BAGAGEM LITERÁRIA | Neil Gaiman, Amanda Palmer e Chimamanda Ngozi Adichie no Festival Internacional de Literatura de Dublin

Jocasta Oliveira, ou como chamamos nossa querida correspondente internacional (ui, somos chiques!), Jojo falará nessa coluna chamada Bagagem Literária sobre suas experiências pelos vários lugares que visitou e morou em relação à sua grande paixão, que é a Literatura! Vivência, cultura, livros, pessoas, histórias e tudo que tem relação com inspiração e criação literária! Não percam a oportunidade de aumentar a sua bagagem com a Jojo! E pra estrear a coluna, nada mais nada menos que Neil Gaiman e Amanda Palmer no Festival internacional de Literatura de Dublin. Confiram o post a seguir e não deixem de acompanhar as viagens 😉


Dublin: uma das 28 cidades da Literatura nomeadas pela UNESCO (ocupa mais exatamente o quarto lugar no ranking).

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Foto: @loving_jojo

Além do título, é impossível caminhar pela cidade e não perceber a relação das pessoas com a literatura (livrarias para todos os gostos: novas, antigas, de livros novos ou usados, uma rede de bibliotecas enorme e lindíssima, pessoas de todas as idades lendo em todos os lugares) e aquela sensação surreal de andar pelas ruas, bares, casas e locações em que Joyce, Wilde, Yeats, Beckett como tantos outros escritores e escritoras caminharam, viveram e se inspiraram para escrever. Vivencio diariamente uma mistura de incredulidade, felicidade e até uma certa pressão para ler mais autores irlandeses (convenhamos que James Joyce é uma força onipresente aqui e que em todos os lugares da cidade há algum lembrete te dizendo que você já deveria ter lido Ulysses!)

Em pouco mais de 6 meses morando nessa cidade verdinha, repleta de pubs e livrarias, me surpreendo com o Festival Internacional de Literatura de Dublin (http://ilfdublin.com/) e uma programação maravilhosa – incluindo workshops, palestras em Inglês e Gaélico (a língua “oficial” não tão oficial assim da Irlanda) com autores de renome como Chimamanda Ngozi Adichie, Michael Odaatje e o casal mais querido do mundo literário: Neil Gaiman e Amanda Palmer (!!!!!) – Os ingressos para os talks e workshops tinham um preço razoável (entre 16,00 – 28,00 Euros). Todavia, acabei descobrindo ao visitar a própria página do festival que existia um programa de trabalho voluntário para o festival (o que, por sinal, é bem comum por aqui) em que os voluntários trabalham e ganham entradas “VIPS” para assistir determinadas palestras e participar (hell yeah!!!). Me inscrevi de prontidão e, para minha surpresa, fui selecionada! E eu não estava bem, caros amigos… eu mal podia acreditar que veria Amanda Palmer e Neil Gaiman em um evento só. (Um adendo: Neil Gaiman esteve no Brasil pela última vez na edição de 2008 da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, eu na época era uma estudante universitária de 20 aninhos, que apesar de muito fã de Sandman e de Mr. Gaiman himself, morava em uma capital no seio da floresta amazônica e não tinha nem dinheiro pra ir pedindo carona até Paraty e acampar durante o festival, como cogitei fazer… imaginem 10 anos de frustração por ter perdido essa chance).

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Neil Gaiman. Foto: @loving_jojo

Me reuni com a equipe do festival uma semana antes da abertura oficial, para receber funções e conhecer mais a respeito da política do evento e que surpresa conhecer pessoas de tantas nacionalidades diferentes, todas ali juntas trabalhando e se divertindo! (Mas estamos na Irlanda né, my friends, e é claro que tivemos uma noite social dos voluntários num dos pubs mais bacanas de Dublinho para dividirmos as experiências, quais palestras iríamos assistir e afins que aconteceram durante o festival).

A abertura do festival foi com a maravilhosa (e poderosa!) Chimamanda Ngozi Adichie. Infelizmente, antes mesmo da inscrição dos voluntários o evento já estava esgotado, mas quem teve a chance de ir contou que a palestra foi incrível e extremamente relevante para os acontecimentos que se processavam na Irlanda coincidentemente no mesmo período do festival – depois de meses de campanha e anos de obscurantismo religioso, a Irlanda votou no dia 25 de Maio deste ano para o fim da criminalização do aborto no país (um dos últimos da União Europeia a tornar o aborto legal). O clima era bastante tenso entre os grupos pró-vida e pró-escolha, e Chimamanda se posicionou claramente a favor da mudança na constituição do país e se dispôs a responder perguntas, inclusive de pessoas que tinham um posicionamento contrário.

