DICAS | Testes que averiguam a representatividade feminina na ficção

Vamos falar sobre mulheres e o que são esses seres? Pois bem, basicamente são homo sapiens do gênero feminino. Mas ser uma mulher vai além da biologia, compreendendo o gênero como um construto social.

Partindo dessa perspectiva, eu observei que muitos dos livros que leio na internet para me entreter têm vários, mas vários, pontos questionáveis no que se refere a representação feminina.  Acontece inclusive em histórias contadas por mulheres!

Quando a gente fala de representatividade vem um monte de conceitos clichês (sim, eles estão em todos os cantos e discursos, corram para as montanhas!) à mente. Mas a parte de todas as discussões politicas que o envolvem, eu quero me referir a representação de uma figura e a forma que ela é feita. A grosso modo, quanto mais comum é a aparição de algo, mais banal e aceito aquilo é, certo? Então, a manutenção de certos esteriótipos só é possível porque as pessoas aceitam aquilo sem – na maioria das vezes –   nem pensar. Está lá e pronto. Existe assim, simplesmente.

Inúmeras vezes criei conflitos ao questionar o papel e principalmente ações de personagens femininas, seja em histórias de romance ou de qualquer outro tipo; fantasia, comédia, drama. Faço isso, pois, como mulher, algumas manutenções de esteriótipos são além de desagradáveis, perigosas. Também porque gosto de qualidade quando leio, independente se estou lendo um clássico ou um livro de entretenimento. É legal perceber que o autor pesquisou, procurou criar personagens e situações densas e palpáveis (melhor usar palpáveis do que verossímeis rsrs). O que mais gosto na vida é ver uma personagem e pensar “eu acredito que existam pessoas assim” ou “essa pessoa parece com alguém que conheço” e principalmente: “essa personagem realmente só poderia reagir assim, típico dela”. E infelizmente, muitas personagens femininas não me passam essa sensação.

Pensando nisso, eu pesquisei alguns testes usados especialmente pelos fãs de cinema e quadrinhos que poderiam ajudar bastante aos autores à avaliar a importância da representatividade feminina nos seus trabalhos. Inclusive autoras de livros de romance também!

Os testes a seguir foram sugeridos por fãs ou autores, especialmente norte-americanos, e dizem respeito à representatividade feminina nos filmes e TV. Se tem uma coisa que os americanos são bons é em criar uma fórmula pra tudo, né? O pragmatismo deles é incrível! Tem lá sua utilidade, se usado com sabedoria. Vamos conhecer alguns:

Teste Bechdel

representatividade2Alison Bechdel é uma cartunista americana que em 1985, uma de suas personagens em seus quadrinhos expressou uma ideia que ela atribui na verdade à sua amiga Liz Wallace, que serviria para atestar a representatividade feminina nos filmes. Seria o seguinte, na história em questão teriam:

1 – Ao menos duas personagens femininas

2 – Que conversem entre si.

3 – Que a conversa entre as duas que não seja a respeito de  homens.

Muitos filmes de Hollywood não passam no teste. No entanto, existem histórias e filmes que não tem caráter sexista que não passam no teste de Bechdel. Dessa forma, existem outras perguntas que podem ser feitas à fim de investigar se uma história é machista e tenham personagens femininas poucos desenvolvidas ou apenas como enfeite. Assim, passamos ao segundo, e bem engraçado, teste:

Sexy Lamp (Lâmpada Sexy)

Assim como o Bechdel, esse é um teste bastante simples e vem de um outro autor também do mundo dos quadrinhos, Kelly Sue DeCoonick.

1 – Se a personagem feminina pode ser removida da história e substituída por uma Lâmpada Sexy – ou seja, a personagem feminina não faz nem diz nada relevante para a história além de existir – e a história continuar funcionando da mesma maneira, então a história não passa no teste.

DeConnick ao falar isso se refere aos próprios colegas de quadrinhos, isso lá pelos idos dos anos 70. O ponto dele é auxiliar aos escritores sobre a armadilha que é a utilização de esteriótipos de personagens, nesse caso especifico, da presença feminina. Eu diria que esse teste é aplicável não somente para a presença feminina, mas dá uma luz geral a todos os personagens de uma trama. Será que se fossem substituídos por uma lâmpada, fariam diferença à história? É algo a se pensar quando se cria um enredo.

Mako Mori

representatividade3Este teste foi feito baseado na personagem homônima do filme Pacific Him (Círculo de Fogo). Apesar de não passar no teste de Bechdel, pode-se concluir que as personagens femininas são bem representadas e não são tratadas como objeto. Por não passar no teste de Bechdel, o filme foi bastante discutido, até que usuários do Tumblr que eram fãs do filme alegassem que apesar da reprovação, ele tinha aspectos de valorização feminina, propondo as seguintes questões para um teste:

1 – Ao menos uma personagem feminina

2 – Com seu próprio arco narrativo

3 – Arco este que não seja para dar suporte à uma história masculina.

Vendo esses três pontos, o filme passou. É um teste bem interessante de ser feito também. Especialmente porque existem gêneros e histórias em que a presença feminina não seja constante. Podem existir histórias que tenham apenas uma personagem mulher, por que não? Nem por isso elas seriam sexistas. Este teste, ao meu ver, complementa muito bem o de Bechdel.

Finalmente, o último teste, que também é curioso e surgiu a partir de todos esses testes acima citados, além de ser uma pequena (talvez nem tão pequena) provocação à reação machista que determinadas histórias provocam.

Furiosa

representatividade4Esse é o nome de uma das personagens do filme Mad Max: Fury Road. A presença feminina no enredo desse filme é constante e são personagens fortes e independentes de uma história masculina. Sendo assim, a  narrativa é aprovada em todos os testes propostos acima.

Porém, a resistência por parte de algumas pessoas à quantidade de personagens femininas de relevância, fez com que a reação fosse a proposta de um novo teste que qualificaria se uma obra é machista ou não:

1 – As pessoas na internet ficam loucas pelo fato de ser feminista?

Se a resposta for positiva, a história passou no teste. Eu ri, confesso. Especialmente porque existe uma tendência grande ao “dodói” nos comentários raivosos tão comuns na rede.

Espero que os testes propostos sejam úteis aos jovens escritores. Claro, esses testes em específico falam da representatividade feminina, mas me parece que eles podem ser usados como base para levantar algumas questões referentes à outros assuntos também, buscando sempre a tridimensionalidade de personagens e histórias.


Referências:

Dr. Forrest C. Helvie: “The Bechdel test and a Sexy Lamp: Detecting gender bias and stereotypes in mainstream comics”

Kelsey Powers: “The Furiosa Test developed from female presence in Mad Max: Fury Road”

Wikipédia: Teste de Bechdel

 

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Sobre o autor

Lua Bueno Cyriaco
Administradora do Clube de Livros, Produtora e organizadora do Concurso Literário Autoramente! Ilustradora e quadrinista - Formada em Artes Visuais (FADM-UNOPAR), graduanda em letras Japonês (UFPR) Assina os cadernos e marcadores da própria marca Lunares.
Uma brasiliense no frio de Curitiba.

Lua Bueno Cyriaco

Administradora do Clube de Livros, Produtora e organizadora do Concurso Literário Autoramente! Ilustradora e quadrinista - Formada em Artes Visuais (FADM-UNOPAR), graduanda em letras Japonês (UFPR) Assina os cadernos e marcadores da própria marca Lunares. Uma brasiliense no frio de Curitiba.

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