uma situação em suspensão. Espero que no livro maior as pessoas possam se aproximar de quem é Seth Cunnings.

CL – No fim do conto, descobrimos que a história definitivamente não terminou. Sendo assim, o que mais pode se esperar de Scrupulo e nosso par de protagonistas?

TERESA – Bem, no wattpad o trabalho já vai bem avançado então eu convidaria a dar uma olhada por lá e ver como as coisas estão se desenhando. Mas falando assim, eu diria que o que espera é uma sucessão de situações que os colocarão a prova, não exatamente em sua relação, mas em relação a si e ao mundo, digamos.

CL – Há algum planejamento para Vale Quanto Pesa (atualmente disponível no Wattpad) sair em versão física?

TERESA – tenho esperanças que isso aconteça, sim. Mas vai demorar. Eu sou do tipo que escreve, escreve, e precisa terminar pra depois resolver como fazer. A historia maior ainda não terminou, mas quando isso acontecer, vai passar por um processo de “revisão/reescrita” para ficar bem redondinho. Depois disso sim, planejo fazer uma edição física, mesmo que seja no mesmo sentido que fiz a desse livro, número limitado de exemplares.

entrevista feita por Elielton Castro e Clube de Livros.


Mas você, leitor do blog, já conheceu o trabalho da Teresa em seu livro Scrupulo: dois pesos, duas medidas? bem, se quiser uma boa ideia do que se trata, dá uma lidinha na nossa resenha e aproveita pra concorrer ao sorteio do livro aqui no blog.

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PS: Lembrando que o envio gratuito será feito apenas para território nacional. O ganhador será contactado por e-mail e se não responder no prazo de 3 dias, o sorteio será refeito.

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