Entre algumas palestras sobre língua gaélica e com autores locais em que trabalhei, finalmente no dia 25 (Sim, exatamente no dia da votação) foi o meu dia off duty e dia de ir ao cinema com Neil Gaiman! Esse foi um evento limitadíssimo no Instituto de Cinema Irlandês, um lugar maravilhoso que engloba escola de cinema, acervo e um cinema independente com salas pequenas – super aconchegantes – e um bar, porque mais uma vez, estamos na Irlanda. A organização do evento e do instituto propôs que Gaiman escolhesse um filme para ser exibido e comentar com os presentes. O filme em questão é Alice e se trata de uma adaptação cinematográfica de 1988 bem surreal do clássico de Lewis Carroll dirigida pelo diretor tcheco (e amigo pessoal de Gaiman) Jan Švankmajer.

Antes de entrar nos pormenores da exibição do filme e bate-papo com Mr. Gaiman, eu preciso mencionar o quanto estava ansiosa para este “encontro”, o quanto o dia estava lindo (uma sexta-feira ensolarada de primavera) e que toda a cidade estava envolta em um certo ar de otimismo (é claro que aqui o clima influi muito no humor das pessoas), mas era o dia da votação e era possível notar com o passar das horas e manifestações das pessoas na rua que o sim para a mudança estava cada vez mais próximo.

Chego bem cedo no cinema para pegar um bom lugar (a sala de cinema devia ter no máximo uns 150 lugares) e logo na fila conheço duas criaturas maravilhosas: uma australiana (turista, que passando por acaso na rua descobriu o cinema e conseguiu um ingresso que alguém comprou e não poderia estar presente durante a sessão, deixando o ticket de cortesia na bilheteria) e uma irlandesa que tinha acabado de votar pela primeira vez na vida e aspirava ser escritora. Todas muito apreensivas e se perguntando se Neil assinaria livros depois, se ele estaria presente durante a sessão… eis que de repente, Mr. Gaiman himself simplesmente chega pela porta principal do pequeno cinema, cumprimenta algumas pessoas, sorri e segue para o bar (vestido de preto, com um blazer com alguns detalhes vitorianos bem discretos, cabelos e barbas quase que inteiramente grisalhos) – e a essa altura, caía a ficha de onde eu estava e do que eu estava prestes a vivenciar. Consegui ser uma das primeiras a entrar na sala de cinema e sentar na primeira fileira (portanto de frente para Mr. Gaiman) ele fez uma breve introdução ao filme, se aconchegou em uma das poltronas da sala e assistiu o filme junto com todos. O bate-papo foi mediado pelo escritor irlandês John Connolly e o festival divulgou o áudio na íntegra aqui: https://www.mixcloud.com/IrishFilmInstitute/neil-gaiman-in-conversation-at-the-ifi-ildf/

Gaiman respondeu perguntas a respeito do seu processo criativo, e isso fez com que uma boa parte da entrevista fosse dedicada a falar sobre a relação (e amizade) criativa de Gaiman com Terry Pratchett e de como fazer um adaptação de Good Omens para a TV soava para Gaiman como um último desejo de Pratchett em vida e dos desafios de não repetir os mesmos erros cometidos em adaptações e roteiros feitos pra TV anteriormente. Ao fim da entrevista, o microfone ficou aberto para os fãs fazerem suas próprias perguntas e alguém perguntou para Gaiman como o escritor concebe e escolhe as palavras para sua obra, e Gaiman simplesmente responde dizendo que aquela era uma das melhores perguntas que alguém poderia perguntar a um escritor (Damn! Como eu queria ter feito aquela pergunta!) afinal, muitas pessoas perguntam como as estórias nascem, mas ninguém pergunta sobre as palavras… e que after all, entre uma escolha e outra, o mais difícil é sempre: qual a palavra que vem a seguir?

