CONCURSO | CONTO DE HALLOWEEN | A DEUSÀ KARNE

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“Abandonai toda a esperança, vós que aqui entrais.”
– Dante, Inferno
Sexta-feira, 23 de outubro de 1999
Quando os homens caracterizados de palhaços assustadores começaram a aparecer pelas ruas do pequeno vilarejo de Vila Pinheiro, a recatada população local surtou. A princípio, criou-se a teoria de que seriam maníacos.
As figuras surgiam após o anoitecer e, sem dizer uma palavra sequer, permaneciam imóveis iguais a estátuas, segurando balões que noticiavam: “A DEUSÀ KARNE ESTÀ VINDO!”. Eram homens altos e corpulentos com roupas, acessórios e pintura típicos de palhaços, porém, estavam muito sujos e encharcados de sangue, além de reproduzirem instrumentos cortantes atravessando ou fincando-se em alguma parte de seus corpos. Eles mais espantavam do que atraíam pessoas.
As autoridades de Vila Pinheiro se limitaram a afirmar que não havia razões para alarde, que os artistas eram inofensivos. O motivo de tal posicionamento só fora esclarecido após uma semana de mistério e certo terror, ao ser anunciada a chegada repentina de um circo itinerante no vilarejo para comemorar o famoso Halloween. Os palhaços não passavam de uma “amostra grátis”, propaganda.
Não era sempre que uma atração como a Companhia de Raridades da Deusà Karne despontava por aquelas bandas, portanto, muitos ficaram ansiosos.
Exceto Helena.
Helena era uma jovem enfermeira que seguia apressada para a casa de Augusto, um idoso do qual cuidava, no instante em que cruzara com um dos palhaços. Em uma única e ligeira troca de olhar, a jovem – sempre muito observadora e perspicaz – constatou algo bizarro. Aqueles olhos escuros que a encararam, um tanto ofuscados devido ao excesso de maquiagem cingindo-os, transmitiam muitas coisas, menos humanidade.
Sábado, 31 de outubro de 1999
O circo fora montado de um dia para o outro sobre um extenso terreno baldio, área remota em relação às residências do vilarejo. De repente, já estava ali. Era composto somente por uma colossal tenda de listras roxas e laranjas.
Assustadoras abóboras decorativas e crânios humanos bastante realísticos espalhavam-se pela propriedade, acompanhados por velas, a despeito das inúmeras lâmpadas coloridas pairando acima do espaço utilizado no terreno, com pequenos e estranhos bonecos feitos de palha pendendo dos seus fios condutores. Enquanto isso, no letreiro de entrada, as letras garrafais de Companhia de Raridades da Deusà Karne eram contornadas pelo o que pareciam ser dentes humanos. E, para completar o clima espectral, uma lua cheia vermelha brilhava no céu escuro, sem estrelas.
Ninguém em sã consciência colocaria os pés ali se não soubesse que a proposta era exatamente aquela, de ser uma experiência arrepiante e divertida ao mesmo tempo. Durante a manhã, foram divulgados pelo vilarejo cartazes e panfletos que explicavam a natureza do festival e os costumes do Halloween. Naquele fim de mundo, poucos realmente sabiam a respeito das tradições daquela data. Tudo aquilo despertou ainda mais o interesse do povo.
De noite, mais da metade do vilarejo compareceu para prestigiar o espetáculo.
A única pessoa que não queria estar ali era Helena. Entretanto, Augusto insistira em ir. Sua filha, a última familiar viva, não podia levá-lo por conta do trabalho, então pagou a Helena para acompanhá-lo. A jovem não se atreveu a negar, pois vinha juntando uma poupança para sair de Vila Pinheiro de vez, qualquer renda extra era bem-vinda.
Na tenda, três enormes arquibancadas cercavam parcialmente o picadeiro, rodeado por tochas cravadas no chão. O lugar estava lotado e imerso na semiescuridão.
Espero que isso não demore – resmungou Helena em seus pensamentos. Tudo naquele ambiente a fazia sentir aversão ao circo: a decoração exagerada, os burburinhos de excitação do povo… – Idiotas! – irritou-se, sentindo o décimo terceiro calafrio consecutivo. A cada minuto a sensação desconfortável se repetia.
Subitamente, um par de holofotes focou o centro do picadeiro, onde havia uma mulher exuberante. Seu vestido preto lambia curvas sinuosas daquele corpo lascivo, do farto busto aos pés. O cabelo cacheado era armado como a juba de um leão, ruivo e marcante.
