CONCURSO | CONTO DE HALLOWEEN | RED VILLE

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Red Ville
Nada além do sangue pisado que ficou da falecida garota no chão da passarela; e uns retalhos de seu vestido vermelho perdidos entre os arbustos. Nada mais a tratar ali, por isso, resolvemos voltar para o chalé.
Edgar carregou sua bolsa preta e seu S7 Edge, um celular finíssimo e, ao mesmo tempo, resistente juntamente com o carregador e bateria reserva.
Edgar guardava seu pé de meia para a faculdade, não que fizesse diferença agora. Nem o seu novíssimo celular serviria para alguma outra coisa senão peso no lixo reciclável.
Haviam poucos DVDs na estante para colocar no aparelho. Uma era Let’s Get It On — de Marvin Gaye, morto pelo pai em 1984, que traduziu, em um primoroso soul, o desenvolvimento do black. Boas memórias vêm à tona em momentos como este. Na formatura da 8ª Série, Edgar apresentou a própria música Let’s Get It On, no palco sob a versão de Jack Black em Alta Fidelidade, com o cabelo de lado e uma jaqueta customizada, emocionando os pais presentes com a sua voz rouca. A turma, por outro lado, não fez outra coisa senão cair na risada.
Seus dotes em Can’t Take My Eyes Off You em 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você, era, de certa forma, singular. Longe de pertencer ao time dos bad boys românticos estilo Heath Ledger, ainda assim, tinha certo charme. Era um bom menino.
Do tipo que não tinha medo de ser feliz e, principalmente, de matar toda a turma de tanto rir. Durante as excursões, as suas cenas eram reproduzidas continuamente. Eu me sentava com Noah, torcendo para que ele não tentasse me beijar de novo na volta à meia luzinha; Alan, provavelmente armando alguma pegadinha com a turma do fundão, enquanto Karen e David estavam acomodados nos bancos atrás. Edgar andava pelo corredor, sem parar em banco algum, cantando no ritmo da turma dos pagodeiros: “Toda vez que eu chego em casa, a barata da vizinha tá na minha cama, diz aí Edgar que cê vai fazê”
— Eu vou comprar uma viola pra me defender…
— O que acha de um beijo? — Pediu Noah, não muito mais tarde do que eu previra.
— Já faz um tempão desde o… desde a última viagem?
Noah parecia sofrer de amnésia e também de amor-próprio, ou mais precisamente, da falta dele. Em sua consternada mente eu era a princesinha do seu castelo, nem que fosse de areia. O castelo e não eu.
— Acho uma péssima ideia — redargui. Como se o bafo de estômago podre não fosse razão suficiente, as suas oscilações de humor também me enlouqueciam de uma forma ruim. E iria ficar pior. A derradeira evolução de seu corpo era por mim conhecida desde os primórdios do clube da casinha na árvore, no auge dos nossos sete anos quando me mudei para a cidadela.
— Você é uma garota má — praguejou ele, apertando os olhos com o cenho franzido. Os seus lábios vermelhos brilhantes como o de uma Secretária Executiva de Multinacional se contraíram em uma linha rígida e, no mesmo momento, solavancos do ônibus derrubaram Edgar, que iniciou mais uma sessão de gargalhadas no pessoal.
— Ah é, na opinião de quem, garoto bipolar? — Ora, que ficasse quieto. Maldito foi o dia em que concordei em beijá-lo. Ele emudeceu, finalmente.
Paramos atrás da porteira branca para abrir o cadeado enferrujado. Enormes lebres apareciam de tempos em tempos no conjunto de chácaras que compunham o Red Ville, famílias inteiras, em suas roupas maltrapilhas, molecada suja de terra e os mais antigos com saudades da vida no campo. Leite quente recém tirado de vacas e cabras, doce de leite batido, pamonha e curau, lindas mamães colocando seus bebês na piscina de plástico cheia de água do açude, nuviosas sob a fumaça das churrasqueiras trepidantes formando um misto de protetor solar e carne malpassada do quiosque.
Nesse instante, contrariando todas as certezas, todo o decoro que era velho se fora com a contundente brisa. As ondas artificiais que ela formava no lago envolvia tudo aquilo tão entusiasmado quanto um tufão oriental. Sem aquela gente, nada de copos de plástico, garrafas de cerveja ou bitucas de cigarro. A nossa turma manteria tudo intacto, em nosso lugar particular, um santuário para nós que prezávamos a sua integridade.
Por isso mesmo servimos os porcos como alimento. Até Noah e a sua bipolaridade participou do jogo, até ele e o seu hálito de urso hibernante.
A terra vermelha cercava o lago por todos os lados, coberta por grama macia e gelada sob a luz branca do luar.  Peixes acordados pelo som obscuro da noite, que chicoteava os seres habitantes do lugar. O lago refletia a luz da lua cheia ricocheteando-a nos curiosos bichos enfeitiçados por sua misteriosa negritude.
A passarela de madeira velha corroída por cupins, vermelha e larga, chumbada na terra e também no fundo do lago iluminada na totalidade de sua balaústre, estagnada como uma fotografia de um voyeur. Já as ondas, incessantes ondas, profundas, causando enxames inusitados de água sedenta criando pequenos redemoinhos disformes em busca do que se joga pela sacada, de onde tudo se vê.
Eventualmente um ou outro animal do Red Ville poderia se chocar e acabar no lago por vontade própria. Ou, quem sabe, não.
Moon Song, de Karen Orzolek — informou Edgar sobre o seu recente número a apresentar — Esse ficou show, galera, com essa lua ministral clareando as nossas mentes, enquanto assistem o fundo sonorizado que preparei.
