DICAS | Tipos de narrador: Autor onisciente intruso

Lembram do nosso post onde apresentei, resumidamente, alguns tipos diversos de narradores?

Dando continuidade ao proposto no post Tipos de Narrador, vamos acompanhar o estudo de Ligia Chiappini em “O Foco Narrativo”. O primeiro tipo de narrador classificado por Friedman é:

Autor Onisciente Intruso (Editorial Omniscience)

Há uma tendência grande ao uso do sumário, muito embora possa existir também a presença da cena. Neste tipo, o narrador tem liberdade para dizer o que quiser; ele tem uma posição acima ou “por trás”; um ponto de vista divino que vai além do espaço e tempo. Pode narrar da periferia dos acontecimentos ou mesmo do centro deles; ele pode assumir uma postura mais afastada ou próxima. A característica marcante aqui é a intrusão, suas opiniões sobre os acontecimentos, personagens, situações, moral, estando relacionado com o que acontece na história ou não.

Alguns exemplos de autores que utilizam esse tipo de narrador: Fielding em Tom Jones e Tolstoi em Guerra e paz. Ambos alternam digressões de capítulos inteiros com outros de narração da história (quase como ensaios a parte). Na língua portuguesa temos Camilo Castelo Branco, Manuel Antônio de Almeida e Machado de Assis. Ligia também acrescenta nessa lista, Honoré de Balzac.

Vamos dar uma olhada num exemplo? Aqui um trecho do livro Quincas Borba, de Machado:

“Não, senhora minha, ainda não acabou este dia tão comprido; não sabemos o que

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se passou entre Sofia e o Palha, depois que todos se foram embora. Pode ser até que acheis aqui melhor sabor que no caso do enforcado.

Tende paciência; é vir agora outra vez a Santa Tereza. A sala está ainda alumiada, mas por um bico de gás; apagaram-se os outros, e ia apagar-se o último, quando o Palha mandou que o criado esperasse um pouco lá dentro.  A mulher ia sair, o marido deteve-a, ela estremeceu.”

Neste capítulo, Sofia conta a Palha que Rubião lhe declara o seu amor (capítulo anterior). No trecho destacado, o narrador onisciente intruso está fazendo ligações entre diferentes momentos do livro, e para isso fala diretamente às leitoras, ali sinalizado pelo “senhora minha” (na época, as mulheres eram o público principal dos romancistas). Essa interferência é típica de Machado: o narrador freia a história e se coloca próximo ao seu leitor, para observar os personagens e suas ações de longe, assim como seu público, e comentando os acontecimentos. Assim, cria-se certo distanciamento irônico que chama a atenção para coisas implícitas na história. E também, ele pode manipular a percepção que o leitor tem da história.

No segundo exemplo, vem o de Balzac retirado de Esplendores e misérias das cortesãs:

“Outra observação. O mundo das meretrizes, dos ladrões e dos assassinos, os galés e as prisões comportam uma população de sessenta e oito mil indivíduos, machos e fêmeas. Esse mundo não podia ser desdenhado na pintura dos nossos c5056896ostumes, na reprodução literal do nosso estado social. Não será extravagante constatar que a justiça, os gendarmes e a polícia oferecem um número de pessoal quase correspondente? Esse antagonismo de gente que se procura e que reciprocamente se evita, constitui um imenso duelo, eminentemente dramático, esboçado no presente estudo. Com o roubo e o meretrício sucede o mesmo que com o teatro, a polícia, o sacerdócio e a gendarmaria. Nessas seis condições, o indivíduo toma o caráter indelével. Não pode mais ser o que é. Os estigmas do divino sacerdócio são imutáveis, tanto como os do militar. O mesmo se passa com os outros estados que são fortes oposições, opostos ou antônimos na civilização. Estes diagnósticos violentos, estranhos, singulares, sui generis, tornam a prostituta e o ladrão, o assassino e o liberto tão fáceis de reconhecer, que eles são para os seus inimigos, o espião e o gendarme, o que é a caça para o caçador; eles têm um certo modo de andar, umas maneiras, uma cor, uns olhares, um certo cheiro, enfim, propriedades suas, infalíveis. Daí essa ciência profunda do disfarce, nas celebridades das galés.”

Nesta história, o personagem quer entrar para a alta sociedade através de um casamento com uma nobre, mas para isso ele seduz uma prostituta para que ela lhe consiga esses meios (através, claro, da sedução de um homem rico). Essa complicada intriga permite que o autor explore os extremos da sociedade francesa da época: desde a nobreza até o submundo da prostituição e marginalidade. E claro, o autor onisciente intruso tem vasto material para explorar, argumentar e também mencionar as inúmeras lições que podem ser tiradas dessas situações e personagens.

E aqui fazemos a pergunta proposta para essa análise:

1 – Quem narra?

Um Narrador Onisciente intruso, um eu que tudo segue, tudo sabe e tudo comenta, analisa e critica, sem nenhuma neutralidade.

2 – De onde narra?

Provavelmente de cima, dominando tudo e todos, até mesmo com pleno domínio das nossas reações de leitores e driblando-nos o tempo todo.

3 – Quais canais utiliza e qual distância está?

Os mais variados, predominando a sua própria observação direta. Somos colocados a uma distância próxima do que é narrado – podemos saber até algumas coisas que os personagens pensam – porém, ao mesmo tempo distante, já que o narrador media tudo entre o leitor e o que é narrado “conservando-nos ironicamente afastado deles, impedindo nossa identificação com qualquer personagem bem como frustrando a absorção na sequência dos acontecimentos, com pausas frequentes para a reflexão crítica.

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Este estilo de narrador era muito comum no século XVIII e no começo do XIX, saiu de moda em seguida por conta das vertentes naturalistas que tendiam a preferir a neutralidade ao narrar.

Mas no caso, Machado, como diz a autora Ligia, ultrapassando as tendências ultramodernas, utiliza esse narrador para romper com a realidade. Seu leitor não esquece que está diante de uma história fictícia, uma análise, uma interpretação ficcional da realidade, um ponto de vista sobre as pessoas, sociedade, época.

É o que ocorre no trecho de Balzac, apesar de trazer uma estética realista ao “pintar costumes” trazendo uma visão literal do que seria um estado social, vai além, ao fazer da ficção um estudo atento aos detalhes e contradições da sociedade observada – e apresentada – no microcosmo que é o romance.

No próximo post; Narrador Onisciente Neutro.


Indicações neste post:
*Quincas Borba de Machado de Assis
*Esplendores e misérias das cortesãs de Honoré de Balzac
*Guerra e Paz de Tolstoi
*Tom Jones de Henry Fielding

Você conhece algum outro livro que já tenha lido ou mesmo escrito que utilize esse tipo de narrador? deixe sua indicação aqui nos comentários do post! 🙂

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Sobre o autor

Lua Bueno Cyriaco
Administradora do Clube de Livros, Produtora e organizadora do Concurso Literário Autoramente! Ilustradora e quadrinista - Formada em Artes Visuais (FADM-UNOPAR), graduanda em letras Japonês (UFPR) Assina os cadernos e marcadores da própria marca Lunares.
Uma brasiliense no frio de Curitiba.

Lua Bueno Cyriaco

Administradora do Clube de Livros, Produtora e organizadora do Concurso Literário Autoramente! Ilustradora e quadrinista - Formada em Artes Visuais (FADM-UNOPAR), graduanda em letras Japonês (UFPR) Assina os cadernos e marcadores da própria marca Lunares. Uma brasiliense no frio de Curitiba.

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