Entre palmas calorosas, vários homens assobiaram para a mulher, ensandecidos.
– Gostaram do meu vestido? – indagou em um microfone, deslizando a mão livre voluptuosamente pela cintura. – É feito de couro de criaturas infernais. Demônios. Lindo, não? – disse, descontraída, como se conversasse sobre assuntos triviais. Os aplausos e os assobios encerraram. – Eu sou Madame Karne, a Deusà Karne, e conduzo há décadas a trupe que vocês estão prestes a conhecer. Sei que muitos aqui não estão familiarizados com o Halloween, mas saibam que esta é uma data bastante especial. A única em que nos apresentamos! Pois é quando as trevas se infiltram mesmo nos cantos mais iluminados e os mortos ganham poder suficiente para subjugar os vivos. É uma noite de imaginação infinda, portanto, convido a todos a deixarem suas mentes abertas e embarcarem no nosso espetáculo de outro mundo.
Mais três holofotes foram acionados em diferentes pontos e iluminaram medonhos anões com cabeças de animais ocultando seus rostos. Um lobo, um urso e um cervo. Cada um voltava-se para uma das arquibancadas e balançava no ar um cordão prata com uma pedra rubra de pingente.
Então, suas vozes ecoaram em uníssono pelo ambiente, traiçoeiras e peçonhentas, como se estivessem sendo emitidas por víboras.
– Um, dois, três e quatro. Nosso círculo está aberto, mas não quebrado. Venha comungar com o Senhor Sombrio. Entregai-nos vosso sangue, vosso corpo e vosso espírito. Sinta a Lua Sangrenta liberar o poder que convoca os mortos a ascender. Deixe-A unir a todos em um manto em comum. Diga adeus à carne em três, dois, um…
Os holofotes foram desligados. Meio segundo depois, o picadeiro inteiro adquiriu iluminação, revelando uma baixa, magra e doentiamente pálida mulher. Parecia a contorcionista mostrada nos cartazes. Ela se mantinha cabisbaixa.
Os anões desapareceram.
A plateia não reagiu. Permaneceram mudos e de olhos vidrados, alguns babando.
– Queridos! – chamou Madame Karne, acomodada em um trono elevado e afastado das artistas que se apresentariam. O objeto não se encontrava ali segundos atrás. – Precisamos de um voluntário para a primeira apresentação.
Um palhaço surgiu ao lado de uma das arquibancadas e puxou de maneira truculenta uma das pessoas, um homem de musculatura bem desenvolvida, que curiosamente não reagiu. Ele caiu de cara no chão e pareceu se machucar, entretanto, não se importou. Foi arrastado pelo palhaço e posicionado ao lado da contorcionista.
– Nós chamamos esse número de O Espelho, performance de nossa irmã Samara! – anunciou Madame Karne. – É hora de alimentar os deuses antigos.
As luzes diminuíram ao redor da contorcionista e do homem, a fim de focá-los.
Samara levantou a cabeça exibiu um rosto sem sobrancelhas, olhos e nariz, apenas com uma enorme boca oval sem lábios ou dentes, parecendo uma espécie de buraco negro. Ela fez uma rápida reverência, e seu companheiro involuntário repetiu o gesto simultaneamente.
Em seguida, Samara começou a entortar seu corpo para trás. Foi lentamente se curvando, dobrando-se como se sua estrutura interna fosse de elástico. O homem, em reflexo aos seus movimentos, seguiu imitando-a. No entanto, não tinha desenvoltura similar a da artista. Enquanto a acompanhava, seus ligamentos rompiam e seus ossos estalavam alto, trincando, partindo.
Helena gritou quando Samara enfiou a cabeça entre as pernas, na altura dos joelhos inclinados, mas o seu parceiro não fora mais capaz de acompanhá-la, pois desabara definitivamente morto no picadeiro. O trono de Madame Karne ganhou foco e a apresentadora se colou de pé, com uma expressão de surpresa e irritação.
– Quem ousa atrapalhar o show? – exigiu saber.
Helena não caíra na hipnose dos anões porque assim que os viu, fechou bem os olhos e rezou quantas orações conseguiu lembrar, só voltando a abri-los quando a nova atração fora anunciada, mesmo estando receosa com o que encontraria.
Madame Karne a observou.
– Vejamos – divagou. – Alguém não prestou atenção na nossa introdução.
– Ela acabou de matar esse homem! – indignou-se Helena, aos berros, indicando a contorcionista que prosseguia congelada na mesma posição final da sua performance.
– Ela nem tocou nele – Madame Karne deu de ombros.
