ENTREVISTA | Ana Terra, revisora e copidesque

Pensando em nosso público formado não somente por leitores, mas também por autores, resolvemos procurar alguns profissionais do mercado editorial para conversar um pouco, afinal o que será que acontece do lado de lá, de trás do livro? Existe todo um processo na criação do livro que, quando pegamos um em nossas mãos, basicamente desconhecemos.

Esta é a oportunidade de dar voz ao profissional de revisão e copidesque encarnado na figura de Ana Terra, nascida em Porto Velho (RO), porém morando em Brasília (DF) desde os 13. Revisora, tradutora e editora de textos há mais de dez anos. Graduada em Letras, especialista em revisão de textos e mestra em linguística pela UnB. Integram seu portfólio a Editora da Universidade de Brasília, Editora Brasiliense, Livraria do Advogado e a Editora da Universidade do Rio de Janeiro. Autora do livro “Plágio: palavras escondidas” sobre plágio na escrita acadêmica, publicado em 2014. Sócia-fundadora da editora Sobrescrita, sediada em Brasília. Atualmente, escreve um outro livro sobre o ofício da revisão textual.

CL – Como você começou a copidescar e revisar? Por que a escolha por essa profissão?

AT – Por um sopro do acaso. Eu fazia um curso de gramática da língua inglesa e uma colega precisava de alguém pra traduzir um livro para o português. Assumi a tarefa. Um mês de intenso trabalho depois, o elogio foi que a qualidade do texto em português era impecável. Nem deu tempo de escolher entre a modéstia e o orgulho: na semana seguinte, recebi meu primeiro manuscrito para revisar, e logo depois veio outro, e outro, e mais outro… de lá pra cá, foram milhares de laudas de livros, artigos, revistas, jornais… E lá se vão mais de dez anos ajudando os escritores a se expressar melhor – que é como vejo, mesmo, esse nosso ofício: bem longe de patrulha gramatical, um profissional capaz de auxiliar uma comunicação mais fluida e eficaz.

CL – Qual o maior desafio de se escolher esta área de atuação?

AT – O mercado ainda pode ser árido para quem quer ser revisor: salários insatisfatórios, quando se está em um contrato de emprego; instabilidade laboral e financeira, quando se é free-lancer; e um desafio adicional de “educar” o cliente: na maioria das vezes, ele não sabe como funciona, quanto tempo leva e quanto custa um bom trabalho de revisão. Esse é um desafio comum para nós, revisores, mas também para profissionais de outros campos, como os designers. Então parte do nosso trabalho consiste, também, em informar o cliente, explicar a natureza do trabalho, deixá-lo a par do que vai acontecer do momento em que ele envia o texto para nós até o fechamento da revisão.

CL – Se alguém quiser ser copidesque e/ou revisor, quais características pessoais deve ter? E por onde pode começar a procurar formação nessa área?

AT – O conselho geral é o mesmo para os escritores: leia muito, de tudo, e sempre. É preciso ter curiosidade sobre todo tipo de texto e tema, além, claro, de conhecimento linguístico e textual. Não se costuma falar disto, mas para mim há ainda um requisito fundamental: todo revisor deve ser também um pouco escritor. Ele precisa conhecer de perto os processos da composição, os possíveis entraves à criação textual e as estratégias para vencê-los. Muito mais que ter memória para regras gramaticais e acordos ortográficos, o revisor deve ter a capacidade de se colocar no lugar do escritor. É que nosso trabalho se dá muito próximo daquele da composição – lidamos com o texto em processo, e não produto, já finalizado.

Quanto à formação: eu diria que o ideal é a formação em letras ou linguística. O bacharelado em letras costuma habilitar o estudante para tarefas de revisão, mas há também boas especializações (pós-graduações lato sensu) no campo da revisão e da editoração no país.

