BAGAGEM LITERÁRIA | James Joyce, um fantasma onipresente em Dublin – Parte 1

Dublin, a pequena capital da ilha esmeralda: além de uma das cidades da literatura de acordo com a UNESCO, berço de grandes nomes da literatura moderna, tais como Samuel Beckett, Jonathan Swift, Oscar Wilde, George Bernard Shaw, e ele, o mais queridinho e a força onipresente em Dublin: James Joyce – ou JJ, Jimmy, ou Jaiminho para os (bem) mais íntimos!

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Minha edição de “Dubliners” e a estátua de James Joyce ao fundo (Foto: @loving_jojo)

Quando eu digo onipresente, não é exagero: Joyce está bleedin’ feckin’ everywhere! Ainda consigo me lembrar muito bem do primeiro dia em que cheguei em Dublin: uma tarde de Novembro (que mais parecia noite, afinal era inverno) – não passavam das 5 da tarde mas o céu já estava completamente escuro, com aquela “chuvinha” tão característica e aquele vento que quebra todos os guarda-chuvas aqui dessa amada ilha verdinha. Ainda lembro de olhar para as ruas e pessoas, tentando me concentrar em captar minhas primeiras impressões da cidade (ainda que lutando contra o vento cortante e os pingos de chuva gelada no rosto). Logo de cara, em algumas poucas horas em solo irlandês, passei por uma estátua do nosso querido Jaiminho, me dando as boas-vindas e fazendo eu me sentir uma nova personagem de histórias ainda a serem escritas nessa cidade. (o que pode parecer uma bobagem, mas ao estilo das epifanias presentes nos contos de Dublinenses, fez com que eu subitamente me sentisse conectada com a cidade e com os irlandeses que ia conversando ao longo da caminhada noturna).

Após algumas pernadas pela cidade para conhecer um pouco mais da noite dublinense e depois de uma boa noite de descanso (mesmo com os sonhos e pensamentos ainda lá em terra brasilis) sigo no dia seguinte para conhecer o novo apartamento e organizar a mudança (um total de 5 malas cheias de lembranças e uma porcentagem ínfima da minha biblioteca e coleção de discos, mas nessa vida desapegar e mudar é preciso, caros amigos!) e quem eu encontro virando a esquina? Sim, nosso caríssimo Joyce morou por alguns anos com a família aqui, no lado Norte de Dublin. 

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Fachada de uma das casas de Joyce ao Norte de Dublin (Foto: @loving_jojo)

A cidade é dividida em norte e sul, sendo a região norte considerada mais modesta e working class e a região sul mais nobre e abastada. É possível notar que as diferenças entre as duas regiões vão além do histórico da colonização britânica e do poder aquisitivo até culminar no sotaque de seus moradores – eu fico impressionada ao perceber como em um espaço geográfico tão pequeno, o sotaque do norte e sul da cidade são tão acentuados, distintos e reconhecíveis! E olhem só, Joyce era um North-sider! (Isn’t it GRAND?) e de repente, eu estou aqui, morando no mesmo bairro, pisando nos mesmos quadradinhos em que Joyce cresceu e se inspirou para retratar as pessoas (os dias estão de alguma forma sempre repletos de epifanias surreais por aqui!).

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Hodges Figgis – livraria frequentada por Joyce e citada em “Ulysses” (Foto: @loving_jojo)

Depois de apartamento organizado, malas vazias e tudo no seu devido lugar, faço uma pesquisa sobre livrarias para visitar, afinal a cidade respira literatura (e vida nova, biblioteca nova!). Imaginem a minha surpresa, meus caros, ao descobrir que existe uma livraria lindíssima no centro da cidade que é citada em algumas passagens de Ulysses (ou seja, o próprio Joyce e seus personagens estiveram ali, procurando volumes, folheando-os e se demorando para um café e um trago) – logo ao entrar no interior da Hodges Figgis, passando pelos 3 andares (com um deles dedicado inteiramente à literatura irlandesa) é possível sentir a atmosfera Joyceana. Ainda no rolê de livrarias, decidi ir até a Chapters Bookstore, muito famosa por ter um acervo enorme entre livros novos e usados a preços mui simpáticos! Depois de um bom tempo folheando edições lindas, percorrendo corredores repletos de livros dos mais diferentes gêneros, decido levar uma edição de bolso de Dublinenses para uma releitura (afinal, seria o momento perfeito para reler e continuar a estabelecer uma conexão com a “gente de Dublin”), me dirijo ao caixa, e o atendente, um jovem irlandês de uns 20 e poucos anos vira pra mim e diz: “- Esse é meu livro preferido, eu sempre fico muito feliz quando as pessoas levam ele!”

Sim, meus caros, foi aí que eu tive mais uma (e talvez a mais importante) epifania: Joyce está aqui, fortuitamente entre as pessoas, entre as conversas, entre as interações. Eu acho “coincidência” uma redução muito simplória para os acasos pontuais e sincronicidades que permeiam o nosso cotidiano, afinal, não seriam esses acasos e encontros o que dão mais significado e emoção às pequenas coisas do nosso dia a dia? Como eu disse ali no começo do texto, pode parecer bobagem, mas eu prefiro encarar a vida assim…

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Comércio em Dublin durante o “Bloomsday” (Foto: @loving_jojo)

Nos próximos dias, semanas e meses, sigo explorando Dublinho aos poucos, sem pressa, com todo carinho e atenção que essa cidade merece: começo a perceber que em determinados pontos da cidade existem placas no chão, indicando os lugares da cidade em que Leopold Bloom, o herói de Ulysses (ou a grande epopéia Joyceana) percorreu ao longo do dia 16 de Junho de 1904, dia em que até hoje é celebrado o “Bloomsday” – festival organizado pelo conselho municipal e vários voluntários, em que todas as locações citadas em Ulysses são tomadas por fãs vestidos a caráter para celebrar a obra de Joyce com leituras, dramatizações e bons drinks por toda a cidade. Preciso enfatizar que o Bloomsday é um dos eventos mais importantes e mais esperados de Dublin, além de atrair muitos turistas para a cidade todos os anos.

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Sweny’s Pharmacy no centro de Dublin

Além dos encontros fortuitos com Joyce pela cidade (nas fachadas de hotéis, pubs, livrarias, etc.) existem alguns lugares indispensáveis para quem deseja mergulhar na vida de Joyce: a Sweny’s Pharmacy (pequena farmácia citada em Ulysses e famosa pelos sabonetes de limão utilizados por Leopold Bloom) que hoje reúne memorabilia da farmácia original e organiza leituras de obras de Joyce quase todos os dias, em diversas línguas e é mantida por voluntários e entusiastas da obra Joyceana, que estão sempre ali disponíveis para um bom bate-papo sobre literatura; o James Joyce Centre – museu no centro de Dublin que reúne memorabilia e realiza exposições relacionadas à vida e obra de nosso querido Jaiminho e por fim, a James Joyce Tower – uma das famosas torres martello que existem aqui na Irlanda, esta em particular se localiza em Sandycove, distrito ao Sul de Dublin e onde Joyce se hospedou por seis noites para escrever alguns capítulos de Ulysses, e acabou causando (e muito!) durante essa curta estadia. Prometo que conto para vocês na parte dois os barracos Joyceanos, assim como mostrarei o interior desses lugares incríveis e que histórias eles reúnem! Aguardem e fiquem com uma das minhas citações preferidas de Joyce:

“I wanted real adventures to happen to myself. But real adventures, I reflected, do not happen to people who remain at home: they must be sought abroad” – Dubliners

Sláinte!

 

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