CERTAS LINHAS TORTAS… | Um punhado de coisas e algo mais

O que leva uma pessoa a sentar e, diante de um computador, de uma folha em branco, ou na parede, escrever algo? Leminski dirá:

“Razão de ser. Escrevo. E ponto.
Escrevo porque preciso.
Preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso. […]” 

O polaco-louco-pacas curitibano (palavras dele) certamente tinha razão. Nestes versos falsamente simples (eles têm ritmo, rima, aliteração e sentido), a razão do ato de escrever é posta como, essencialmente, uma obrigação: “razão de ser”. Raison d’être, se um espírito oitocentista ler este texto. Escrever é o que faz de Leminski, vejam só, Leminski.

“Escrevo porque estou tonto”. O que deixou o poeta tonto? Resposta logo a seguir: “ninguém tem nada com isso”. Porém, questionar é preciso. Seria o mistério do ser que deixa o poeta tonto? Será o horror metafísico que o deixa tonto? Seria álcool? Respostas há as mais numerosas.

Outro autor cheio de consoantes, Czesław Miłosz, dizia que escrevia por influência de um δαίμων (daímon, um espírito — de onde veio o nome mais comum do cramulhão) lhe soprava no ouvido. Donde temos duas hipóteses: ou o Nobel de literatura de 1980 tinha ligações diretas com o sobrenatural, ou também era uma espécie de obrigação, mas a que o poeta polonês preferiu dar um elegante nome grego. Curiosamente, um grego saberia que, sob influência de um bom espírito, teríamos eudaimonía, isto é, felicidade.

Eis que surge um novo elemento, mas este, como todos os outros mencionados, não necessariamente verdadeiro: escreve-se para ser feliz?

Depois das catástrofes do século XX (não nos esqueçamos daquelas que ocorreram nos séculos anteriores, contudo), a poesia, embora pudéssemos dizer, com alguma audácia, a literatura teve cassado o direito (linguagem intencionalmente jurídica) de ser inocente. Poemas bonitinhos, rimas fáceis – tudo relegado à gaveta (ou às infindáveis pastas e subpastas dos computador). Aqui se põe uma inquietação algo distinta daquela que me levou a começar este texto, mas igualmente válida: poemas felizes meio que saíram de moda, então, definitivamente, a alta literatura (eca!) do século XX e aquilo que já foi escrito no XIX não foi escrito para fazer ninguém feliz. Aliás, isto se chama autoajuda e, já denuncia o nome, ajuda principalmente o próprio autor (devo o gracejo a Leandro Karnal).

Agora, um pequeno flashback histórico. A Ilíada foi escrita para narrar a “ira tenaz” do “Peleio Aquiles” que era “lutuosa aos gregos”. Lutuosa é uma palavra ótima. Tem mais ou menos a idade da Ilíada e significa “fúnebre”, “vestida de negro”. Ou seja: nenhuma felicidade. De resto, a Ilíada fala de guerra, tema que frequentou a mentalidade humana por muito tempo trazendo consigo a noção de glória, mas também de sofrimento e morte. E da morte, desde muito, ninguém gosta. E porque Homero (ou uma grande quantidade de rapsodos anônimos a que se deu o nome de Homero) escreveu sua Ilíada e, depois, a Odisseia? Para que os feitos fossem lembrados (razão semelhante àquela de Heródoto, a quem é atribuída a paternidade da história).

Flashback feito, o que leva alguém a escrever?

Pode ser que alguém tenha sonhado com palavras e decidido colocá-las no papel. Outro pode escrever por profissão: jornalista. Um terceiro pode escrever por ordem divina: profeta. Nos dois últimos casos, há uma obrigação: o salário no final do mês ou uma ordem divina – quem sabe o que o deus faria se o pobre profeta não escrevesse?

Escrever demanda tempo, demanda trabalho; é cansativo e pouquíssimos felizardos vão ter retorno financeiro com isso (e há ainda a chance de que os herdeiros do escritor acabem lucrando mais do que ele). Então, oh Zeus, o que leva alguém a escrever?

Pode ser um pouco de vaidade – ter seu livro na estante, entre Proust, Shakespeare e Borges (aliás, um falso modesto). O livro se torna um troféu: “eis-me ali, no panteão. A diferença é que ainda não fui reconhecido”. Pode ser uma resposta, mas é uma resposta bastante questionável. De resto, questionável como todas as outras aqui ensaiadas.

Escrevo para narrar o que julgo importante o suficiente para não ser esquecido. Escrevo para narrar o horror que vi (literatura de testemunho). Norma ética suprema da literatura de testemunho: “sobreviveste não para sobreviver / tens pouco tempo / é preciso dar testemunho” (Zbigniew Herbert). Escrevo para contar a viagem que fiz (literatura de viagem).

E a ficção high fantasy? O que levou Tolkien a escrever? O que levou George R. R. Martin a escrever (e a ainda não escrever o próximo livro)? A ficção, muitas vezes, é um meio de falar da realidade, mas “usando luvas”.

Para mim, a melhor resposta para a pergunta “o que leva alguém a escrever” está naquele mesmo poema que citei ao início do meu texto:

“[…] Eu escrevo apenas.
Tem que ter um por quê?”.

A discussão suscitaria ainda uma pletora de temas (a inspiração, as musas e até a função social do texto) mas este texto já ficou demasiadamente longo.

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