CL – Como é lidar com o texto dos outros, especialmente relacionado ao copidesque, pois o autor pode não gostar da interferência. Tem alguma experiência sobre isso para contar?

AT – Houve certa vez um autor que ficou ofendido que seu texto tivesse sido encaminhado pelo editor da coletânea para revisão. Ele se sentiu violado, escreveu mensagem esbaforida à editora, se comparou a Machado de Assis e Clarice Lispector (como se os grandes escritores não tivessem, também eles, seus revisores)! Foi um caso delicado, meio tragicômico, mas certamente excepcional. A relação entre revisor e autor costuma ser de muita cortesia na verdade. O bom autor sabe que o revisor é um grande parceiro – Saramago diria “anjo da guarda” na História do cerco de Lisboa, e eu mesma gosto de dizer simplesmente assim: quem revisa amigo é. No meu trabalho, sempre me lembro de uma distinção essencial: se o autor escreve sem precisar justificar suas escolhas vocabulares ou a ordem de suas frases, isso não vale para o revisor, que deve ser capaz de explicar todas as alterações propostas no texto. Ou seja, ele deve saber justificar por que modificou cada vírgula, palavra, acento ou regência. É um princípio de respeito e bom tratamento da obra autoral, que preserva o revisor e dá segurança ao escritor.

CL – Já trabalhou com algum livro que tenha particularmente detestado ou gostado muito? Conte um pouco da experiência.

AT – Revisão tem dessas coisas: nós nos depararmos com aquele texto que vai contra nossos princípios, que é chato e tedioso, ou mesmo que fala de um tema que julgamos desinteressante. E tem o oposto também, claro: ler histórias, depoimentos, relatos tão comoventes que de repente embarcamos no discurso, a lágrima escorre, a vista embaça e a gente precisa fazer pausa para o suspiro antes de seguir com a revisão. Já revisei textos que me ofenderam, que me revoltaram, que me inspiraram ou me tocaram profundamente. Uma vez trabalhei num artigo de uma psicoterapeuta que fazia um relato de um caso. Parágrafo vai, parágrafo vem, e não é que, quando me dei conta, tinha me identificado completamente com o perfil da pessoa que ela estudava? Levou um tempinho até eu me “recuperar” das porradas no ego e conseguir retomar o texto. Viu só? Revisão também pode ser autoconhecimento!

CL – Já pegou um texto escrito de forma tão confusa que não tenha conseguido trabalhar nele? O que fazer diante essa situação?

AT – Não. A verdade é que é bem improvável que um texto inteiro não faça sentido. Por outro lado, acontece com bastante frequência de haver frases, trechos ou mesmo parágrafos com redação confusa ou ambígua. Nesses casos, proponho uma solução que me pareça coerente com o restante do texto e acrescento, ao lado, uma mensagem ao autor pedindo que avalie se a forma como propus mantém o que ele queria dizer. Tem funcionado bem.

CL – Falando um pouco sobre o Mercado editorial: como é feito o orçamento para uma revisão e copidescagem? O que é uma lauda?

AT – Orçamento é um tema que varia bastante entre revisores. Regra geral é, de fato, a cobrança por lauda. Uma lauda não significa uma página nem uma folha. Uma lauda é um conjunto de caracteres, mas o tamanho e a conformação desse conjunto podem variar um bocado: alguns consideram 1.250 caracteres sem espaços, outros 1.400 com espaços, outros ainda 2.100 com espaços e assim por diante. Então o revisor estipula um valor para essa lauda – que, numa pesquisa recente, vi variar de R$ 6 a R$ 18. O trabalho do revisor ou mesmo do autor para prever um orçamento será identificar o total de caracteres de seu texto; depois dividir pelo tanto de caracteres que formam a lauda; e, por fim, multiplicar pelo valor da lauda. Voilà: temos um orçamento, que pode ainda ser acrescido de taxa de urgência, ou mesmo ter descontos quando se trata de volumes extensos de material textual. Na minha rotina de trabalho, tenho preferido cobrar por palavra: fica mais alinhado à prática comum dos tradutores (como sou também tradutora, consigo padronizar uma tabela), e a conta fica mais simples de fazer.