Eu sou Eliana, mas podem me chamar de Lianna, odeio meu nome de batismo. Era a vez de Raíssa, só que não pôde vir ou não quis vir, terei de descobrir depois.
Noah voltou a se entusiasmar, a boca desfazendo a linha dura. Saí rumo a passarela para despistá-lo.
— Lianna! — Chamou Edgar. — Dê um chego aqui, já escutou essa piada do Alan? — Ele tinha iniciado seu bloquinho de anedotas de loira. Nem se meus cabelos fossem banhados pela aura da manhã eu me interessaria por uma baboseira como esta. E nem sequer ficaria ofendida. Nem mesmo assim.
Ao contrário de mim, duas garotas, Margot e Ellen pareciam bem empolgadas com a sucessão de palavras de mau gosto, deitadas juntas na espreguiçadeira de plástico. Eu queria muito saber aonde guardaram a garrafa de vinho de red grape.
Desisti da varredura e segui com o grupo para a passarela, observando os passos de Edgar, imaginando como seria sua apresentação desta vez. Em que ponto ele iria de brincalhão a otário. Seu jeito torpe me irritava, às vezes.
— Vamos pular? — Convidei Noah já sabendo da resposta.
— Agora? Tem certeza?
Cavouquei a água sombria do lago como uma cadela furiosa escondendo o seu osso, molhando os pés branquelos de Noah.
— Tenho certeza.
Atravessamos toda a extensão taciturna. Ele me alcançando a nado, beliscando meus pés feito caranguejo quando ficava para trás, tempestuando as minhas ideias mais e mais. Tentei em vão manter-me imóvel em alguns momentos, molhada por tais águas famintas sob a brisa pungente em noite fria. Noah beijava o meu ventre ao invés, com certeza um mal-entendido.
A brisa soprava em meus cabelos grudentos no rosto. O vento transformava o lago em uma piscina de ondas em águas melancólicas. Pude sentir o gosto de sangue descendo por minha garganta em pequenos goles aplacando a sede que o próprio lago sentia. E queria mais.
Tirei o short azul de bolinhas e deitei no barro, me unindo aquele ambiente enquanto observava a apresentação de Edgar ao longe, do outro lado do lago.
— Ficou bem assim, toda suja, do jeito que realmente é — comentou Noah.
— Acha mesmo?
— Não sei. De qualquer forma, não faria diferença para o que tenho em mente — considerou.
— Quer provar? — Propus, à medida em que esfregava a terra lamacenta em minha coxa.
Nos beijamos fervorosamente, não me importando com a língua repulsiva como as escamas de uma cobra. O seu gosto lembrava a ansiedade do breve sabor bebido no lago. O seu corpo já tão ligado ao meu quanto a mim na necessidade do lago e quando do seu irrisório descanso pude acalmar as próprias ondas entorpecidas.
Karen sentada na passarela com os pés na água e David deitado em seu colo me ajudaram a subir. Sentei-me próxima a eles, percebendo o restante do barro a se esvair com a água e Ellen lá dentro pedindo ajuda para o casal que estava observando o lago.
Margot tentou ajudá-la mas escorregou em minhas pernas molhadas, caindo em cima de mim. Rimos enquanto a garota era embebida pelas águas trepidantes. Sim ela seria a próxima.
Quanto mais altos os gritos, maiores os risos, não duraria muito sem conseguir nadar. Rolei para a frente, sentindo as mãos de Margot em minha cintura, e reparei no olhar incrédulo de Noah sendo puxado por David. Parece que alguém não gostou de ter ficado para trás.
Edgar havia terminado a encenação e inusualmente sem portar o ridículo.
— O forno está pré-aquecido — confirmou Alan.
— Acreditaram naquele lance de ONG para animais? — Perguntou Karen.
— Não sei — assumi —, e o que importa agora? Precisamos limpar os porcos.
Ela tinha alugado o Chalé número um para o final de semana e ficou atraída por Alan quando a encontramos na porteira. Sua pele macia como a luz da lua sobre a água prontamente nos cativou, contudo foram seus modos negligentes com as latinhas de cerveja que nos fizeram decidir. E, bem… A necessidade do lago.
A sua face estava serena, dormia inconscientemente, não fosse pela respiração fraca e inábeis sussurros, poderiam achar que a diversão teria acabado. Noah alegou que ela chamava por Alan, que não saiu mais do seu lado, contando as mesmas piadas sem graça.
Jogar os primeiros porcos no lago foi um plano de Edgar. Ele havia visto nos filmes e clipes a ideia de limpar as cidades e passou a encenar apresentações para o antes. Assim, manteríamos a vida tranquila de Red Ville e o Lago sombrio devidamente tranquilo.
Como sempre deixou claro o peba que sempre foi, ainda assim, aceitamos. Seria um prazer inesperado para os enfastiantes dias que levávamos ali e, por outro lado, estaríamos fazendo um favor ao local. Realizamos o plano que seguiríamos uma vez por ano, nos dias de Halloween que se seguiriam.
Começamos por um cara mal-humorado que tinha a mania nojenta de bater nas crianças da Ville. Amarramos seus pés na caminhonete de David e fomos puxando pela estrada até o fim da apresentação de Edgar em Singing The Rain na carroceria. Depois do jogo no lago ficamos para o churrasco. O cheiro era realmente de porcos ao molho de manga e mel e o sabor…
Ajudar Alan a cortar os pedaços mais importantes faziam com que olhos de Noah ficassem em tons verdes de piscinas de maré. Ele se deliciava e essa era a parte que eu mais amava nele. Talvez a única parte.
Sim era a única parte.
CONTO ESCRITO POR: MARINA SIMÃO; para o desafio de Halloween elaborado pelo Clube de Livros.
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