CERTAS LINHAS TORTAS… | Continuam os pitacos

O primeiro texto que escrevi tangenciava a questão “o que leva alguém a escrever?”. Chegamos, naturalmente, a mais perguntas do que respostas. Neste texto, pretendo inverter o polo: deslocar o foco do escritor para o leitor.

Então, a pergunta talvez seja: “o que lê quem lê?”.

Quando temos um texto literário em mãos, costumamos pensar no enredo, na narrativa que ali se encontra e dar a ela uma interpretação. A leitura mais comum é aquela que lê o texto levando em conta as experiências do autor (chamemos tal forma de leitura genética).

Para uma leitura genética, o autor é o senhor soberano do texto. Seu texto só pode refletir suas experiências, sua subjetividade, seus pensamentos e suas opiniões. Uma leitura assim é possível, embora, geralmente, não seja a melhor leitura possível. Eu posso escrever um texto narrativo que comece com:

“Luiz Henrique Budant foi tomar um refrigerante”.

Uma leitura genética diria: ora, simples, ele tomou um refrigerante. O problema é que Luiz Henrique Budant não toma refrigerantes. E agora, como fica? Isto é mentira ou ficção? Aliás, eis aí uma pergunta ótima (e, como todas as perguntas ótimas, o debate já dura mil anos e não chegamos a nenhuma resposta): onde acaba a mentira e começa a ficção?

Uma resposta possível é o “pacto ficcional”. Já foi um dos grandes temas da teoria da literatura, hoje nem tanto. O pacto ficcional basicamente é um acordo estabelecido entre o leitor e o autor: o primeiro não questionará determinadas coisas, ou acreditará que elas são verdadeiras, ao passo que o segundo não abusará das suas prerrogativas. A melhor enunciação de pacto ficcional que conheço é:

“O autor atual deste livro garante que o leitor não será condenado a morrer depois de tê-lo lido, como foi o destino dos seus predecessores, em 1691, quando o Dicionário Kazar ainda estava em sua primeira edição e quando o seu primeiro autor ainda vivia. A propósito dessa primeira edição é necessário fornecer algumas explicações, mas, a fim de não se estender inutilmente, o lexicógrafo propõe um acordo ao leitor: ele escreverá suas observações antes do jantar, e o leitor as lerá depois das refeições. Assim, a fome impulsionará o escritor a ser breve e o leitor, saciado, não achará a introdução demasiado longa.”

Retirei este trecho da fantástica obra Dicionário Kazar, de Milorad Pavic, publicado no Brasil em 1989 pela Marco Zero. Firma-se um acordo e tal “acordo” nos dá algumas garantias: não morreremos após ler o livro e não acharemos a introdução demasiado longa. Brincadeiras pavicianas à parte, a leitura de Dicionário Kazar pode levar um leitor a questionar o que lê, conforme eu me propus a fazer no início de meu texto, a questionar como lê e, principalmente, questionar os sentidos da literatura.

Uma obra como Dicionário Kazar complica a aplicação de leituras genéticas, pois o autor é apenas um copista (segundo o pacto ficcional) e os fatos narrados são fantásticos demais para serem baseados em experiência (ou o mundo é mais louco do que parece…).

Nestas plagas da leitura a que chamei genéticas, também grassa uma pergunta muito frequente: o que o autor quis dizer? Ora, o que o autor quis dizer… Minha posição em relação a isso é simples: não importa. Ou importa, mas o único jeito de saber é perguntando a ele. Um texto literário não deve ser abordado com a pergunta sobre a intenção do autor, principalmente depois da noção de que os textos estão sempre em construção na interação entre o texto escrito e a subjetividade de quem o lê.

Parece que há liberdade interpretativa demais no mundo, então faça-se um aviso: apesar de haver um espaço significativo para a subjetividade, a interpretação não é absolutamente livre, ela tem uma “base material”. Esta base é, precisamente, o texto.

Uma boa interpretação é aquela que não foge ao texto, penetra-o e revela suas mais profundas, ocultas, até secretas. Mas não necessariamente está de acordo com a vida do autor ou com a sua época (e aí eu corro o risco de levar bronca dos historiadores). Uma boa interpretação analisa as metáforas, tenta extrair-lhes sentido. Na poesia, a boa interpretação, necessariamente, precisa levar tudo em conta.

Resumindo: esqueçam a ideia de “intenção do autor”, atenham-se ao que está escrito, viajem dentro dos limites textuais dados e, como escreveu Leminski em seu Catatau, virem-se!

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