CL – Nosso blog é voltado ao mercado indie, e muitos autores independentes e/ou iniciantes têm dificuldade para saber se os serviços editoriais cobrados são justos ou não. Qual o preço cobrado em média pela revisão e copidescagem? Existe alguma tabela de preços e serviços ou associação de revisores e copidesques?

AT – Não há uma tabela única, até porque às vezes se oferecem serviços diversificados – copidesque apenas, ou copidesque + revisão, ou mesmo todo o serviço editorial, da revisão à publicação, uma variedade que pode compor orçamentos bastante distintos. O que eu recomendaria é buscar estabelecer essa relação de confiança com o revisor ou a editora com base em outros fatores além do preço – a cortesia no tratamento, a explicação clara sobre as etapas do trabalho, o estabelecimento e cumprimento razoável dos prazos combinados, por exemplo, são bons termômetros de confiabilidade.

CL – Alguns autores se preocupam com tamanho dos capítulos, dúvida no uso de travessão ou aspas, uso de incisos… o que você teria a dizer sobre isso?

AT – Os bons autores costumam de fato ser cuidadosos com a forma de seu texto. Independente da possibilidade de uma revisão futura, eles já estão lá, abrindo dicionários à procura do melhor sinônimo e checando nas gramáticas a concordância verbal mais adequada. Claro que esse burilamento, por si só, não faz um bom texto, mas é um exercício bonito e muito simpático, inclusive, com o revisor. “O descuido é uma ofensa aos leitores”, sentenciou certa vez Georges Picard, e os bons escritores parecem bastante preocupados em proporcionar uma leitura agradável. Inclusive, vejo que eles tendem a fazer da revisão uma oportunidade de aperfeiçoamento: ao observarem as alterações sinalizadas pelo revisor, percebem seus cacoetes, vícios, ou mesmo equívocos gramaticais mais frequentes. No texto seguinte, já tentam fazer diferente. Então ter seu texto revisado é, também, uma experiência positiva de refinamento da escrita.

CL – Existe algum livro que tenha influenciado você na escolha da profissão? Recomende um livro que acredita que todo mundo deveria ler.

AT – Muitos livros me ajudaram a fazer sentido do ofício revisor e me ajudam até hoje no cotidiano de trabalho. A construção do livro, de Emanuel Araújo, é um clássico indispensável para quem quer trabalhar com editoração. Guia de escrita, de Steven Pinker, é uma delícia de ler por um público amplo – nós, revisores, mas também autores e entusiastas da linguagem. A arte da pontuação, de Noah Lukeman, é um suspiro criativo que nos leva a pensar bem além do terreno insosso das gramáticas tradicionais.

CL – Pensando no leitor, que é o finalzinho desse processo todo que é a produção de um livro, existe algum livro que você recomendaria a um leitor leigo (seja por algum personagem ou pelo enredo em geral) que você acredita que apresente um pouco de sua profissão?

AT – História do cerco de Lisboa, de José Saramago, tem como protagonista um revisor que acrescenta um “não” indevido em um manuscrito e, com esse gesto, altera o curso da história da cidade. Em Variações em vermelho, o argentino Rodolfo Walsh nos apresenta um personagem revisor que, por seu olhar perspicaz e minucioso, colabora para investigações policiais – uma interessante aproximação entre o trabalho do detetive e o ofício desse leitor privilegiado que somos nós, revisores.


Ana nasceu em Porto Velho (RO) há 30 anos e mora em Brasília (DF) desde os 13. Nas horas vagas, passeia com seu vira-lata e treina movimento no parque. Como prazer da vida, cursa segunda graduação em educação física.
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Entrevista feita por Lua Bueno Cyríaco.

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