33442852_1873704232661896_402439165779640320_oFim de talk, infelizmente não haveria uma sessão de autógrafos. Já passam das dez da noite. Algo me diz para aguardar (carrego comigo uma edição brasileira de Deuses Americanos, um dos meus favoritos) cerca de uma hora depois, ele está de saída, poucos fãs aguardando, tomo coragem, as palavras mal conseguem sair e pergunto se ele poderia assinar meu livro. Com aquela voz plácida e calma ele diz: Claro! Saca uma caneta tinteiro com tinta verde lagarto, pergunta o meu nome (sempre recebo uma expressão facial diferente quando respondo às pessoas o meu nome) e converso com ele sobre a espera de dez anos, desde Paraty para aquele momento. Ele se lembra prontamente da ocasião e se recorda até hoje de se surpreender ao lembrar como milhares de pessoas tinham se deslocado até Paraty, só para vê-lo. Me devolve o livro e me dá um abraço (e eu ainda acho que eu estou ali, naquele cantinho do lobby do cinema completamente derretida) voltei pra casa flutuando, meus caros. Com certeza um dos dias mais felizes da minha vida! Neil fez uma palestra extra de encerramento do festival, que não pude estar presente em um grande e luxuoso centro de convenções da cidade. Muito mais pessoas estavam presentes do que no cinema e houve uma sessão de autógrafos no final. Alguns fãs ficaram mais de 3 horas na fila para conseguir um autógrafo e trocar algumas poucas palavras com Neil de perto. Alguns amigos que encararam essa fila contam que ele sempre recebia os fãs dizendo: “Olá, @! muito obrigado por ter esperado!” (love intensifies!) 

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Amanda Palmer. Foto: @loving_jojo

No dia seguinte muita apreensão por causa da contagem de votos do referendo do dia anterior e aquele frio na barriga de ver Amanda Palmer bem de perto também. Além da presença e da voz de Amanda preencherem um auditório inteiro, ainda que esteja cantando suas músicas acompanhada apenas de um singelo ukelele, A arte de pedir foi um livro que revolucionou (e ainda revoluciona) a minha vida. Ao longo dos anos, me tornei uma pessoa bastante tímida e com uma grande tendência a me auto sabotar e esse livro (que não, não é de auto ajuda) até hoje me ajuda a dar crédito às minhas próprias ideias e planos e acreditar que outras pessoas podem ajudar a fazer com que tudo dê certo.

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Amanda Palmer e Laurie Penny. Foto: @loving_jojo

O bate-papo seria entre Amanda Palmer e Laurie Penny, uma escritora feminista e colunista britânica que além de livros, escreve para o The Guardian. Cerca de meia hora antes de chegar no auditório onde seria a palestra, a confirmação: com quase 70% dos votos a favor, a Irlanda escolheu pelas vidas e pelo direito de escolha das mulheres, pedindo pela remoção da emenda que criminaliza o aborto. Uma felicidade sem tamanho toma conta de mim dentro do ônibus, vejo que algumas mulheres também não conseguem conter o choro de alívio e se abraçam e se cumprimentam. Às vezes é difícil acreditar que realmente estou aqui e vivendo esses momentos. Ao entrar no palco, Amanda empunhando seu ukelele se dirige à plateia: “Vocês deviam estar em um pub comemorando! Mas faremos com que aqui se pareça um pub!” e começa a cantar In My Mind com vários presentes na plateia cantando junto e é possível sentir mais uma vez uma sensação de alívio e de um futuro melhor para as mulheres que vivem nesse país.

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Sessão de autógrafos com Amanda Palmer

O tom da conversa é determinado por esse dia histórico na Irlanda e Amanda comenta suas próprias experiências com aborto durante a adolescência e Laurie entra com dados mais precisos de como abortos clandestinos e inseguros ainda são uma triste realidade na Europa, além de ambas comentarem brevemente a respeito dos seus livros e de como se envolveram na campanha para o voto a favor da legalização do aborto na Irlanda. Quem quiser conferir o bate-papo na íntegra, segue o link para o livestreaming que a própria Amanda fez no dia: https://www.pscp.tv/w/1jMKgqmrjPgJL

Sou extremamente grata por ter participado do festival como voluntária, de ter contribuído para que o evento acontecesse, por ter visto de perto autores tão queridos e admirados por mim há tanto tempo e ter tido a chance de conhecer novos autores. Mal posso esperar para o próximo festival! Sláinte!

 

 

 

 

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