– Você é louca! – Helena buscou apoio na plateia. Mas bastou encarar aqueles semblantes vazios para compreender que ninguém a escutaria ou ajudaria. Virou-se para Madame Karne novamente, incrédula e, sobretudo, amedrontada. – O que são vocês? – Um choramingo escapuliu junto à pergunta.
– Somos uma trupe, querida – replicou, com ar de inocente. – Somos muitos e somos invocados durante este maldito mês todos os anos e em diferentes lugares. Nesta data especial… Nós podemos tudo. Coletamos almas para alimentar os deuses antigos, pois fomos enganados e condenados a servi-los até sermos dignos de liberdade. Paz através da dor. Bem, dor alheia.
– O que são vocês?! – repetiu Helena, gradualmente mais afoita.
– Há coisas que são melhores quando não ditas.
Um palhaço que Helena não percebera se aproximar a agarrou e a carregou no ombro. Ela esperneou e desferiu socos em suas costas, mas nada surtia efeito. Atrás dos dois, outro palhaço pegava Augusto para arrastá-lo consigo.
No palco, Augusto fora amarrado na circunferência de uma enorme roda de madeira, surgida no espaço em um piscar de olhos. Seus braços e suas pernas foram esticados para trás por cordas atadas a um aro metálico no centro da peça.  E abaixo da roda, separados por meros centímetros, projetavam-se para cima inúmeros objetos pontiagudos e perigosamente afiados.
Helena pensou em protestar, entretanto, não encontrava sua própria voz.
– O próximo número será A Roda do Despedaçamento! – Madame Karne anunciou, eufórica, como se aquele fosse seu número favorito. – Chamem o atirador de facas!
Um homem usando terno e cartola veio na direção de Helena. Curiosamente, tinha um punhal penetrando a lateral do pescoço.
– Palmas para Rodolfo, o célebre atirador de facas!
Pela primeira vez, a plateia reagiu, acatando a ordem de Madame Karne.
O palhaço colocou Helena no chão, porém, não saiu de perto. O recado ficou claro: qualquer gracinha, ele estaria ali para detê-la. Rodolfo se posicionou a alguns metros diante da roda e revelou portar quatro facas.
– Rodolfo terá quatro tentativas de cortar as cordas amarradas ao aro! – explicou a apresentadora. – Se falhar, a roda é acionada e nosso convidado terá um trágico fim!
– Por favor, não… – murmurou Helena, soluçando alto.
O espetáculo iniciou. Rodolfo errou drasticamente duas tentativas. Helena gritava a cada erro e elevava seu pranto. Então, o artista se voltou para Helena, impaciente.
– Você por acaso quer tentar? – perguntou, destilando rispidez. – Pois tome! – Ele tomou a mão de Helena e a fez segurar uma das facas restantes. A outra, jogou no chão, antes de se retirar batendo os pés.
– Parece que o show teve uma reviravolta! – observou Madame Karne, animada.
Helena não pensou duas vezes. Segurou com ambas as mãos o cabo do instrumento, reuniu todas as suas forças e enfiou a faca no coração do palhaço, dando um empurrão consecutivo no homem, felizmente conseguindo derrubá-lo. Então pegou a faca no chão e saiu correndo em disparada para o primeiro ponto em que não avistara ninguém da trupe montando guarda. Sua melhor habilidade era a agilidade nas pernas.
– Ela vai quebrar o círculo! – berrou Madame Karne, em fúria.
Para escapar, fez um imenso rasgo no pano velho da lona e o atravessou sem pensar em Augusto ou qualquer pessoa que estivesse deixando para trás, incluindo crianças.
Não soube se fora seguida. Durante o princípio da fuga, não olhou para trás. Só deu uma rápida checada após atravessar a entrada do circo e se afastar vários metros.
Mais um calafrio deslizou pela espinha de Helena. A jovem enfermeira paralisou, terrificada, ao testemunhar o terreno baldio diante dos seus olhos completamente vazio. O circo desaparecera. E levara consigo mais da metade do povo de Vila Pinheiro.
A confusão fora tamanha que Helena não percebeu o carro vindo em alta velocidade. Parada no meio da rua de terra sem outra iluminação que não viesse da Lua Sangrenta, ela fora atropelada por um par de adolescentes bêbados. E eles não se preocuparam em prestar socorros a Helena. A impetuosa batida quebrou-lhe imediatamente a bacia e o crânio.
CONTO ESCRITO POR: ELIELTON CASTRO; para o desafio de Halloween elaborado pelo Clube de Livros.

 

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