CHEIO DE DEDOS | Estreia: Escrevendo com jogos de linguagem

Estreia da Coluna

Um dia a palavra escrita foi criticada por Platão, que considerava ser uma tecnologia nociva ao pensamento e memória humanos.

Desde a antiguidade grega até hoje, a tecnologia escrita (e do livro, imaginem!) e as que se sucederam inegavelmente afetaram o pensamento e a forma de expressão. Hoje, olhando os textos antigos e estudando suas análises, percebemos o quanto o ofício da escrita se modificou. Da mão para a máquina de escrever, da máquina para o teclado do computador, tudo mudou muito. Além da palavra impressa, temos a palavra em bytes. Do livro, passamos também aos blogs, e-books e aplicativos de publicação e leitura.

Neste mundo fragmentado,  a velocidade e a comunicação objetiva ocupa cada vez mais espaço. Por isso, iniciamos uma coluna exclusiva sobre a escrita para internet, um meio onde algumas preocupações são diferentes e a percepção das pessoas sobre o conteúdo muda bastante.

Aproveitem para conhecer a percepção e experiência de Alberto Brandão, que escreve para internet e é colunista há mais de 10 anos. Atualmente, redator responsável por textos para blog e demais peças de marketing, ele aceitou compartilhar sua experiência com os leitores do blog do Clube de Livros, assinando a coluna “Cheio de dedos”


Clube de Livros

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Escrevendo com jogos de linguagem

Desde que escrever virou minha profissão, recebo frequentes pedidos de amigos para que avalie seus textos e opine sobre a qualidade do material.

Para aqueles que estão começando a escrever e não possuem uma intimidade tão grande com as palavras, existe um erro que acontece com muita frequência, prejudicando a capacidade de transmitir a mensagem e envolver o leitor no contexto. Ao tentar transcrever um pensamento, o escritor tende a despejar a conclusão que tem formulada, sem antes guiar o leitor pelo processo de descoberta da conclusão.

Eu gosto da ideia levantada pelo filósofo Ludwig wittgenstein, que introduz o que seriam Jogos de Linguagem. Para Wittgenstein, sempre que alguém usa uma palavra ou uma frase, existe um jogo de fundo que contribui para seu significado real.

Quando a esposa diz para o marido “você não me ajuda”, ele tentará enumerar todas as coisas que faz em casa, interpretando de forma literal e jogando o jogo “estabelecendo os fatos concretos”. No entanto, a esposa está tentando dizer algo diferente. Através de uma simples frase, ela quis dizer “Quero que você seja mais presente”, a esposa está jogando outro jogo, ela quer que sentir-se mais segura no relacionamento e apoiada pelo marido.

Para o filósofo, todos os desentendimentos e conflitos humanos são causados por não entendermos o jogo que a outra pessoa está inserida.

Como escritor, a ideia de jogos de linguagem serve como uma ferramenta muito útil, que nos lembra de construir o contexto que entregará a mensagem. Por isso, escrever contos eróticos pode ser um bom exercício de escrita. Quando queremos descrever uma cena erotizada, precisamos nos esforçar para construir muito bem o contexto de uma ação, uma vez que, de forma isolada, a ação pode não ter o impacto desejado, deixar de fazer sentido ou até transmitir a sensação oposta.

Todos temos uma imagem definida ao ouvir uma palavra. Quando alguém pensa em “carro”, pode surgir a cena de um esportivo conversível vermelho com rodas cromadas, enquanto para outra pessoa pode ser um grande sedan preto e com vidros escuros. Quem escreve, precisa construir a imagem que o leitor receberá ao ler a palavra carro.

O leitor sempre está apoiado nas concepções de mundo que construiu ao longo da vida, e se o autor não guiá-lo por uma nova concepção, o texto pode ficar entediante, confuso ou desinteressante. O papel de quem escreve não é transmitir uma ideia, mas pegar o leitor pela mão e caminhar por todo processo até que ele mesmo adquira aquela visão, muitas vezes antes que o próprio autor conclua o pensamento por escrito.


Referências de leitura:
* Investigações Filosóficas de Ludwing Wittgenstein

* Lois Shawver, On Wittgenstein Concept of Language Games

 

 

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Um comentário em “CHEIO DE DEDOS | Estreia: Escrevendo com jogos de linguagem

  • 5 de outubro de 2017 em 14:57
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    é aquela né? cada pessoa é um mundo. Se o escritor quer personagens fortes, definidos, precisa saber as verdades deles. né isso?

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